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O leão e os limites da consciência

O leão e os limites da consciência

Paulo Rathunde –

O ser humano evolui na complexa dinâmica constituinte e indissociável de si com seu meio. Cada alcance de algo novo gera uma tensão sobre o que estava estabelecido que modifica tanto o ser como o seu meio até se atingir um novo equilíbrio homeostático temporário. Assim é a história de cada um, a história da evolução, a história da humanidade. Entre aprendizados, tropeços, acertos, reconhecemos o que poderia ter sido feito melhor e da intolerância com a incerteza nasce a culpa e sentimentos de incapacidade e incompetência. Popularmente falando, culpar-se é tirar foto sobre o leão morto. Por outro lado, ao olhar para a frente, vem a dúvida se seremos capazes de fazer o melhor. Vem o medo paralisante de um leão desconhecido. O resultado da culpa e do medo é estagnação. Mas vida é movimento. E ai?

Houve um tempo em que conhecimento era poder. Certamente o conhecimento ajuda a fazer melhor o que já foi feito, ou seja, é a excelência no fazer as mesmas coisas do mesmo jeito, é saber como matar o leão com perfeição. Mas o conhecido não basta diante da indeterminação natural das coisas. A tecnologia atual coloca o conhecido democraticamente a disposição de todos, mas será que matar o leão é a melhor solução? Nós nos tornamos mestres em acabar com a vida e muitos escolhem a morte por comodidade e segurança. Vamos continuar? Talvez a vida demande algo mais. Talvez seja preciso deixar o leão vivo, talvez seja preciso consciência, sabedoria, presença.

E ter consciência é saber lidar com o leão vivo quando ele aparece, ou seja, ter prontidão para escolhas diante do inesperado, seja ele qual for. É ter responsabilidade (“response” + “ability”), isto é, habilidade para dar respostas diante da dinâmica que se desdobra sobre a incerteza e a indeterminação. Demanda presença, um estado de estar inteiro em cada momento da existência, no tempo e no espaço, com todas as antenas ligadas para fazer leitura ampla do ambiente e de nós mesmos. Se estou dirigindo, estou dirigindo. Se estou almoçando, estou almoçando.

Mas será que estou aberto para ouvir o que os outros tem a me dizer? Será que estou disposto a ver o que posso não gostar? Será que estou preparado para questionar minhas “verdades”? Será que tenho prontidão para perceber o leão? Talvez o leão seja manso, talvez seja meu aliado, talvez seja a solução para meu problema. Talvez no automatismo eu escolha apertar o gatilho, repetindo o que meus ancestrais sempre fizeram. É cômodo, é seguro, é conhecido, é comportamento sem consciência.

Consciência parece demandar leveza em cada segundo para dar sentido à existência, perguntando-se: “O que quer acontecer agora?”. Parece ser abertura às possibilidades, desapego das certezas, questionamento das mais profundas crenças, atitude eslética, humildade diante da sabedoria infinita, estar de braços e coração abertos para entregar-se confiante ao que se apresenta. Parece ser questionamento permanente sobre o que ainda não sei sobre mim e sobre o mundo. Parece um tencionamento dos limites da própria consciência, sem culpa nem medo, para tratar o leão cada vez com mais respeito, amor e sabedoria.

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Sobre o Autor

Paulo Rathunde

Paulo RathundeFormação em Engenharia Civil; Me. em Organizações e Desenvolvimento; MBA em Gerenciamento de Projetos; Esp. em Psicologia Transpessoal, Administração de Empresas e Geoprocessamento; Autor dos livros Artesão do Meu Futuro e Peregrino; Eletricitário e Coordenador de Grupos de Estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE).

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