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A FÓRMULA ORTEGUIANA DA VIDA: “EU SOU EU E MINHA CIRCUNSTÂNCIA”

A FÓRMULA ORTEGUIANA DA VIDA: “EU SOU EU E MINHA CIRCUNSTÂNCIA”

Por Juliana Fischer de Almeida

“Viver é o que ninguém pode fazer por mim – a vida é intransferível, não é um conceito abstrato, é meu ser individualíssimo”. (Ortega y Gasset)

José Ortega y Gasset nasceu na Espanha, viveu entre 1883 a 1955 e é considerado um dos grandes filósofos do século XX, tendo como grande aporte teórico uma reforma da Filosofia. Tratou de temas fundamentais da existência humana, acreditando que todas as coisas estão em permanente processo de mudança, por isso a vida é um grande aprendizado. Em “Meditações sobre o Quixote”, escrito em 1914, o filósofo propõe tratar a vida como problema central a ser investigado e apresenta a seguinte reflexão: “eu sou eu e minha circunstância”. Afinal, o que Ortega y Gasset quis dizer com tal fórmula?
O filósofo define o viver como resultado da relação entre o eu a circunstância, sendo a circunstância caracterizada pelo ambiente físico e social, com “todas as coisas e os seres do Universo que nos circunda […]. (ORTEGA Y GASSET, 1967). Com a inserção do eu no mundo, a vida torna-se um compromisso de estudo, pois viver é realizar um programa, é desenvolver um projeto vital no mundo como se apresenta. Assim, “nossa circunstância é o lugar, o tempo, a sociedade em que cada um de nós é lançado desde o nascimento. Ela se impõe a todo homem como realidade física e social estranha, como fonte perene de preocupações e problemas. E, procurando resolver esses problemas, o homem é forçado a construir sua própria existência, a realizar o projeto que escolheu ser. “[…] o homem inventa o homem, inventa também a cultura e a história.” (REALE E ANTISERI, 2003, p. 167).
A circunstância entendida, aqui, como tudo aquilo que rodeia e permeia o eu, impacta diretamente nas escolhas do sujeito, porquanto as ações humanas guardam uma íntima relação com a subjetividade do sujeito que escolhe e, portanto, com tudo que o circunda. A tarefa vital é assinalada por Ortega y Gasset como “[…] querer ser, antes de tudo, a verdade do que somos”. Em síntese, a primeira característica da vida é um compromisso inadiável e irrecusável que temos conosco, sendo que a circunstância faz parte da nossa realidade pessoal. Todavia, não se confunde com a vida, que é caracterizada por aquilo que cada pessoa faz com a circunstância.
No artigo “O conceito de circunstância em Ortega y Gasset”, José Maurício de Carvalho afirma que a “intimidade ou o lado de dentro que representa a parcela oculta da vida também circunscreve o eu, como também o envolve a situação exterior, a realidade social, econômica, política, temporal, em resumo cultural onde vivemos. O lado de fora do indivíduo, aquilo que se manifesta para os outros, é expressão do interior que se deixa ser conhecido pelo que aparece fora. O homem tem, pois, um lado de fora e um de dentro e ambos circunscrevem o eu, sendo que o corpo põe à mostra a alma […]”. Isto significa dizer que no entorno do eu, primeiramente encontra-se a alma, e, posteriormente, encontramos o nós, o outro, o social e o cultural, sendo estes os vários os círculos do nosso eu.

Fantasia
Outro conceito importante para compreensão da fórmula orteguiana da vida é a fantasia, que se caracteriza por uma “[…] força que torna o homem ser que projeta, um ser que procura mudar a si mesmo e o ambiente circunstante e que, sem trégua, põe em confronto os projetos elaborados em seu mundo interior com a situação do mundo externo. É a fantasia, portanto, que se encontra na base da liberdade do indivíduo: este inventa sua própria existência, não é determinado […].” (REALE E ANTISERI, 2003, p. 167). A fantasia é importante para o homem, porquanto é a força que o faz projetar, é o movimento criativo, inovador do eu.
A apresentação da vida como problema filosófico foi um dos temas centrais da meditação orteguiana e pode-se concluir que viver é interior, um processo de dentro para fora conjugado com a circunstância, fazendo com que o ambiente lhe proporcione uma preeminente construção de si, inventando a história e a cultura num constante movimento de mudanças. Cada ser humano é único, sendo que só ele é capaz de dizer determinados aspectos da circunstância, e, como diz o filósofo: “Aspiro contagiar as demais pessoas para que sejam fiéis cada qual à sua perspectiva”.

 

Juliana Fischer de Almeida

Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

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Referências:
CARVALHO, José Maurício. O conceito de circunstância em Ortega y Gasset. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, EDUFSC, Volume 43, Número 2, p. 331-345, Outubro de 2009.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações sobre Quixote. Livro Ibero-Americano, 1967.

REALE Giovanni e ANTISERI Dario. História da filosofia de Nietzsche à Escola de Frankfurt. Vol.6. Trad. Ivo Storniolo. Paulus: São Paulo.2003.

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