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EU E A INCERTEZA

EU E A INCERTEZA

Que difícil os primeiros instantes da concepção física.
Em um ritmo de escuro e claro, tudo é incerto.
O desenvolvimento, o crescimento intra-uterino e o olhar
ainda espiritual para o corpo que se compõe dão uma
imagem incerta.

Passado algumas semanas, começo a me perguntar quem
é minha mãe? Tudo é incerto.

Sinto a integração do afeto do meu pai com minha mãe.
Quero descobri-los, mas a incerteza não deixa.

O crescimento e o progresso dão lugar ao
desenvolvimento.
Já percebo o meio, com incerteza.

Acontece o nascimento. Que formidável  transformação,
sorver o oxigênio e deglutir a própria saliva.

Muita incerteza. Confusão mental, lembranças,
expectativas, incertezas.
Percebo a alegria da mãe ao me amamentar.
A sucção é ritmada, depende da mãe, por isso a incerteza.

Os dias passam, as semanas, os meses, muita incerteza.
Já sorrio, mexem no meu rosto, são pessoas novas.
Grande incerteza.

Quem são eles? Quem sou eu? Incerteza.
Tenho a memória do meu nome anterior.
Tenho que me acostumar ao novo
Passa-me incerteza.

Luto para ser o que sou. Sinto que há mudanças. Há
incerteza.

Os anos passam, já corro na casa, no quintal. Aprendi
a falar. No entanto, sou vigiado constantemente pela
incerteza.
Tenho que me adaptar aos costumes, à cultura, fazer o
que os outros acham que devo fazer.
Sofro incertezas.

Me pergunto: o que será amanhã? Depois?
O pai trabalha, a mãe trabalha, o que vou fazer?
Incerteza.
Frequento as escolas, sorrio, sou feliz na incerteza.

Surge na vida o sexo, os desejos, a libido. Tudo gerando
incerteza.
Penso que sou diferente dos outros. Sofro porque me
comparo aos adultos. Fico na incerteza.

Quero ser grande, maior, para reagir.
O crescimento parece-me lento, muito incerto.

Alguns são gentis, olhares benignos buscam-me com
afeto. A incerteza não passa.
Outros são agressivos, quase ameaçadores. Aumenta o
sentido de mudança e de incerteza.

Adulto, sinto que esperam de mim o que não sei se
posso fazer.
Tudo é incerto.

Componho família. Repete-se o quadro da existência, da
vivência. A incerteza não me abandona.
Me pergunto quando vou morrer, quem responde é a
incerteza.

Às vezes sou feliz na infelicidade. Que incerteza.
Outras vezes sou infeliz na felicidade. Muita incerteza.

Olho para o mundo, para as pessoas, para as coisas.
Tudo está em mudança e eu também. E a dinâmica da
incerteza representa uma verdadeira alavanca no meu
cotidiano diversificado.

Descobri, depois dos primeiros cabelos brancos, que já
me acostumei às mudanças e à dinâmica da incerteza.
Até sou capaz de dizer que sou a mudança e a incerteza.

Texto extraído do livro
A essencialidade da minha consciência, em 12 de junho de 2015

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