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Aborto:negação de uma oportunidade

Aborto:negação de uma oportunidade

Reportagem publicada na SER Espírita impressa

Por Mara Andrich

Para o Espiritismo, a vivência na Terra ou em outros mundos é sempre uma oportunidade de aprendizado e, consequentemente, de evolução. Portanto, toda chance de experiência é uma dádiva, e deve ser muito bem aproveitada, de maneira a contribuir não só com você mesmo, mas também com todos os que estão a sua volta. Sendo assim, o aborto provocado pode trazer consequências negativas para quem pratica o ato e também para o espírito que teve negada uma oportunidade de encarne. Essa é a visão espírita do aborto, que o admite apenas quando há riscos para a mãe, pois, preservando a mãe se permite futuras chances de maternidade.
No entanto, todos têm o livre-arbítrio. E dentro da Doutrina Espírita fica bem claro o conceito de que as pessoas sempre viverão as consequências dos seus atos. “Cada um tem o livre-arbítrio de decidir a própria vida, sabendo que a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”, observa a vice-presidente da Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo e da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, Julia Nezu. Diante do “aqui se planta, aqui se colhe”, a colheita é muito mais abrangente do que se imagina.
E, por isso, a questão do aborto é tão complexa. “O aborto, a conduta da mãe e do médico que fazem ceifar tal oportunidade (a do reencarne) causam prejuízo não somente ao espírito preterido, mas a todos que este ser poderia influenciar, em forma de pensamento, de sentimento, de ações, etc.”, avalia a advogada e professora da Faculdade Dr. Leocádio José Correia (Falec), de Curitiba, Danielle Christiane da Rocha. Danielle também lembra a responsabilidade do livre-arbítrio e das consequências dos atos e pensamentos de cada um. “Os espíritos encarnados que perpetraram a ação abortiva deverão se responsabilizar pelo desdobramento de seus atos, na medida de seu conhecimento, de seu entendimento. Mas não no sentido de pena, de ‘pagamento’, mas seguindo a lei de causa e efeito deverão enfrentar a consequência da escolha”, avalia.

O ESPÍRITO E A CONCEPÇÃO
Para a Doutrina Espírita, o aborto não é aconselhável porque os espíritos informam que a vida inicia-se no momento da concepção, ou seja, quando ocorre a união do espermatozóide com o óvulo já há um espírito se ligando ao feto. A Ciência também já vem confirmando essa teoria espírita, nos últimos anos. “Portanto, abortar é ceifar uma vida. E o médico tem a missão de salvar vidas, e não o contrário”, afirma o médico, fundador da Associação de Médicos Espíritas de Santa Catarina e presidente do Instituto de Cultura Espírita de Santa Catarina, Ricardo Di Bernardi. Para ele, deve-se refletir que o aborto pode significar uma decepção e um grande sofrimento para o espírito abortado e que o ato de ceifar uma vida pode influenciar nos processos reencarnatórios, tanto os futuros como os que já estão em andamento. “Há que se permitir que alguém cumpra sua existência no momento certo e programado pelos seres de luz do mundo espiritual”, afirma.
Di Bernardi lembra, portanto, da Lei de Causa e Efeito. Que a reação da natureza sempre será proporcional à intencionalidade da ação. Segundo o médico, estudos espíritas indicam que se o espírito abortado estiver em um estágio evolutivo mais desenvolvido, as reações ao aborto serão mais tolerantes. “Poderia ser alguém com a proposta de aproximar o casal, restabelecer a união, ou mesmo servir de amparo social aos membros da família”, avalia. Para quem já provocou ou sofreu um aborto, o médico faz um alerta. “Direcione seus atos com amor para a gestante carente, para o bebê abandonado, para os seres humanos que passam por dificuldades. Agindo com amor poderá, ao menos parcialmente, harmonizar as energias em desequilíbrio que amealhou pelo ato equivocado que cometeu”, orienta o médico.
É bem possível que a mãe (e o pai também, pois o casal é o responsável pela gravidez indesejada, e não somente a mulher) venha a sofrer consequências psicológicas depois de praticar um aborto. Segundo o médico, são comuns casos depressivos pós-aborto, assim como a sensação de vazio interior e o sentimento de culpa. Há estudos britânicos que dão conta de que até mesmo o feto pode sentir dores no momento do abortamento. Mas todas essas consequências devem ser pensadas com cautela e reflexão. “Lembramos sempre que não se pode generalizar raciocínios, nem padronizar efeitos. Cada espírito tem um limiar de responsabilidade, e a cada momento, atos de amor e de crescimento interior diluem o carma construído no passado”, afirma Di Bernardi.

RESPONSABILIDADE DE QUEM?
O aborto provocado, em geral, é o resultado de uma gravidez inesperada. Gravidez que é resultado de uma relação entre duas pessoas. Portanto, a visão espírita é de não responsabilizar somente a mãe, mas também o pai, que igualmente consentiu na relação sexual. Quando se fala em relação sexual, o espírito Leocádio José Correia (em mensagens psicografadas e psicofonadas pelo médium Maury Rodrigues da Cruz) vem lembrando da sexualização do mundo, da fugacidade dos relacionamentos, que levam as pessoas a valorizar momentos que se acabarão rapidamente, sem refletir sobre o futuro. Segundo a visão espírita,
o sexo tem se tornado um produto de consumo, e não mais uma consequência do amor, da união e do respeito entre duas pessoas. Portanto, o aborto deve ser tratado, hoje, também como um produto da sociedade atual, e não apenas como um ato equivocado de um casal.
Na opinião de Danielle, não se deve julgar quem fezou pensa em fazer um aborto. “O diálogo espiritista jamais deve ser negativo, no sentido de apontar culpa ou lançar olhares de reprovação. A atitude esperada do espírita é de promoção do ser, de encorajamento, demonstrando às pessoas que devem ser fortes diante das escolhas que a vida lhes impõe, que não devem ter medo e que Deus dá toda a força necessária para os enfrentamentos”, afirma a advogada. Para ela, não se deve dispensar a culpa somente à mãe (o que, na sua opinião, é feito com a proposta de legalização). “Todos devem compor a mesa de debates: juristas, políticos, médicos, mães, pais, psicólogos, teólogos. E talvez devemos iniciar com a seguinte pergunta: o que eu posso fazer para ajudar a solucionar o problema?”.
Julia alerta que a sociedade deve lutar pela vida aderindo às campanhas contra o aborto e levando esclarecimento às pessoas – principalmente aos mais jovens –. Ela lembra que a sociedade brasileira está, lentamente, pendendo a não legalização do aborto – assunto que vem sendo debatido há alguns anos no país – e que assim deve ser, na sua opinião.
O Projeto de Lei 1135/91, que previa a extinção dos artigos do Código Penal que criminalizam o aborto, foi rejeitado por unanimidade na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. Pesquisas divulgadas pelo Vox Populi deram conta de que 82% dos brasileiros querem que a legislação sobre o aborto continue como está, ou seja, querem que o ato continue sendo criminalizado apenas em casos de estupro ou de riscos para a mãe. Um dos motivos das discussões seria que muitas mulheres fazem abortos clandestinos e acabam causando grande mal para sua própria saúde, e também se transformam em um peso a mais para a saúde pública, já tão deficiente no Brasil. “Legalizar o aborto traria mais malefícios do que benefícios. Em países onde o aborto foi legalizado a experiência mostrou que isso não resolveu. Sabemos que no atual estado evolutivo do planeta esse é um problema de difícil solução.
A clandestinidade do abortamento não deixaria de existir se ele fosse legalizado, pois muitas meninas jovens, por exemplo, não gostariam de envolver seus pais na questão. Sem falar que o atual sistema de saúde pública deficiente não comportaria o atendimento de milhões de abortos por ano”, avalia Julia.
Mas qual a saída, mesmo que temporária? Para Julia, a prevenção é fundamental. Orientar, educar, explicar para a sociedade o crime moral que é ceifar uma vida. Neste sentido, a Doutrina Espírita está no caminho, pois ela busca, acima de tudo, informar. “Intensificar as campanhas de esclarecimento e criar uma política nacional de educação sexual nas escolas – com disponibilização e preservativos que previnem contra a gravidez e doenças – seriam algumas alternativas”, avalia.

ESTUPRO E ANENCEFALIA: MÉRITOS PARA TODOS OS LADOS
Não deve ser nada fácil para uma mulher sofrer um estupro, conceber um ser e cuidar dele com carinho e atenção. Mas para a Doutrina Espírita tudo isso é um mérito para quem se responsabilizar pela criança, e que nem mesmo em uma situação triste como esta o aborto pode ser considerado. Na visão espírita, o aprendizado será para toda a família, amigos, enfim, todas as pessoas que estiverem próximas ao caso, que tiverem a oportunidade de vivenciar a experiência de conviver com o fruto de uma violência. Para Danielle, cuidar de uma criança fruto de um estupro é um exemplo de amor, de desprendimento e de força. “Fácil amar a quem amamos. Difícil é amar os inimigos”, lembrou ela, citando O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Nos casos de anencefalia (quando o bebê nasce sem cérebro e acaba vivendo muito pouco fora do útero), ainda há muito que se discutir. Mas considerando que toda vivência, mesmo que curta, seja significativa na evolução de um espírito, não seria plausível um aborto. E, como no caso do estupro, todos os envolvidos com o bebê anencéfalo aprenderão muito, mesmo que seja por dias ou poucas horas. Sem falar que, na visão de Júlia, não é regra que um bebê com anencefalia não sobreviva além de minutos ou horas e que, portanto, o ato abortivo de uma criança nessa situação pode ser comparado ao aborto de bebês com outras deficiências (auditivas, de visão, etc.). Como disse o espírito André Luiz, em psicografia do médium Chico Xavier, “na mente do espírito reencarnante reside o comando, portanto, a consciência traça o destino e o corpo reflete a alma”.

ABORTAR É NEGAR OPORTUNIDADE DE EVOLUÇÃO

– Para a Doutrina Espírita, abortar é ceifar uma vida e, portanto, é um crime.

– Uma mãe que aborta está cometendo um crime não somente porque está tirando uma vida, mas também porque está tirando a oportunidade de um reencarne e, portanto, de um espírito evoluir. A sociedade que não se estrutura para orientação e apoio às pessoas que a compõe é igualmente responsável pelos abortos e outros crimes que ocorrem.

– Em casos de estupro, o aborto também é considerado um crime perante a Doutrina Espírita. Se a mulher não tiver condições de cuidar de um filho proveniente de um ato de violência aconselha-se, então, encaminhá-lo para adoção. Se cuidar desse filho conquista um grande mérito.

– Em casos de risco para a mãe que está grávida, a Doutrina Espírita concorda com o aborto, pois é mais coerente dar a oportunidade à mãe, que pode gerar novas oportunidades de reencarne.

Fonte: Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo.

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