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A descoberta grega da subjetividade, harmonia e unidade

A descoberta grega da subjetividade, harmonia e unidade

Por Juliana Fischer de Almeida

“Não poderias encontrar os limites da psique, ainda que percorresses todos os caminhos, tão profunda razão (lógos) ela tem.” (HERÁCLITO, graf, 45 D.K).

Pensar a cultura ocidental é entender a contribuição dos líricos gregos da Época Arcaica, pois revelaram quão profundas e intensas são as questões espirituais em que “[…] marca profundamente hoje nossa visão de mundo e entendimento das coisas: essa interioridade psicológica, onde se enraízam e se originam nossas decisões e nossos atos, e que se nos dá como fundamento e o estofo da personalidade. […]. Configurado pelas fronteiras entre o interior-subjetivo e o exterior- objetivo, está o Sujeito, detentor e custódio da dimensão interior e seus conteúdos, e fundado neste fulcro íntimo que é a vontade […].” (TORRANO, p. 47, 2006).
O pensar profundo é inaugurado pelos líricos que consagram uma nova forma de discurso – a tragédia – na qual o vínculo do agente e a ação constituem a noção de vontade, reverberado pela complexidade das fontes espirituais, que são o cerne das ações dos homens. Os dramaturgos atenienses deram o significado para palavra persona entendido hoje como: “O que somos?”.
A integração entre vontade, subjetividade-objetividade e a persona é um traço cultural em que se apresenta uma visão de mundo, assim sendo, examinaremos como Hesíodo compreende a oposição entre homem e Deus. Para Hesíodo, “Deus não é senão a superabundante presença e está todo ele presente em todas as suas manifestações, já que presença não é senão manifestação, negação do esquecimento, verdade, a-létheia. A presença de um Deus coincide com seu âmbito de domínio. Entendido esse domínio de um Deus tanto no sentido temporal e espacial, como no de esfera de atribuições, conjunto de encargos e funções exclusivos por ele, podemos dizer que um deus grego não é senão sua timé.” (idem, p. 49).
Com efeito, o Panteão grego se apresenta como uma recíproca oposição de domínios – timaí divinas, ou seja, um jogo de forças que neste confronto determinam a si mesmas, estruturam-se e encontram sua própria força. No intenso confronto, cada Deus vigia atentamente suas fronteiras objetivando conservar íntegro o seu âmbito de domínio – timé. Assim, paradoxalmente, nestas desuniões é que surge a mais forte harmonia, é pelo conflito e pela diferença é que se funda o Ser, e, conforme afirma Heráclito: “a oposição é reunidora, e das desuniões surge a mais forte harmonia: através do conflito é que tudo vem a ser.” (frag. 8D.K).
Os gregos entendiam que a essência da divindade é a sua própria presença, uma presença que não é senão ela mesma, cuja força de ser nos toca inteiramente e plenifica segundo sua qualidade de bem ou de mal. A presença divina origina-se de si mesma, que se manifesta como múltipla na totalidade Cósmica. Zeus – Deus dos Deuses – no Olimpo, leva o homem a se constituir e se fundar, pois ao encontrar o seu próprio fundamento ele se comunica com a própria fonte da vida e a existência humana se configura, ganha sentido e se vivifica, imprimindo no homem novas forças e um sentido iluminador, que se traduz também por “espírito”, enquanto a capacidade de perceber, ver, refletir, meditar, ser lúcido e ter sentido.
O culto dos deuses faz parte da ordem universal e a multiplicidade dos deuses permitiu entrever a transcendência de um Deus supremo. É sabido que grande parte das artes e da filosofia derivaram da mitologia pagã, porquanto os mitos pagãos serviram para descrever os fenômenos físicos. “Assim, mitos e ritos continham um ensinamento oculto a propósito da natureza. Foi conflitivo o encontro entre essa teologia poética, ligada aliás ao culto pagão e a reflexão filosófica.” (HADOT, p. 61).
Por fim, são com os líricos gregos que se inicia com profunda intensidade um pensar sobre a constituição subjetiva cuja narrativa mitológica, em especial Hesíodo, auxiliam neste entendimento, demonstrando com o nascimento da cosmologia a harmonia nos opostos e que é na multiplicidade que se chega a unidade.

 

REFERÊNCIAS
HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. Jaa Torrano. Iluminuras: São Paulo, 2006.
HADOT P. O Véu de Ísis Ensaio sobre a história da ideia de natureza. Edições Loyla: São Paulo, 2006.

Juliana Fischer de Almeida
É Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

 

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