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Abrindo janelas

Abrindo janelas

Ter um bom emprego nem sempre é sinônimo de satisfação. Há momentos na vida em que podem surgir alternativas, como mudar de trabalho ou até mesmo investir em outra área de atuação

Por Ana Elisa Oliveira – Publicado na SER Espírita impressa n.23
Nos últimos anos, a economia brasileira tem exigido mão de obra cada vez mais qualificada, com profissionais multitarefas, experientes, pró-ativos e que sabem trabalhar em equipe. Somado a isso, crises econômicas têm gerado turbulências no mercado de trabalho, tendo como consequência o desemprego. Outra situação é a escolha do profissional ao mudar de área, organização ou mesmo de cidade.
Uma mudança na carreira profissional merece planejamento e implica escolhas quase sempre difíceis, tanto no setor pessoal como financeiro. Dessa forma, é importante que o profissional tenha um ‘plano B’ em mente. Mas, para isso, é preciso ter força e determinação. “O Espiritismo ensina que podemos vencer qualquer desafio existencial, mas há um fator: esforço. Portanto, qualquer desafio da existência pode ser superado quando nos esforçamos para isso”, afirma o escritor, articulista e palestrante espírita, Wellington Balbo.
Em agosto de 2000, o representante de pesquisas e produtos farmacêuticos José Wilmar Silva, de Governador Valadares (MG), somava 18 anos de serviços prestados a uma indústria farmacêutica multinacional e acreditava estar em sua melhor fase quando, sem nenhuma justificativa, a empresa anunciou sua demissão. “Após esse fato é que fui entender o significado de uma grande mudança em minha vida profissional, ou melhor, em minha vida como um todo”, diz.
Naquele momento, nenhuma empresa do segmento oferecia condições para que ele pudesse ser reintegrado ao mercado. José Wilmar procurou se acalmar para poder coordenar as várias ideias que norteavam sua cabeça sobre o que e como fazer. Ele conta que foi um grande desafio definir os possíveis rumos a seguir. “Pensava em qual possibilitaria errar menos financeiramente, tendo em vista que estaria iniciando tudo de novo, em um segmento ainda desconhecido, pois não havia oferta de oportunidade no meu campo de atuação. Tive de correr contra o tempo para me adaptar a esta nova realidade”, conta. O representante precisou, então, recorrer a um ‘plano B’.
A consultora em desenvolvimento de pessoas, coach e psicóloga Denise Bee, de Curitiba (PR), explica que ter um ‘plano B’ significa ficar atento aos acontecimentos, dar o seu melhor no momento presente, mas, ao mesmo tempo, pensar e planejar a médio e longo prazo. “e o profissional tem bom desempenho, trabalha todos os dias para melhorar ainda mais, se ele tem uma boa leitura do ambiente e lida bem com as variáveis corporativas, ele está no caminho certo”, observa.
Durante uma década, José Wilmar tentou várias formas de reiniciar uma carreira profissional. Foi vendedor de materiais para construção, material elétrico e hidráulico e dono de uma distribuidora de bebidas. Em 2010, recebeu uma nova proposta de trabalho no ramo farmacêutico, que estava carente de pessoas experientes na área. “Aprendi que as adversidades fazem parte do curso de nossa vida, naturalmente. Interessante é que são elas que nos proporcionam aperfeiçoamento, crescimento, reflexão, enfim, elas são as grandes oportunidades de conhecermos a nós mesmos, descobrir nossas eficiências, deficiências e nos ajudam a entender que o importante é nos esforçarmos para melhorarmos a cada dia”, acredita.
O representante está de acordo com os ensinamentos da Doutrina Espírita quando reflete sobre a evolução. Segundo o pesquisador Wellington Balbo, “o quesito evolução é tão amplo que podemos aplicá-lo em qualquer área de nossa vida e, naturalmente, à carreira profissional”, explica.

ESCOLHI MUDAR
Isabella Moura começou a estudar Direito aos 17 anos, quando precisava decidir para qual curso faria o vestibular. “Minha escolha foi muito mais racional que emocional. Levando em conta as matérias que mais gostava, só me restou a área de humanas e, como era a época da moda dos concursos públicos, foi o único curso para o qual fiz vestibular. Jamais me passou pela cabeça fazer um curso fora dos padrões”, diz. Na faculdade, Isabella já sabia que não queria seguir aquela carreira para sempre, mas não teve coragem de abandonar o curso.
Ao formar-se, começou a advogar, mas se sentiu frustrada na profissão e decidiu mudar algum aspecto da carreira. Foi então
que conseguiu uma vaga para trabalhar no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, onde se sentiu mais à vontade. “Mas, um belo dia, ‘passeando’ pela internet, vi uns doces e bolos de festas e, como sempre gostei de cozinhar, pensei em fazer alguns cursos, mais por pura diversão. Comentando essa ideia com meu namorado, ele me incentivou muito e me fez enxergar como uma forma de mudar de profissão. Afinal, não era o que eu queria fazer? Encontrar uma profissão que eu gostasse, que me desse prazer e que me satisfizesse financeiramente? Quinze dias depois eu era universitária novamente”, conta a advogada, que começou a estudar Gastronomia no início deste ano.
Como a decisão foi repentina, Isabella não teve tempo para planejar financeiramente sua mudança. Ela trabalha com Direito durante o dia, estuda à noite e faz estágio em Gastronomia nos fins de semana, Isabella confessa que, quando era mais nova, achava que se “ganhasse bem”, independente do que fizesse, se consideraria bem-sucedida.
A consultora em desenvolvimento de pessoas Denise Bee explica que a escolha por uma profissão deve ser cuidadosa. “Planejar a carreira é uma questão chave, em especial nos dias de hoje. O primeiro passo é conhecer e entender a própria ‘identidade profissional’, ou seja, partir de si mesmo: Quem você é? O que você ama fazer? Quando a escolha é certeira, trabalhar é
um prazer, o que aumenta muito as chances de ser bem-sucedido, além de mais feliz.”
A advogada hoje pensa bem diferente: “Profissão é uma coisa muito séria, é o que você vai fazer pela maior parte do tempo, pelo resto da vida. Dessa maneira, você tem que escolher bem, escolher o que vai lhe fazer feliz. E o mais importante, você só será realmente bom naquilo que gosta de fazer!”. Para o estudioso do Espiritismo Wellington Balbo, uma das grandes causas de infelicidade do homem na Terra é não obedecer à sua vocação. “Ora, o que nos impede de buscarmos nossos sonhos profissionais senão o preconceito que muitas vezes alimentamos?”, indaga. Mas ele lembra que também é necessário colocar amor no que se faz, mesmo que a carreira não seja a dos sonhos Denise Bee diz que em sua empresa de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas já houve vários casos como o de Isabella, em que as pessoas tinham um bom emprego e não estavam satisfeitas. “As mudanças que elas fizeram tiveram um custo, como, por exemplo, perder momentaneamente a tranquilidade financeira, mas trouxeram novo vigor para realizar, que antes não tinham”, afirma.
De acordo com a consultora, a segunda ou terceira carreira é algo tão importante quanto a primeira. Hoje em dia não é necessário ter o mesmo ofício por toda a vida. Fechado um ciclo, pode-se decidir, acertadamente, por uma nova profissão. “Por exemplo, atualmente temos um executivo que ficou muitos anos na mesma companhia, trabalhou muito e sempre teve muitas responsabilidades. Ao longo de sua carreira bem-sucedida, aprendeu e desenvolveu capacidades que permitem que, agora, em idade mais madura, comece o seu negócio e realize um sonho, em uma atividade que dá um novo significado à sua vida”, comenta. Denise explica que a vida produtiva tem se prolongado e é importante se preparar também para isso, escolhendo aquilo que é a melhor opção para cada momento. “Com isso continuamos crescendo, como profissionais e como seres humanos. Não há idade limite para isso”, afirma. A consultora conclui o raciocínio com uma expressão que tem como lema: “Você faz as coisas e as coisas fazem você”.

HERANÇAS HISTÓRICAS
Roman Krznaric, em seu livro Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, lembra que o fato das pessoas terem receio de mudar de emprego ou de área de atuação está ligado às heranças históricas. No século XIX, por exemplo, não havia muita opção de escolha, como ele afirma no livro. “As pessoas tinham bem poucas escolhas quanto a seus trabalhos. Era uma questão de destino e necessidade, em vez de liberdade e escolha”. As decisões, diz o autor, eram frequentemente tomadas pelos pais.
Krznaric lembra de Karl Marx, um dos primeiros pensadores sociais que se preocupou com a questão da escolha da profissão: nos séculos XVIII e XIX, o surgimento do trabalho assalariado ofereceu possibilidades de mudança, no entanto, a maior parte das possibilidades de trabalho continuou sendo na indústria – principalmente a têxtil – ou em minas de carvão, ambas bastante penosas. Hoje, muitas pessoas ainda se prendem ao que estudaram
e acabam tendo receio de trocar “o certo pelo duvidoso”, segundo o autor, mas ainda assim, segundo ele, é perfeitamente possível mudar, seja dando sentido ao trabalho atual, seja mudando totalmente de ares.

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