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Síndrome de Peter Pan

Síndrome de Peter Pan

Paulo Rathunde –

Os medos de uma criança londrina durante um bombardeio na Segunda Guerra Mundial marcam o início da animação Peter Pan. Que cenário poderia ser mais aterrorizante e hostil do que o de uma guerra? Quem a assistiu criança como eu deve se lembrar da sensação de imaginar que o aconchego de seu lar poderia ser dizimado pelo terror de um mundo estranho e perigoso. Aquela estrutura amorosa, protetora e acolhedora de papai, mamãe e irmãozinho caçula poderia simplesmente desaparecer num estalo de dedos como um castelo de cartas que se desfaz.

Pois é. Mas chega um momento em que exatamente aquele mundo violento “lá de fora” é que se torna atraente e inevitável. É preciso audácia para sair às ruas a despeito do medo. Alistar-se e ir à luta é o único modo de crescer, de tornar-se adulto. Quando os pais facilitam é sempre mais fácil. Quando não, é necessária rebeldia. Sem manuais nem mapas, surgem dúvidas, conflitos internos, ansiedade, insegurança e espinhas na cara. É um terreno minado. “Agora é comigo!” é uma ficha que precisa começar a cair. É um tudo ou nada. Necessário se torna aprender a usar as armas: documentos, primeiro emprego, vestibular, necessidade de provar o próprio valor, cobranças, competição, fazer escolhas, tropeços, voltas por cima … ninguém disse que seria fácil. Mas aos poucos o recruta se torna Tenente, Capitão e General de sua própria existência transcendendo a luta e as ilusões que o distraíam do único perigo real: seus medos.

Mas quando a pulsão é menor que o medo, o comodismo é o “pó de pirlimpimpim” que leva à Terra do Nunca: nunca crescer, nunca encontrar sentido, nunca olhar para si, nunca assumir-se, nunca responder pelas consequências dos próprios atos, nunca sair da fantasia da proteção e do aconchego paternos, nunca livrar-se do Capitão Gancho, estereótipo ridículo do adulto traiçoeiro e manipulador que não tem nada a fazer senão atormentar a vida de quem quer apenas brincar. O tempo, engolido pelo jacaré, sistematicamente ressurgente em longínquos tic tacs levando Gancho à loucura, não tem significado para os meninos perdidos. Perdidos de seu mundo, perdidos de sua própria história, perdidos de sua essência, perdidos de si mesmos.

A síndrome de Peter Pan proposta por Dan Kiley em 1983 parece alastrar-se por lares de pais super-protetores ainda aumentando a população de meninos perdidos na Terra do Nunca, em pleno Século 21.

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Sobre o Autor

Paulo Rathunde

Paulo RathundeFormação em Engenharia Civil; Me. em Organizações e Desenvolvimento; MBA em Gerenciamento de Projetos; Esp. em Psicologia Transpessoal, Administração de Empresas e Geoprocessamento; Autor dos livros Artesão do Meu Futuro e Peregrino; Eletricitário e Coordenador de Grupos de Estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE).

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