[kads group="topo-1"]


Espíritas do amanhã

Espíritas do amanhã

Por Simone Mattos – publicado na SER Espírita impressa n.8

edicao08

Crianças e adolescentes são por excelência o futuro luminoso da
humanidade, uma vez que trazem em si o potencial de um mundo
novo. Quanto melhor forem preparados para suas trajetórias
de vida, mais proveitosos serão seus caminhos. Talvez com esta
premissa, muitos jovens participam dos grupos de estudos espíritas

 

Quando tinha apenas oito anos de idade, o estudante de Física Allan Felipe Nunes Perna, 18 anos, começou a frequentar um grupo de estudos para crianças. Se o início foi por influência dos pais, logo a sua participação tornou-se uma escolha própria e ele prosseguiu os estudos em turmas específicas para adolescentes. Hoje, participa de um grupo para adultos. “Com o passar do tempo, entendi a importância e a diferença que isso faz em minha vida, em cada escolha, em cada atitude, em cada conversa, em cada passo, em cada reflexão sobre o que acontece comigo e com os outros, é por isso que estou lá até hoje”, afirma Allan.

Ele explica que as reuniões contribuíram para a formação de seus princípios e valores de forma grandiosa. “Sabemos que em nossas vidas acontecem inúmeras coisas, dentre elas, as escolhas. Quando nos deparamos com certos acontecimentos, cabe a nós optar pela melhor maneira de atuar diante da situação. Para isso, utilizamos nossa bagagem de princípios e valores construída durante toda nossa educação”, comenta. Ele diz ainda que tal bagagem está em constante construção e que quanto mais fundamentada estiver, melhores serão as escolhas. “Eu seria uma pessoa totalmente diferente se não fossem os grupos de estudos de que participei”, conclui.

Dono da mesma opinião, o engenheiro eletricista Erasto Villa Branco Neto, 22 anos, começou a estudar o Espiritismo em 2002, num grupo de adolescentes. “Para mim, foi uma experiência marcante. Aprendi muito sobre a Doutrina, fiz amigos e discuti temas que considero importantes”. Para ele, a referência dos valores espíritas e as trocas de opiniões que ocorrem nos grupos são muito importantes, principalmente na adolescência. “É bem mais fácil tomar decisões e adotar posturas quando se tem uma opinião bem fundamentada e quando se conhece outras pessoas que também vivem de acordo com o que acreditam”.

APRENDIZES DO EVANGELHO

Apesar de ter apenas 11 anos, a estudante Alessandra Fernandes Lacerda já tem uma ampla bagagem de conhecimentos. Participante dos grupos de estudos há quatro anos, explica que gosta das atividades propostas durante as reuniões, bem como dos assuntos tratados. “Faz com que eu seja uma pessoa melhor no dia a dia”, justifica. Assim como ela, toda a sua família – pais e irmão – também frequenta grupos de estudos. É o mesmo caso da estudante Erika Carvalho Ferreira, 12 anos, que desde 2005 participa de reuniões de estudos espíritas. “Comecei com a minha mãe, que me levou para conhecer o trabalho de evangelização”, explica. Erika gosta de poder dividir suas ideias com os amigos do grupo e também de poder aplicar na vida os conhecimentos que ali adquire. “Eu aprendo a me conhecer mais, a me avaliar e, assim, a me relacionar melhor com outras pessoas”, resume.

A educadora física e psicoterapeuta corporal Ana Rosa Brum M. Rocha, que coordena grupos de estudos espíritas infantis desde 2001, explica que o desafio inicial é ajudar as crianças a se perceberem atuantes, agentes transformadoras do social. “Nos meios sociais em que elas interagem, como família e escola, diante de suas urgências, é difícil propor a reflexão do seu dia a dia, de suas atitudes. Aqui, nos estudos, instigamos este olhar mais atento para sua participação no mundo”, afirma. Ela explica que é um desafio mostrar às crianças que Jesus é um assunto tão atual que até hoje precisamos nos esforçar para aplicar seus ensinamentos. “Por isso estudamos o Evangelho Segundo o Espiritismo”.

A importância destes grupos, na avaliação de Ana Rosa, é o olhar que as crianças passam a lançar sobre a vida. “A partir do momento em que se percebem atuantes na sociedade em que vivem; que suas atitudes fazem realmente diferença, pois são exemplos; que podem se alterar como seres humanos, – para melhor, – estas crianças tornam-se mais críticas e conscientes de suas responsabilidades.

Percebem – além das palavras – que o mundo precisa de mais amor, compreensão, solidariedade, respeito, e que elas podem contribuir com isto de forma direta e indireta”. Ana Rosa comenta ainda que, quando a família tem um filho participando do grupo de estudos, o seu envolvimento é inevitável. A criança, por sua natureza espontânea, envolve a família no aprendizado espírita e procura aplicar na vida os ensinamentos que obteve nos encontros. “Muitos pais nos vêm relatar melhoras nos estudos, nas relações com os amigos ou com a própria família e também na elevação da autoestima. Além disso, ter uma criança crítica dentro de casa ajuda, e muito, nos processos de mudança inerentes aos grupos familiares”.

PROPOSTA PEDAGÓGICA

Na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) – cuja sede fica em Curitiba (PR), mas tem núcleos espalhados por todo o país – os grupos de estudos para adolescentes e crianças tiveram início em 1996, após uma solicitação do espírito Leocádio José Correia (um dos espíritos orientadores da SBEE e da SER Espírita, em mensagem psicofonada pelo médium Maury Rodrigues da Cruz). A proposta dos mesmos fundamenta-se no projeto político pedagógico e no currículo do exercício mediúnico desenvolvidos pela instituição e tem como ponto central o estímulo constante para o “aprender a pensar”. O espaço do grupo de estudos funciona como um laboratório de vida, no qual se exercita essencialmente o amor ao próximo, a tolerância, a paciência, a aceitação do outro com seus defeitos e qualidades e, antes de tudo, a aceitação de si mesmo. Isso acontece por meio de dinâmicas, jogos e brincadeiras, sempre enfocando os princípios básicos: Deus, Jesus, reencarnação, livre-arbítrio e mediunidade.

“A filosofia deste trabalho considera que a criança e o adolescente são por excelência o futuro luminoso da humanidade, uma vez que trazem em si o potencial de um mundo novo, assim como a semente traz em si o potencial da árvore que virá a ser. No entanto, é preciso assegurar e garantir que eles conheçam, alcancem, desenvolvam e expandam suas forças, suas inteligências, suas potencialidades e possibilidades”, observa o coordenador destes grupos, Reginaldo Francisco Domingos.

Ele explica ainda que a educação espírita tem como objetivo promover o aprendizado dos valores universais que sustentam o ser humano na sua jornada evolutiva, de forma que crianças e adolescentes se constituam em sujeitos ativos e participativos, autores e construtores da sua própria vida, capazes de contribuir na construção de uma vida nova. “Diante de um mundo tão conturbado, nunca foi tão abertos ao público em geral e recebem jovens estudiosos com idades entre sete e 17 anos. Mais informações sobre estes grupos podem ser obtidas no site www.sbee.org.br. Os demais centros espíritas espalhados por várias cidades brasileiras, filiados à SBEE, ainda não contam com a mesma estrutura. “Mas o objetivo é a implantação deste trabalho nos núcleos filiados a médio prazo”, antecipa Domingos.

Na Federação Espírita Brasileira (FEB), cada unidade tem uma estrutura própria. No Paraná, o Departamento de Infância e Juventude (DIJ) aplica seminários em diversas regiões do Estado, além de repassar diretrizes seguras sobre a tarefa da evangelização infanto-juvenil, a fim de que o trabalho de preparação de trabalhadores na área e de unificação seja ampliado. “A tarefa de evangelização infanto-juvenil é uma atividade de longa data, que sempre foi incentivada pela Federação Espírita do Paraná (FEP)”, explica a publicitária Tatyanna Braga de Moraes, diretora do DIJ da FEP.

Em 2009, a FEP realizou um censo. Os números apontaram que na época havia aproximadamente 3.500 evangelizandos, crianças a partir dos três anos até jovens de 21 anos. Havia ainda 782 voluntários que atuam como evangelizadores. “O desafio é enorme e constante, afinal somos responsáveis pelo departamento que tem por função estimular o conhecimento espírita às novas gerações a fim de dar continuidade ao trabalho iniciado lá atrás por companheiros valorosos”, afirma Tatyanna.

Compartilhe: