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COOPERATIVISMO construindo uma sociedade justa

COOPERATIVISMO construindo uma sociedade justa

Por Flavia Zanforlim – publicado na SER Espírita impressa n.11

Democracia, educação e cooperação são a água e o cimento. E as pessoas são os tijolos

 

Conhecemos e reconhecemos muitas das vantagens que a globalização possibilitou à humanidade. Mas dificilmente associamos o desemprego e a exclusão social a este fenômeno. Talvez porque ele venha com a embalagem da liberdade. Porém, o fluxo do sistema vigente é a competitividade, que exclui, enquanto a solução encontrada pelos excluídos dele é a cooperação, que integra.
Uma ordem econômica, diferente das linhas extremas – comunista e capitalista –, com nascimento datado em 21 de dezembro de 1844, na Inglaterra – cresce devagar, mas forte, por todo o mundo, inclusive no Brasil: o cooperativismo, que na Inglaterra há cerca de 150 anos denominava-se Sociedade dos Honestos Pioneiros de Rochdale.
O grande diferencial desta atividade econômica, segundo o secretário executivo da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Renato Nobile, “é que toda a geração de renda, receita e riqueza fica na comunidade”. Assim, o capital continua circulando, mas dentro de um planejamento que visa ao bem comum. Apesar de o primeiro grupo de cooperados ter sido formado por tecelões, o desenvolvimento do cooperativismo e sua propagação pelo Brasil se deram com a agropecuária, aliando-se à economia solidária aplicada na agricultura familiar. No Paraná, por exemplo, essa prática tornou, pelo menos na agricultura, as relações econômicas mais justas, como explica o engenheiro agrônomo Sílvio Galdino de Carvalho Lima. Na década de 1960, Lima foi o primeiro Diretor do Instituto de Colonização e Reforma Agrária do Paraná (Incra-PR), tornando-se uma das raízes do cooperativismo neste Estado.
O engenheiro agrônomo define a prática como uma atividade econômica com finalidade social. E conta que viu no cooperativismo a solução para o setor agrônomo no Paraná. “Atualmente somos vistos pelo mundo como potência em agropecuária, não só pela quantidade, mas também pela qualidade”. Mas Lima salienta que muitos pequenos e médios agricultores, especialmente os da agricultura familiar, carecem, ainda, de melhores condições para desenvolver-se de modo sustentável.
Para Nobile, o setor cooperativo agrônomo está equilibrado e novos ramos encontram-se em considerável crescente, sendo os de consumo, crédito, educacional, especial, habitacional, o de infraestrutura, o mineral, de produção, saúde, transporte e de turismo e lazer.
O trabalho não é fácil, mas é possível. Nobile revela que a participação desta prática no Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) já é de quase 6%, e que em 2009 foram movimentados cerca de R$ 89 bilhões. Esses números representam algumas das conquistas das 7.261 cooperativas do país, que beneficiam diretamente pelo menos 8,25 milhões de famílias.
Os especialistas salientam que a força do cooperativismo está em seus princípios universais, reconhecidos no mundo todo. E que, quando respeitados, a consequência é o sucesso. Segundo Nobile, está em pauta, na International Co-operative Alliance (Aliança Cooperativista Internacional), a discussão de um novo princípio, configurando o 8º. valor das cooperativas, que é a responsabilidade com o meio ambiente.

COOPERAR PARA INTEGRAR

É possível associar o cooperativismo com a teoria do pertencimento. Esta teoria fala dos valores que unem pessoas na composição de um senso de humanidade. É o reconhecimento do ser social. Neste contexto, não cabe a competição, mas sim a cooperação, que segundo Lima, “é o conceito-chave do cooperativismo”, sendo que o não entendimento dele torna inviável esta atividade.
‘Cooperar’ é um termo com origem do latim que significa ‘operar junto’. Mas, para isto acontecer, é necessário que todas as partes envolvidas tenham conhecimento sobre o que vai ser operado, e desejem agir em grupo. Pois a decisão é sempre coletiva. Lima conta que a participação econômica pode ser diferente em função proporcional ao investimento de cada cooperado, mas cada um tem somente um voto. “Diferente das instituições mercantis, que têm o peso do voto definido pela acumulação de ações”, completa Nobile. Por isso, a prática cooperativista humaniza as relações econômicas. Por que antes de ser uma atividade financeira é uma atividade de valor humano e que, portanto, agrega, antes de qualquer coisa, pessoas.

QUEM NÃO É VISTO NÃO É LEMBRADO

Se cooperar é agir junto, fazer comunicação é fundamental. As falhas de interação têm causas e consequências externas e, principalmente, internas à instituição. Nobile revela que possivelmente o maior desafio que o cooperativismo enfrentou e continua enfrentando é de natureza cultural, representado pela falta de conhecimento desta prática. “Entre as metas da OCB está a ampliação da comunicação, para alcançar mais pessoas e assim disseminar os valores e a ação cooperativista”, afirma.
Lima conta que o ramo mais difícil de se desenvolver no cooperativismo é o de serviço, ou o de trabalho, justamente porque a comunicação muitas vezes falha em função de interesses individuais, e a democracia, princípio fundamental da atividade, é abalada.

A BASE É A EDUCAÇÃO
“O Paraná deixou o exemplo de que a criação de seminários, englobando instruções de técnicas e de gestão para as cooperativas agrônomas, foi o motor de partida para que o empreendimento vingasse e conquistasse a representação que tem hoje”, conta orgulhoso Lima. E Nobile salienta que “o exemplo do Sul do país é levado para as demais regiões, como modelo a ser repetido, isto sem deixar de modernizar a base tecnológica e administrativa”.
O Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) “é uma das principais conquistas do cooperativismo no Brasil”, diz Renato Nobile. Com Lei decretada em 1999, ele beneficia os cooperados com a missão de promover o cooperativismo por meio da capacitação, da formação profissional, que estruturam a autogestão e o desenvolvimento social nas cooperativas.
Para Sílvio Galdino Lima, o próximo passo “é a formação de mentalidade cooperativista nas universidades”.

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