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Livre arbítrio – somos autores do nosso próprio destino

Livre arbítrio – somos autores do nosso próprio destino

Um dos fundamentos da Doutrina, o livre-arbítrio, confere a cada um de nós o poder das escolhas e também as responsabilidades sobre as mesmas

Por Simone Mattos – Publicado na SER Espírita impressa n. 15

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Deus quis assim. Chegou a hora dele. O que eu tenho que passar ninguém passa por mim. Quem já não ouviu – ou até mesmo falou –uma destas frases? Elas traduzem um pouco a postura passiva de aceitar a ideia de que existe um destino, uma predestinação, o que é muito forte em nossa cultura. A Doutrina Espírita, ao contrário, expressa que tudo o que ocorre em nossa vida é fruto das decisões que tomamos. Ou seja, todos são espíritos livres para escolher o que querem, todos têm a oportunidade de exercitar o livre-arbítrio e são responsáveis pelos atos advindos deste exercício. “Participamos de todos os efeitos que as nossas escolhas provocam, sejam elas boas ou más. Portanto, não há como nos isentarmos”, explica o engenheiro eletrônico Raul José Fernandes de Oliveira, estudioso do Espiritismo, pós-doutor em Ciências e professor da Faculdade Doutor Leocádio José Correia (Falec), em Curitiba (PR). Ele comenta que a liberdade que temos para escolher nos traz uma abertura muito grande no sentido de participar da nossa própria vida. E nada é por acaso. “Portanto, não somos simples espectadores de um lapso de tempo que se desenrola em nossa frente como se alguém previamente determinasse tudo que iria acontecer conosco. Aliás, isto seria muito conveniente, pois nos isentaria de muitas coisas”, diz Oliveira.
A Doutrina Espírita também faz questão de mencionar que esta liberdade de escolhas invoca a respectiva responsabilidade sobre os resultados obtidos. “Desta forma, estamos – e não apenas somos – responsáveis por todo o desenrolar que nossas escolhas disparam”, alerta. A partir do entendimento sobre o livre-arbítrio torna-se evidente que o destino não existe. “Este fato deixa desamparados muitos dos que esperam que alguém os leve pela mão para viver a sua vida”, sugere o professor. Ele afirma ainda que é o livre-arbítrio que coloca o leme da vida em nossas mãos. “É um fato exuberante e temerário ao mesmo tempo, pois faz cair no nosso colo a responsabilidade pelo rumo desta nau. Então, para que o meu rumo seja o melhor possível, é preciso exercitar ao máximo o autoconhecimento e eliminar as contradições interiores, entre nossas convicções e ações”.

NÓS, COMO COCRIADORES
O escritor, palestrante, historiador e professor Jerri Roberto Almeida, que coordena grupos de estudos na Sociedade Espírita Amor e Caridade, em Osório (RS) e atua no movimento espírita do litoral norte gaúcho, lembra que o codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, tratou desse assunto nas questões 963 e 964 de O Livro dos Espíritos. “O Espiritismo não é reducionista, limitando-se a uma abordagem fatalista sobre os fatos da vida. Pelo contrário, esclarece no seu amplo dinamismo doutrinário que o ser humano é cocriador de seu próprio destino, alterando-o constantemente com suas ações e decisões”, diz. No mesmo livro, as questões de 843 a 850 também tratam diretamente do livre-arbítrio.
Para ele, a popular afirmação “Deus quis assim” é resultado de um discurso ancestral associado a um confortável atavismo de linguagem de quem desconhece os mecanismos da vida e as nossas responsabilidades diante dela. “Não significa, no entanto, que o Espiritismo afaste Deus das contingências existenciais, mas que atribui ao ser humano a responsabilidade sobre as ocorrências agradáveis ou desafiadoras que lhe cercam. Com base no livre-arbítrio do espírito, associado à lei de ação e reação vinculada à reencarnação, somos capazes de compreender com melhor nitidez a Justiça”.
Almeida afirma que é extraordinário sabermos que a felicidade é uma opção pessoal e que está em nossas mãos a condução para uma vida mais plena de possibilidades, quando atentamos para os valores nobres da alma. “O livre-arbítrio é a notável conquista da evolução do ser, que lhe permite, conforme o nível de consciência e maturidade alcançado, fazer as opções, escolher caminhos, tomar decisões, sempre considerando o objetivo único da vida: o bem”, diz.

LIBERDADE DE PENSAR
Se não houvesse o livre-arbítrio, o ser humano agiria como um autômato, uma máquina sem raciocínio e sem vontade própria. Por isso, este é um dos atributos essenciais do espírito. “Se todas as circunstâncias da vida já estivessem planejadas por um desígnio premeditado, o mundo seria governado por uma fatalidade absoluta”, resume o juiz de Direito do Estado da Paraíba e palestrante espírita, Cláudio Antônio de Carvalho Xavier. De forma simples, podemos dizer que temos a liberdade de escolher entre o bem e o mal, ou o que nos causa felicidade e o que nos causa dor e sofrimento. Segundo “O Livro dos Espíritos” (1857), Deus nos criou “com aptidão tanto para o bem quanto para o mal”, deixando a cada um a liberdade de escolher o seu caminho, pois só assim poderemos adquirir, por nós mesmos, o mérito de nossas obras.
Logo, o espírito tem a consciência do bem e do mal, a referência do certo e do errado e a faculdade de viver justa e honestamente, praticar uma boa ação, de ceder ou de resistir às influências da matéria; a liberdade de fazer ou não fazer, de optar a favor ou contra a vida, de seguir em frente na escada ascendente do progresso espiritual, ou seguir o caminho da desarmonia, que lhe trará infelicidade e dor. Xavier afirma que, se alguém aceitar comodamente uma situação, sem envidar esforços para modificá-la, estará admitindo o fracasso e se entregando, facilmente, ao joguete das forças que nos empurram para os abismos da fatalidade. “Quando lutamos para alterar o cenário em nossa volta, sem nos entregarmos aos enredos e caprichos da vida material, podemos alterar o nosso destino, encontrando a verdadeira meta da vida. Podemos evitar o resultado não desejado, modificando o nosso comportamento”, diz.
A liberdade e a responsabilidade são correlativas e aumentam conforme o grau de elevação do espírito, segundo explica Xavier. É pelo trabalho que o espírito aperfeiçoa a inteligência e adquire os méritos que o conduzirão à felicidade eterna e pura. “Daí porque duas pessoas, em circunstâncias parecidas, podem trilhar caminhos diametralmente opostos”. Alguns se resignam facilmente com um quadro de dor e desistem de procurar a felicidade, ou porque não possuem ânimo para seguir adiante, ou porque deixaram de acreditar em si mesmas. “Se, por um lado, não podemos alterar alguns impositivos da vida, por outro lado, há muitas outras decisões que estão ao nosso alcance. Ser feliz, por exemplo, é uma escolha, e também uma conquista pessoal. Depende de minha vontade ter uma vida feliz ou infeliz. Eu decido se devo ou não ser feliz. Eu decido se devo cultivar a paz e a tranquilidade; se devo ser amoroso e gentil, ou mal humorado e triste. Não há limitações para a liberdade interior”, comenta.

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