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STRESS E EVOLUÇÃO ESPIRITUAL

STRESS E EVOLUÇÃO ESPIRITUAL

Por Claudia Guadagnin – reportagem publicada na edição impressa da SER Espírita 24

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O stress já atinge cerca de 90% da população mundial e causa danos físicos e espirituais. Entenda como minimizar os sintomas e conheça os limites aceitáveis desta condição

Dar conta do trabalho, filhos, contas, cuidar da relação com o parceiro e a família e, para a grande parte da população, ainda ter de sobreviver ao ritmo frenético do trânsito e da movimentação das grandes cidades. Essas exigências, cada vez mais acentuadas pela pós-modernidade, causam incômodos que, com o tempo, podem ser agravados e levar as pessoas a sofrer de uma síndrome que já é considerada o mal do século: o stress.
De acordo com um levantamento recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), o problema já atinge cerca de 90% da população mundial e, segundo o estudo, está relacionado ao desenvolvimento de doenças mais graves, como câncer, depressão, diabetes e hipertensão. Além disso, o prejuízo que o stress traz para o indivíduo é muito grande, e merece atenção.
Segundo o psiquiatra e homeopata Francis Mourão, médico do corpo clínico do Hospital Espírita Bom Retiro e do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) – órgão da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (PR) –, em termos científicos, o stress é a resposta fisiológica do organismo, que se esforça para adaptar-se a estímulos externos e internos. E este esforço prolongado pode fazer mal. “Como a energia necessária para esta adaptação é limitada, se houver persistência do estímulo estressante, mais cedo ou mais tarde, o organismo entra em fase de esgotamento”, explica De acordo com o médico, o stress não aparece repentinamente: ele pode ser nutrido com o tempo e, por isso, é importante ficar atento aos menores sinais. “Problemas da infância, perdas, abandonos, agressões, medos, frustrações, cobranças sociais e angústias afetivas, por exemplo, são ameaças que, se não forem resolvidas a tempo, podem se transformar em agentes estressores duradouros e bastante perigosos”, alerta Mourão.
Segundo ele, além de questões internas, fatores como condições climáticas e segurança pública, por exemplo, podem motivar ou alimentar o problema. “Numa cidade onde o calor é constante, provavelmente este seja o fator estressante predominante. Em outra, onde a criminalidade é intensa, o medo, a insegurança ou a desconfiança, por exemplo, podem ser os responsáveis por motivar a condição”. J.K*, paciente do CAPS de Curitiba, lembra que sentiu os primeiros sintomas do estresse ainda muito cedo, com nove anos de idade. Ele era aluno de um colégio interno e se lembra de sofrer com o preconceito dos colegas: o bullying, como é conhecido atualmente. Mais tarde, com 13 anos, foi vitimado pelo abuso e viu o stress psicológico se tornar insuportável.
Foi aí que a primeira crise nervosa apareceu. “Na época, eu morava em uma cidade pequena do interior que não contava com um hospital psiquiátrico. Fui levado a um centro médico convencional e lá me mantiveram dopado por uma semana para que eu não me preocupasse com nada”, conta ele. No entanto, desde esta época, J.K sente que vive na companhia do stress. “Sinto que me canso com facilidade e tudo me estressa facilmente. Nas épocas de crises mais acentuadas, procurei ajuda e muitas vezes isso mais me atrapalhou do que ajudou. Senti que as coisas só melhoraram um pouco quando passei para o tratamento psiquiátrico e medicamentoso. Mesmo assim, sinto que ainda não me recuperei totalmente porque percebo que desenvolvi um transtorno de personalidade. Certos traumas marcam a pessoa para a vida inteira e, hoje, intercalo momentos de stress, equilíbrio e tratamento”.

SINTOMAS
Mourão explica que momentos de stress são normais na vida das pessoas. Mas é importante ficar atento a alguns sintomas, como o esgotamento e a exaustão, que podem indicar que os níveis do problema estão altos. “Sempre que percebemos que o cansaço está predominando em nosso dia a dia devemos rever a metodologia empregada na vivência de nossos compromissos, porque, provavelmente, estamos gastando mais energia do que o necessário”.
Para o psicólogo especialista em psicologia analítica, Marlon Reikdal, os níveis de stress podem ser definidos pela capacidade adaptativa de cada indivíduo. “Algumas pessoas são capazes de passar horas sem dormir ou alimentar-se para dar conta de um problema, enquanto outras, por muito menos, adentram em quadros graves de stress. Isso pode ser definido pelo hábito que alguns indivíduos têm de manter a calma e serem mais flexíveis que outros, por exemplo”, explica. Segundo ele, embora os sintomas possam aparecer repentinamente, na maioria dos casos, o stress se instala no organismo de modo silencioso. “O estado agudo do problema é identificado pela dificuldade de manter a atenção, pelo distanciamento do ambiente em que se vive ou por uma euforia excessiva seguida de agitação, hiperatividade e sintomas como taquicardia, transpiração em excesso e ondas de calor”.
O psicólogo explica ainda que uma pessoa também pode, por si só, causar um estado de stress para si mesmo. “Existem pessoas que sofrem por antecipação ou que têm medo de enfrentar desafios. Outras assumem compromissos exagerados para compensar fragilidades ou sofrem por esperar que alguém assuma suas próprias responsabilidades. Algumas, ainda, são dominadas pelo excesso de escrúpulos e, ao imporem condutas e resultados inatingíveis, sofrem com a pressão que elas mesmas criaram”, conta.
Para Mourão, mesmo diante de crises agudas de stress, não adotar a automedicação é sempre a melhor alternativa. “A prescrição de medicamentos deve sempre ser feita por um médico após uma detalhada avaliação de cada caso, pois dosagens abaixo ou acima da recomendação podem agravar o problema.”

EVOLUÇÃO DO ESPÍRITO
O psiquiatra e homeopata Francis Mourão acredita que, quando bem administrado, o stress pode representar uma oportunidade de progresso espiritual. “Se considerarmos que a finalidade de nossa existência é a evolução do espírito e que as crises de stress podem possibilitar o desenvolvimento da nossa capacidade adaptativa, é possível enxergar o problema como uma oportunidade de aperfeiçoamento”, explica. Segundo ele, é importante lembrar que as dificuldades servem para auxiliar as pessoas a encontrar o ponto de equilíbrio e garantir o bem-estar.
O psicólogo Marlon Reikdal acredita que as pessoas vêm à Terra para aplicar o conhecimento adquirido e aprender o que ainda lhes falta, mas que os desafios e fardos são sempre proporcionais às suas forças. E lembra que é responsabilidade do próprio sujeito buscar recursos que estejam ao seu alcance para que consiga manter-se saudável. “Fontes de energia podem advir não somente de práticas religiosas como o passe, a caridade, meditação e oração, mas também dos ensinamentos contidos no Evangelho de Jesus, capazes de fazer o indivíduo refletir sobre os sentidos que atribui a si mesmo, ao próximo e ao mundo em que vive”, explica.
Para ele, é possível vivenciar os desafios diários com equilíbrio, sem sofrimento e consciente de que o tempo muitas vezes é fator essencial para a resolução dos conflitos. “Educar a mente e o sentimento dentro dos limites naturais e próprios das ocorrências do cotidiano é dever inicial para a superação de qualquer mecanismo estressante”, indica.
Já para Mourão, o segredo para minimizar os efeitos do estresse pode ser mais simples do que se imagina. “Precisamos incluir em nossas vivências diárias momentos de satisfação e prazer, porque o comum é mesmo vivermos mais situações desagradáveis do que agradáveis. Precisamos treinar nossos olhos a enxergar com mais frequência momentos bons e bonitos porque, fazendo isso, nossas células são influenciadas de forma harmônica e positiva”.

CRIANÇAS ESTRESSADAS
De acordo com o psiquiatra Francis Mourão, por se tratar de um processo fisiológico, o stress – ou Síndrome Geral de Adaptação – estará presente na vida de todos, independentemente da idade. “As alterações orgânicas são as mesmas em crianças e adultos, o que muda é a capacidade de expressar-se linguisticamente. A criança, em função da sua espontaneidade, muitas vezes manifesta seu sofrimento de forma mais autêntica”, explica. Para ele, mostrar à criança que as dificuldades fazem parte do dia a dia e que as pessoas devem se tornar habilidosas na administração desses momentos tensos são os conselhos mais indicados. “Neste caso, vale lembrar também que os pais contribuem muito, pois eles serão sempre os modelos que os filhos vão interiorizar na formação de suas personalidades”.

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