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A arte da superação

A arte da superação

     Felix passava por um período turbulento em sua vida.
     A esposa o abandonara havia poucas semanas levando consigo o cachorrinho Tico. Sua filha faleceu havia menos de dois anos vítima de uma severa doença que lhe consumiu lentamente. Após o passamento da menina, todo o resto começou a ruir e em vários momentos a vida parecia não ter mais brilho. Aos poucos o relacionamento com a esposa foi se pulverizando e ela acabou indo embora sem sequer se despedir.
     As coisas no trabalho já não iam às mil maravilhas havia um bom tempo. A concorrência com os estrangeiros era injusta e a saudade dos tempos áureos só aumentava. Vários colegas da empresa já haviam desistido, simplesmente perderam o encanto pelo trabalho. Não se sentiam mais prestigiados como antigamente e resolveram seguir novos rumos.
     O dinheiro sempre foi curto. Felix sabia desde o princípio que dificilmente iria enriquecer com a carreira escolhida, mas isso nunca lhe afetou. Sabia que havia coisas mais importantes do que os bens materiais, e a possibilidade de conhecer o mundo e seguir uma vida de glamour e companheirismo foi o que o cativou.
     Naqueles dias as coisas estavam particularmente complicadas. Só para variar, nenhuma das promessas do governo se concretizou e a economia do país ia de mal a pior. Isso afetava imediatamente nos resultados da empresa e muitas vezes, especialmente nos dias de clientela fraca, o ânimo para trabalhar tinha que ser buscado lá no fundo, bem fundo mesmo.
     Talvez se tivesse estudado um pouco mais e seguido carreira de Doutor, assim como alguns amigos de infância, ele teria conseguido meios para prolongar um pouco mais a vida de sua pobre menina. Ele até sabia que a doença era incurável, mas com tantos avanços da medicina…. E se?
     Já não adiantava mais remoer as decisões do passado, até porque ele tinha plena convicção em suas escolhas e, apesar de tudo, era extremamente grato pela vida que teve.
     Muitas pessoas não entendiam como, mesmo nos momentos mais difíceis, Felix nunca parecia se deixar abater. É lógico que havia dias em que tudo parecia opaco e que era necessário um esforço maior para superar as agruras, mas ele era diferente… não iria se entregar assim tão facilmente.
     O dono da empresa chegou a lhe oferecer uma licença remunerada por tempo indeterminado, mas Felix prontamente recusou. Todos sabiam de sua força e capacidade e ele não ia deixar que nada afetasse seu trabalho que tanto lhe satisfazia. Ele sabia que muitas pessoas dependiam dele para serem felizes mesmo que por alguns instantes e não seria justo tirar delas essa oportunidade.
     Mesmo com tantas adversidades, Felix sempre manteve a cabeça erguida e nunca deixou de oferecer um ombro amigo ou uma palavra de conforto para quem quer que fosse. Afinal, era essa a sua missão e ele jamais teve dúvidas disso. Semear a alegria e uma visão positiva da vida…  não estava sendo fácil, mas ele não ia se entregar.
     A fé para Felix sempre foi algo muito presente. Desde moço optou por não seguir as mesmas religiões que a maioria, pois não se sentia à vontade com um Deus distante e às vezes punitivo. Não via sentido em tantos símbolos e explicações vagas. Para ele Deus era muito presente a cada instante de sua vida, tanto nas vitórias quanto nos fracassos. Via em cada percalço uma oportunidade única de aprendizado e nunca deixou de agradecer, mesmo nos piores momentos.
     Naquele dia as coisas não estavam sendo fáceis. A tempestade lá fora desanimaria qualquer um… por um instante Felix chegou a se sentir  triste, mas já era hora de trabalhar. Apressou-se para terminar de se arrumar e em poucos minutos estava pronto, todo paramentado para mais um dia de trabalho. Ao ser anunciado, Felix subiu no picadeiro, não sem antes agradecer a Deus – seu sempre presente companheiro – como, aliás, fazia a cada apresentação.
     Essa é a história de um palhaço, que mesmo no dia em que estava triste, mesmo quando tudo parecia particularmente complicado, soube dar um sentido maior à sua vida, subiu no picadeiro, se apresentou e encantou a todos… Afinal, o show não podia parar.
     Muitos dos presentes na plateia sabiam da história de vida de Felix, afinal a cidade era pequena e o circo estava lá havia um bom tempo. Ao verem a força daquele homem que se dedicava a trazer alegria a todos mesmo quanto tinha motivos para agir diferente, todos eles se contagiaram por aquele clima de risos e alegria e sentiram um algo mais.
      Cada um dos presentes saiu dali transformado, renovados em suas convicções, vibrantes, com um sentimento de plenitude que poucas vezes tinham experimentado em suas vidas.
     Mais uma vez Felix cumpriu com louvor o seu desiderato. Logrou êxito em tocar a alma de cada indivíduo da plateia e lhes apresentar uma visão de mundo mais fraterna e alegre. De repente, tudo voltava a fazer sentido, e Felix, fortalecido em sua fé, não perdeu a oportunidade para agradecer a Deus por ter uma vida tão abençoada.
Rodrigo Fontana França

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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