[kads group="topo-1"]


Ética: um acaminho pouco trilhado

Ética: um acaminho pouco trilhado

Diz André Comte-Sponville, filósofo francês, que nossas escolhas se escoram em quatro domínios: técnico-científico, legal, moral ou ético. Vejamos um exemplo. Você está dirigindo e alguém bate no seu carro. Há quatro motivos pra não “encher a cara do barbeiro”. O primeiro, técnico-científico, orienta sua escolha a partir da comparação entre seu tamanho, força e coragem com os dele. Você não quer levar a pior e cai fora. A segunda, a legal, é encontrada na legislação do seu país, pois você não quer ser preso pelo crime de agressão física. A terceira fundamenta-se na moral que o estimula a evitar atos que possam provocar críticas de amigos e parentes, uma vez que agredir o semelhante, cá entre nós, não é atitude digna em uma sociedade pacífica. Por último, você não bate no sujeito simplesmente porque sua convicção, sua ética, assim o orienta, independentemente de quaisquer referenciais externos, sejam eles técnico-científicos, legais ou morais. Você não o faz porque ama.

E por falar em referencial, houve um tempo em que conhecimento era privilégio de poucos, alfabetização, de uma ínfima minoria, pensar, de alguns poucos privilegiados. As massas ignorantes precisavam de grandes empresas onde homens, meros recursos humanos, eram peças descartáveis de um sistema técnico-científico estruturado. Precisavam de severos ditadores a instituir leis que inibiam a liberdade de expressão justificados por uma suposta paz empurrada goela abaixo. Precisavam de enormes templos onde pessoas se inclinavam amedrontadas diante de um Deus a lhes dizer o que era certo e errado, orientados por uma moral sustentada na culpa e no medo.

Hoje é diferente? A universalização do ensino e da tecnologia possibilita a libertação das grades da ignorância. Em segundos fazemos acesso a qualquer tecnologia, a qualquer legislação, a qualquer tradição. Conhecimento não é mais o limite. Os muros que dele nos afastavam implodiram e seu acesso irrestrito nos facilita o ajuste comportamental ao que nos é hoje sutilmente posto. Quem conhece, facilmente se ajusta e fica com a sensação de liberdade, de ter feito escolhas reais. Mas quer saber? Ainda não é livre. Ainda é apenas um náufrago num mar de dados e informações, somente um ser habilmente responsivo, ajustadamente a serviço de instituições a lhe dizer o que sentir, o que pensar, o que falar, o que fazer. Quem conhece as estruturas técnico-científicas, as leis e a moral age com retidão e até se “dá bem”, mas continua inconscientemente escravo. Talvez fosse melhor a opressão explícita.

Se queremos ser verdadeiramente livres não há que se lutar contra qualquer força impositiva. Necessária é a construção de referenciais internos, de convicções e da coragem que as sustente, de ética, de Amor.

Hoje temos tudo o que é necessário para construir com facilidade um arcabouço ético a partir de referenciais técnico-científicos de todas as áreas do conhecimento, de referenciais jurídicos de todas as nações e de referenciais morais de todas as tradições, mas parece que não sabemos como fazê-lo. Estamos travados ao não pensar herdado de nossos pais, aos dogmas, às crendices, ao que sempre foi. Parece que não conseguimos nos libertar de nós mesmos. Talvez a nova geração, nascida na era da Internet, tenha mais facilidade mas, para que consigam, precisamos lhes dar a liberdade que facilite a caminhada.

Talvez pela primeira vez na história estejamos muito próximos de algo grandioso, muito além de um cômodo ajuste aos interesses institucionais. Mas é preciso pensar, é preciso sabedoria. Travamos porque não fomos preparados para isso. É necessário coragem para seguir rumo ao incerto, ao desconhecido, por onde raros mestres ousaram passar. É preciso consciência de si e do mundo, pois a ética, o amor, é um caminho ainda por poucos trilhado.

Paulo Rathunde

 

Compartilhe:

Sobre o Autor

Paulo Rathunde

Paulo RathundeFormação em Engenharia Civil; Me. em Organizações e Desenvolvimento; MBA em Gerenciamento de Projetos; Esp. em Psicologia Transpessoal, Administração de Empresas e Geoprocessamento; Autor dos livros Artesão do Meu Futuro e Peregrino; Eletricitário e Coordenador de Grupos de Estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE).

Todos os Posts de: Paulo Rathunde