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Um amigo que se diz bipolar

Um amigo que se diz bipolar

Tenho um amigo antigo. Digo isso porque a gente se conhece há mais de 40 anos e nossas trajetórias vem se cruzando em apoio mútuo ao longo deste tempo. Nosso encontro nasceu da solidariedade. Nos falamos pela primeira vez, quando como calouros, enfrentávamos as tintas e as tesouras de “veteranos”  interessados em descontar nos novatos, humilhações sofridas no trote do ano anterior. Era a tradição do “olho por olho” que desconsidera o risco de acabarmos todos cegos. Nossa amizade foi se firmando ao longo dos anos da Faculdade de Administração e se provou em vários momentos nestes anos todos.
Como filhos de famílias humildes, ambos começamos a trabalhar cedo. Conquistamos um espaço no mercado de trabalho e fomos reconhecidos pela contribuição que demos às organizações por onde passamos. O sonho, o tempo, a preparação e a superação do medo nos fez empreender.
Depois de alguns anos de afastamento por mudança de cidade nos reencontramos novamente. Após falarmos das famílias e dos negócios ele revelou que algumas pressões da sua vida haviam chegado a tal ponto que após perder a calma em algumas situações, ele achou melhor buscar ajuda médica. Na época ele foi diagnosticado como depressivo bipolar e estava tomando alguns remédios.
Diz ele que quando a ansiedade aumenta, o médico reavalia a situação e lhe dá um pequeno aumento na dose do medicamento. Quando tenta viver sem o remédio ele volta a perder a paciência, e quando toma uma dose um pouco mais forte, diz que todos os que o cercam parecem mentalmente lentos.
Isto infelizmente reforça sua crença no rótulo “bipolar” que vem sendo aplicado pela cultura da Terra para explicar variações de humor.
Quem já fumou ou conviveu com quem largou o vício de fumar compreende bem os efeitos da síndrome de abstinência e como eles podem ser passageiros. Obviamente, não há como não reconhecer que algumas intervenções químicas são necessárias, dentro da filosofia do “risco versus benefício”, contudo, precisamos concordar que cabe ao paciente fazer a sua parte, unindo-se ao médico na busca da identificação, compreensão e eventual remoção das causas das nossas ansiedades em lugar de demorar-se no combate aos efeitos.
Sem generalizações injustas, no caso dele, a solução encontrada foi rebaixar quimicamente a sua sensibilidade diante dos desafios. Ocorre que quando os desafios foram superados e ele tentou retirar a medicação, descobriu que sem o remédio não conseguia mais ser o mesmo sujeito sereno que era antes da crise.
Ao longo do tempo aprendemos que parte dos nossos desequilíbrios físicos tem origem em nossos desequilíbrios emocionais, os quais se originam em nossas ideias, valores e crenças. Se fizermos o esforço de harmonizar nossas convicções com as nossas ações, conseguiremos nos realizar melhor, trafegando mais construtivamente pelas diversas situações da nossa existência. Com isso poderemos fazer alterações permanentes e evitar, na medida do possível, tratar dos efeitos sem remover as suas causas.
Paulo Wedderhoff

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Sobre o Autor

Paulo Henrique Wedderhoff

Paulo Henrique WedderhoffAdministrador; Professor Universitário na Faculdade Doutor Leocádio José Correia (FALEC); e Conselheiro Editorial da revista SER Espírita.

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