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A arte da convivência

A arte da convivência

Em muitas situações do cotidiano, a outra pessoa é avaliada como difícil. Porém, não se deve esquecer que, da mesma forma, quem julga também pode ser considerado difícil pelo outro

Por Simone Mattos
Reportagem publicada na edição impressa 7 da SER Espírita
Um dos maiores desafios do ser humano é a convivência diária com os outros. Seja em casa, na família, no trabalho ou em locais públicos, onde as pessoas nem se conhecem, como trânsito, cinema, filas, shows e estádios de futebol.
Estas são excelentes oportunidades para exercitar tolerância, paciência e respeito ao próximo. Mas será que é tão simples colocar tudo isto em prática no dia a dia? Para muitas pessoas, não é nada fácil ser tolerante e pequenos desentendimentos podem representar o início de uma enorme crise. Para outras, trata-se de um exercício diário que pode ser colocado em prática com um pouquinho de esforço. Há ainda aquelas para as quais a paciência é inerente. Na opinião da bancária Rosa Maria Gutierrez Branco, natural do município de Paranaguá, litoral do Paraná, o mais importante para melhorar o relacionamento com o próximo é, primeiramente, vencer um desafio pessoal. “É importante fazer autoavaliação, autorreflexão e, a partir daí, autotransformação. Precisamos olhar para dentro e ter coragem de reconhecer nossos limites, para superá-los”, comenta Rosa, que trabalha como bancária há 22 anos e, como caixa de uma agência em Curitiba, convive diariamente com o público externo. Ela, que também atua como coordenadora de grupos de estudos espírita, conta que o dia a dia numa agência bancária muitas vezes é bastante tenso.
Para garantir o equilíbrio e a harmonia, o mais importante é sempre manter a paciência, a educação e a ética, principalmente tendo cuidado com o que se fala e como se fala. “Outra ferramenta que utilizo nos momentos mais
tumultuados é o autocontrole”, diz. Para a psicóloga Denise Bee, que trabalha como consultora de empresas, coach e psicoterapeuta, as relações com as outras pessoas podem ser facilitadas quando se busca o próprio bem-estar
emocional. “A base de tudo é cultivar bons sentimentos e estar bem consigo mesmo”, afirma. Ela comenta que as pessoas diferem pela forma de perceber, sentir, pensar e agir, e que isso deve ser respeitado. “A convivência sofre com as diferenças que podem se tornar divergências, tensões e desconfortos ou até conflitos”.

 

RESPEITAR O OUTRO E ENTENDER A SI MESMO

Outra forma de melhorar os relacionamentos seria buscar crescer na compreensão e relação com o outro – já que se vive em sociedade – e, desta forma, exercitar o respeito ao próximo. “O outro pode ser bem diferente em temperamento, perfil e isso pode ser um complicador da minha relação com ele ou da dele comigo. Mas talvez ele não seja tão difícil, eu é que ainda não sei como lidar com ele”, diz a psicóloga. Ela destaca ainda a importância de se
trabalhar a clareza da comunicação interpessoal. “Muitos problemas de relacionamento vêm de ruídos na comunicação, que são as interpretações equivocadas do que o outro diz. É importante aprender a obter informações mais completas: perguntar e ouvir antes de reagir ou falar. Para sintetizar, podemos colocar como três pilares: empatia, flexibilidade e comunicação”.
Questionada sobre a agressividade, que surge às vezes entre as pessoas em locais como trânsito, filas de bancos e supermercados, a psicóloga comenta que, especialmente nas grandes cidades, a convivência pode se mostrar difícil. “Talvez pela correria gerada pela competição, a necessidade de
trabalhar e produzir mais, correr contra o tempo, etc. Isso nos faz menos tolerantes e talvez menos educados em alguns espaços, como trânsito e filas,
onde se reproduz essa competição e, eventualmente, se extravasam agressividades”. Ela alerta que, se as pessoas não se conscientizarem sobre isso, acabam virando escravas do relógio, sempre atrasadas para o próximo compromisso, e, consequentemente, mais irritadas.
Em sua rotina profissional, a bancária Rosa observa que muitas vezes há falta de paciência e respeito pelo próximo. “Noto que quando uma pessoa
está nervosa ou desequilibrada, consegue contagiar as outras. É quando o tumulto cresce, o racional dá lugar ao emocional e o ambiente piora”, conta.
Nestas horas, algumas ferramentas disponibilizadas pela Doutrina dos Espíritos são fundamentais para evitar ou reverter tais situações. “Num momento assim, nosso papel como pessoa religiosa é agir de maneira tranquila, equilibrada, em prol do todo e não de maneira egoísta”.
Este é basicamente o mesmo conselho que se encontra no livro Serenidade – O Esforço Silencioso do Bem, psicografado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, em que o espírito Leocádio José Correia diz: “Sua compreensão, sua generosidade, seu desprendimento atraem a bondade alheia em seu benefício. Tome cuidado! Os que odeiam, desejam o mal ao próximo, se juntam mesmo que se detestem – é a força indicativa do pensamento cumprindo a lei dos semelhantes. Os bons expressam, materializam o exercício do amor. Assim, garantem a tranquilidade, equilíbrio, satisfação todos os dias, a cada segundo”, narra o texto.
Para Rosa, o maior desafio no exercício diário de convivência é mesmo entender o outro, procurar ter empatia, paciência, manter o diálogo, saber que existem diferenças de visão de mundo e respeitá-las. “Quando achamos que as outras pessoas são difíceis, a dica é fazer a reflexão de que talvez elas também nos achem difíceis da mesma forma. Sem dúvida, o alcance deste entendimento muda a forma de se encarar os fatos. É preciso entender que o difícil é apenas o diferente, que cada ser é único, com suas próprias experiências e entendimentos. Se cada um fizer o seu melhor possível, juntos, faremos uma transformação”, afirma.
Na opinião da arquiteta, urbanista e paisagista paulista Débora de Santis, quando percebemos que “podemos ser tão difíceis quanto as pessoas que achamos difíceis”, tudo fica mais leve e a convivência se torna mais fácil.
Para ela, o exercício da paciência é fundamental. “Não devemos esquecer de ouvir, prestando sempre a atenção devida ao próximo”. Débora, que também é uma estudiosa do Espiritismo, tem uma realidade profissional em que precisa dialogar com dois polos diferentes: de um lado o cliente e de outro a mão d
e obra especializada. Ambos representam grandes desafios e exigem habilidades para se manter a boa convivência.
“Temos sempre que ter em mente quecada um tem a sua bagagem de vida, seu conhecimento e vivência. Quando se compreende isso, tudo fica mais fácil”, comenta Débora. Em sua rotina, muitas vezes ela percebe que as pessoas estão acostumadas a brigar, como se a vida fosse uma grande batalha. “Em função disso, a compreensão das necessidades alheias está sempre em segundo plano para muitos. Primeiro vem o ‘eu’ e as pessoas se esquecem de olhar e prestar atenção aos outros, quando às vezes basta isto para que tudo se resolva, simples assim”, diz. Sua sugestão é que as pessoas busquem substituir a ideia de “batalha da vida” – a qual muitas estão condicionadas – por uma troca de vivências e experiências, algo muito mais rico e prazeroso.

 

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