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159 anos de espiritismo*

159 anos de espiritismo*

Na próxima segunda-feira, dia 18 de abril, ocorrerá o aniversário de 159 anos de um importante marco histórico que julgamos digno de nota e reflexão, qual seja, a publicação da primeira edição do “Livro dos Espíritos”. Foi a partir de tal momento que de fato se encetou o Espiritismo.

A doutrina codificada pelo pedagogo francês Hippolyte León Denizard Rivail através do pseudônimo Allan Kardec foi coligida através de rigorosa metodologia científica, de modo a tornar todos os ensinamentos trazidos pelos bons espíritos o mais possível claros e alheios à dubiedades ou contradições.

Importa salientar que o Sr. Hippolyte tomou conhecimento dos fenômenos mediúnicos alguns anos antes, em 1854, através de um amigo. Contudo, como homem de ciência que era, à primeira vista se recusara a acreditar em sua veracidade e somente algum tempo depois percebeu que havia uma causa inteligente nos fenômenos verificados, e que tal causa era digna de investigação rigorosa.

A acuidade de raciocínio de Kardec, aliada ao seu incansável trabalho de observação, comparação e dedução dos fenômenos mediúnicos que pululavam naquela época em várias partes do mundo, permitiram o descortinar de uma nova visão de mundo que não levava mais em conta somente a matéria, mas também a realidade espiritual, que doravante passava a ser vista não mais de uma maneira dogmática, mística ou mítica, mas sim de uma forma racional e lógica, possibilitando aos indivíduos uma percepção nova e mais harmônica da realidade.

Cumpre destacar que os fenômenos estudados a fundo por Kardec ocorreram desde sempre, em todas as épocas e culturas, tendo a cada momento sido tratados e compreendidos de acordo com o alcance possível da cada época e cada grupo social. Saliente-se, ainda, que Kardec não produzia fenômenos mediúnicos ou recebia quaisquer lições diretamente dos espíritos, mas se valia em suas pesquisas de um grupo diverso de médiuns encaminhando a eles dezenas de perguntas que deveriam ser respondidas pelos espíritos manifestantes.

Seu trabalho, como ele próprio assevera ao tratar de sua iniciação no espiritismo (nas “Obras Póstumas”) foi de comparar, fundir, coordenar e classificar essas lições, delas retirando o amálgama que viria a formar o Espiritismo. Ao contrário de diminuir-lhe o mérito, o fato de Kardec não ter recebido diretamente as revelações trazidas pelos espíritos apenas enaltece seu primoroso trabalho, que resultou em uma codificação de grande tenacidade a qual até hoje é estudada com afinco por milhões de indivíduos.

Podemos, então, fazer a seguinte distinção teórica (a qual julgamos de extremada relevância): ao falarmos de Espiritismo, estamos nos referindo ao produto da codificação realizada por Allan Kardec em meados do Século XIX, que condensa essas explicações dadas pelos espíritos baseadas em sua doutrina; por outro lado, quando falamos em Doutrina dos Espíritos, estamos nos referindo à resultante dos preceitos morais seguidos pelos próprios espíritos desencarnados que compõe o polissitema cultural espiritual.

Poderíamos, pois, entender o Espiritismo como sendo o alcance possível que conseguimos fazer da Doutrina dos Espíritos (que é algo muito maior) em um determinado momento histórico. À medida que vamos evoluindo e fazendo novos aprendizados, é fundamental que o Espiritismo também evolua, a fim de não incorrermos nos mesmos erros de outras religiões que se encastelaram em dogmas e perderam muito de sua essência com o passar do tempo.

Logo, não podemos nos limitar a simplesmente repetir aquilo que foi trazido por Allan Kardec, sendo fundamental fazermos um trabalho de hermenêutica e contextualização, sem nunca descuidar dos princípios básicos, mas atualizando nossas conclusões ao momento em que vivemos e aos infindáveis novos alcances que a ciência realizou nesses últimos 159 anos.

O próprio Kardec reconhece em sua obra o caráter progressivo do Espiritismo, deixando claro que a mesma não poderia se imobilizar ou se esgotar na codificação por si trazida. Segundo o próprio codificador, à medida que a humanidade avançasse, evoluísse e novas descobertas científicas e percepções de cunho moral fossem realizados, o Espiritismo deveria imediatamente modificar-se no sentido de harmonizar-se com essas novas ideias, de modo a não se tornar anacrônico e nunca colocar-se à margem da evolução, garantindo, assim, sua perpetuidade.

Deixamos aqui nossa homenagem aos 159 anos do Espiritismo e ao magnífico trabalho de Allan Kardec, na expectativa de que possamos – todos nós – fazer jus às lições por ele deixadas e que saibamos utilizá-las sempre de forma contextualizada e atual.

Rodrigo Fontana França

*texto originalmente publicado em 2012 em alusão e homenagem aos 155 anos de Espiritismo.

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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