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Castelos de areia

Castelos de areia

Paulo Rathunde –

Certa vez eu e meu filho construíamos na praia um castelo de areia. Era muito trabalho e cuidado dedicados à obra até que, finalmente, “Voilá!”, estava pronto. Belo, maravilhoso, orgulho que nos preenchia aos comentários de cada transeunte. Era, sim, o que eu sentia. Mas o que meu filho sentia? Eu não fazia ideia, pois ele queria destruir nossa obra-prima. Como assim? Depois de tanto trabalho? Levou muitos anos para me dar conta de que meu filho tinha uma perspectiva totalmente diferente da minha. Eu pensava no produto final. Ele, na mera diversão.

Durante os anos que se seguiram eu me dediquei à sua educação, mostrando-lhe a importância daquilo que somos capazes de produzir, mostrando-lhe o valor da dedicação, do trabalho sério e árduo para chegarmos a resultados expressivos. Eu diria que fui bem sucedido na minha tarefa. Ajudei a transformá-lo em alguém eficiente, capaz de trabalhar duro, com dedicação, vontade e energia para produzir coisas úteis. Fiz dele alguém que tem valor de mercado, bem remunerado por empresas que demandam dele resultado e eficiência. Consegui que meu filho se transformasse em alguém de sucesso como eu.

Ontem recebi uma foto dele com meu neto exibindo orgulhosos um castelo de areia por eles construído no litoral norte de São Paulo. O estranho efeito daquela foto foi um aperto no peito diante da percepção de que a essência de meu filho fora desmantelada por minhas crenças. Eu o transformei num autômato, alguém que responde bem às demandas de uma sociedade maluca, focada em produtividade, em eficiência, em lucratividade, alguém resignado a suportar calado o sofrimento de uma vida em busca de resultados, um recurso humano, sem alma, sem calor, sem vida. Eu criei um infeliz que não tem tempo pra si nem pra ninguém, alguém que não tem relações verdadeiras, que se submete e pratica manipulação, que não se abre para um afeto, que não sabe o significado do Amor, que tem medo, pois desaprendeu a brincar, a estar presente num dos poucos momentos com seu filho numa praia caríssima de São Paulo.

E eu? O que fazer de tão longe com uma lágrima sobre a foto? Que compromisso me impedia de também estar naquela praia? Ao me sentir um tolo, comprei passagem no próximo voo com um firme propósito: de, enquanto houvesse tempo, aprender com meu neto a delícia de destruir um castelo de areia, de simplesmente desfrutar plenamente os naturais processos de construção e desconstrução, de me entregar por inteiro a cada momento e a cada relação, sempre únicos, de reconhecer a impermanência das coisas e o valor das relações, de compreender que o significado da vida está na caminhada, não na chegada, da capacidade de lidar com o incerto e indeterminado fluir da vida, de aprender a ser verdadeira e simplesmente o que se É. Fui lá aconselhar meu filho a esquecer quase tudo o que eu lhe ensinara, aconselhá-lo a deixar de me seguir e viver sua própria existência. Fui tentar libertá-lo das amarras nas quais eu o aprisionei. Fui lá dizer a ele que há pouco a ser ensinado a meu neto, mas muito a ser apendido com ele, pois tudo o que é possível construir neste mundo, não passa de castelos de areia. Permanecem na essência aprendizados e registros das brincadeiras vividas com integridade e Amor.

A elaboração de um sentido espiritual da existência encontra desafios nas crenças de cada um de nós, de alguma forma iludidos a respeito do que seja realidade.

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Sobre o Autor

Paulo Rathunde

Paulo RathundeFormação em Engenharia Civil; Me. em Organizações e Desenvolvimento; MBA em Gerenciamento de Projetos; Esp. em Psicologia Transpessoal, Administração de Empresas e Geoprocessamento; Autor dos livros Artesão do Meu Futuro e Peregrino; Eletricitário e Coordenador de Grupos de Estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE).

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