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A vida na cidade: cuide do que é seu!

Cabe a cada cidadão zelar pelo ambiente no qual se vive, dar exemplo e contribuir para a melhoria da convivência urbana. Algumas atitudes simples, mas importantes, fazem a diferença quando o assunto é qualidade de vida nas cidades

Por Anna Paula Michels

Quase 205 milhões de habitantes. Esta é a projeção feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para a população brasileira atualmente. No último censo, realizado em 2010, éramos pouco mais de 190 milhões em todo o país. Destes, 84% viviam nos centros urbanos, o equivalente a 160.925.792.
Comparado há 10 anos, o censo registrou um aumento considerável da população urbana em relação à rural. E o cenário se mostra em crescimento, justificado pela forte tendência em se morar na cidade. De acordo com projeções, até 2050, a porcentagem da população brasileira que vive em centros urbanos deverá saltar para 93,6%.
Mais pessoas convivendo no mesmo espaço, mais responsabilidade individual pelos atos e cuidados com a casa em que se divide. Será que estamos preparados para esta nova realidade? Sabemos como pensar e agir, com o objetivo principal de alcançar as necessidades coletivas, e não apenas os interesses individuais?
Para o sociólogo, professor e gestor ambiental Airton Laufer Junior, primeiro, é necessário criar ou reforçar a consciência individual para a importância da qualidade de vida nos centros urbanos. E ela cabe a cada cidadão, conceito este esquecido ou mal interpretado nos dias de hoje, segundo ele. “As comodidades da vida urbana, a sensação de poder, de posse, de compra foram gradativamente turvando a nossa visão sobre as consequências, por exemplo, do consumo desenfreado. Aceitamos o desenvolvimento econômico como única premissa para a melhoria das condições de vida em sociedade, mas, relegamos a um segundo plano o desenvolvimento humano e social”, argumenta.
Como segundo passo, Laufer ressalta ser fundamental aprender a viver em conjunto, revendo atitudes, dividindo os espaços urbanos, socializando bens e recursos essenciais para a sustentabilidade. “Todo cidadão terá que mudar hábitos, costumes, maneiras de pensar e agir, considerando o interesse coletivo. Reinventar a vida urbana, investindo em projetos sociais, valorizando a cultura local, empreendendo outras formas de desenvolvimento econômico, formando novos agentes políticos, constituindo uma atmosfera moral para a sustentabilidade da vida em todas as suas expressões na Terra”, defende o sociólogo.

Priorizar as necessidades sociais
Para modificar pensamentos e transformar a mentalidade em prol de uma vida saudável e justa, cabe a cada indivíduo rever suas atitudes e prioridades. E os diversos segmentos da sociedade – social, político, econômico e cultural – exercem papel fundamental na divulgação destes projetos sociais prioritários, como educação, saúde, moradia, condições de emprego, lazer, transporte público, saneamento, entre outros.
Ações como ensinar a controlar o consumo exagerado, evitar desperdícios, economizar água e energia elétrica, reciclar e reutilizar materiais, manter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos, além de participar da vida social de sua comunidade e acompanhar o trabalho dos governantes, são maneiras básicas, mas eficientes, de gerar mais qualidade de vida à cidade e a seus habitantes.
Airton Laufer Junior acrescenta à lista medidas como organizar o espaço doméstico, escolar e profissional, utilizar bicicletas, transporte público ou a ‘carona solidária’, e o cultivo de plantas, hortaliças e frutas. “Acredito que devemos ensinar pelo exemplo diário em nossas atitudes. Particularmente, quando assumimos uma postura crítica em defesa da vida, do meio ambiente, da cultura, dos valores humanos, fortalecendo os espaços de convívio na família, no trabalho e em sociedade”, reforça.
Entre os exemplos eficientes realizados por empresas, o sociólogo destaca a ação de uma concessionária em Curitiba, no Paraná, que sensibilizou os seus colaboradores a participarem de projetos comunitários, de forma voluntária, trabalhando na reciclagem de materiais, revertendo os ganhos com a venda às comunidades carentes. O sociólogo cita também a iniciativa de alguns estabelecimentos curitibanos em participarem da distribuição de alimentos provenientes de restaurantes a pessoas de baixa renda. Ele destaca ainda companhias de diversos estados brasileiros que adotam praças, parques, ruas, escolas e hospitais para a manutenção, reforma ou construção do mobiliário público – além de pessoas que cuidam de terrenos baldios, plantando e colhendo hortaliças que serão distribuídas à população local.

Menos é mais
A realidade do local onde se vive está diretamente relacionada à mentalidade de seus moradores. Quais os objetivos e a maneira com que se cuida deste local para alcançar essas metas também. Iniciativas inovadoras e sempre em benefício do interesse coletivo são cruciais para a melhora da convivência urbana. E é aí que entra a inovação frugal. Já ouviu falar?
Estudado por anos pelo escritor e consultor em inovação e liderança indiano Navi Radjou, o ‘Jugaad’, também conhecido como inovação frugal, ou ‘solução improvisada’, baseia-se na habilidade de gerar mais valor econômico e social usando poucos recursos, criando alta tecnologia a baixo custo e tornando-a acessível a mais pessoas.
O escritor passou a prestar atenção em empreendedores e empresas de alguns mercados emergentes que conseguiram resultados inacreditáveis mesmo com a escassez de recursos. A cidade de Nairóbi, no Quênia, é um exemplo. Para amenizar o problema dos grandes engarrafamentos, engenheiros da IBM desenvolveram uma solução chamada Megaffic, que foi projetada por japoneses e adaptada à realidade da cidade queniana. No lugar de sensores de estrada, com custo bastante alto, o sistema funciona com imagens captadas por câmeras de baixa resolução espalhadas pela cidade e um software que analisa e prevê os pontos de engarrafamento. Com essa previsão, são enviadas mensagens de texto com rotas alternativas aos motoristas.
A China também traz um modelo de inovação frugal incrível, no qual engenheiros da Siemens Healthcare desenvolveram um aparelho de tomografia mais simples que pode ser usado por enfermeiros e técnicos de enfermagem. O diferencial está no seu consumo: menos energia e a possibilidade de escanear mais pacientes por dia, reduzindo o custo do tratamento em até 30% e a dosagem de radiação em até 60%. O refrigerador criado apenas com argila pelo ceramista Mansukh Prajapati é outro caso de maneiras criativas de extrair valor dos recursos limitados e reutilizar o que já se tem destacado por Navi. Além de não consumir eletricidade alguma, o aparelho mantém frutas e vegetais frescos por vários dias.

 

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