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Adolescentes – Um desafio diário

Adolescentes – Um desafio diário

Por Simone Mattos, publicado na SER Espírita impressa n.20

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Um adolescente com boa autoestima, autoconhecimento e metas de vida bem traçadas está menos vulnerável a riscos como drogas, sexo desprotegido, comportamentos sociais inconsequentes e violência. Quem afirma é a médica pediatra e hebiatra (sub-especialização da pediatria que trata de adolescentes), Lucimara Gomes Baggio. De família espírita e estudiosa da Doutrina, ela afirma que é fundamental o diálogo, o “olho no olho”, bem como tocar o filho, saber sobre sua vida, interessar-se realmente por seus sentimentos, pensamentos, valores e escolhas, sem pré-julgamentos ou discursos unilaterais prontos.
”Uma boa estrutura familiar é importante, mas não é tudo. O adolescente é muito lógico, verdadeiro e crítico com os mais velhos e com a sociedade e não tolera hipocrisias”, alerta a médica. Ela afirma que ler e fazer debates críticos em família sobre assuntos variados fortalece a confiança para um diálogo franco. “Respeito se conquista desde os primeiros anos de vida. A criança respeitada em suas diferentes fases e tratada com ternura e educação reproduzirá este comportamento na adolescência e na vida adulta”, diz.
A psicóloga e professora universitária Janice Strivieri Souza Moreira, que atua como psicoterapeuta de famílias, fala da importância do núcleo familiar. Ele seria o primeiro espaço de aprendizagem das relações sociais e afetivas. “É onde começamos a aprender quem somos e como podemos nos relacionar com o mundo”, define. Ela explica que ser pai e mãe é envolver-se em uma espécie de “trabalho artesanal”, que pode ser árduo, mas geralmente é prazeroso e impagável, “pois proporciona uma experiência altamente enriquecedora”. Janice orienta aos pais que procurem sempre assumir o seu real papel na relação. “Os filhos precisam que eles sejam realmente pais e não amigos. Há coisas que se diz a um amigo, mas não ao pai ou à mãe e vice-versa”, explica a psicóloga. “Todos precisamos de pais e de amigos, mas cada um em seu devido lugar”.
Para quem tem a importante missão de educar um adolescente, Lucimara sugere que se tente manter o foco do jovem em seu próprio crescimento pessoal e profissional, investindo e incentivando os estudos e os esportes. ”Os pais não devem descuidar e precisam estar sempre atentos a assuntos como novas tecnologias, mercado de trabalho e tendências na educação, para terem referências e poderem dialogar com propriedade”. Ela explica que não é preciso dominar todas as áreas de conhecimento, mas interessar-se pelo mundo do adolescente.
Segundo Lucimara, nesses momentos positivos de diálogo é possível também abordar o negativo, ou seja, aquilo que desconstrói o homem e a sociedade, como desonestidade ou drogas. “Não é necessário discurso moralista para falar de moral e ordem social”, diz. O adolescente frequentemente se fecha quando há um discurso autoritário, de cima para baixo, de quem diz saber tudo. “O adolescente não acredita nisso, então não produz resultados”, diz Lucimara. Para Janice, uma das tarefas mais desafiadoras na relação com os filhos é aprender com eles. “Aprender é ensinar, ensinar é aprender”, diz a psicóloga.

Pais e filhos
Mesmo que haja pouco tempo livre para a convivência em família nos centros urbanos, é fundamental que se planeje refeições em família, passeios ou viagens juntos. É uma excelente oportunidade para ter bons diálogos e para fortalecer laços afetivos. “Os pais devem fazer questão desses momentos, mesmo que o adolescente diga se divertir mais com os amigos. A referência familiar de união e respeito não pode se perder”, diz Lucimara. A adolescente Erika Carvalho Ferreira, 15 anos, aprendeu a valorizar esses momentos. Estudiosa do Espiritismo desde a infância, ela explica o valor que sua família tem. “É meu porto seguro”, conta. Além de sempre contar com a participação, opinião e ajuda dos seus pais para eventuais problemas, Erika ressalta que eles compartilham experiências de vida. “Essa troca me ajuda a vencer os desafios”, diz Erika.
Outro aprendizado diário em família é o exercício da paciência, da tolerância, do diálogo e do respeito para tentar manter a harmonia. “Para mim, o maior desafio na vida contemporânea é saber se autoadministrar em meio a tantas pressões sofridas no dia a dia”, comenta. Ou seja, conseguir equilibrar a vida escolar, as tarefas domésticas e o tempo de lazer. Nessa hora, o papel dos pais é fundamental. “Eles me ajudam, com a troca de experiências, a pensar em soluções e a partilhar sentimentos, angústias e problemas”, explica Erika. O exemplo dos pais é fundamental. “De pouco adianta um discurso teórico pleno, com práticas errôneas no cotidiano”, diz sua mãe, a médica nefrologista Rosana Maria Carvalho Ferreira. “Constantemente servimos de exemplo, que inclui desde um olhar até nossas palavras”, conclui.
A psicóloga Janice vai além e diz que, mais que exemplos, são necessárias referências consistentes e coerentes. Segundo ela, é essencial ter segurança para não transmitir confusão na relação com os filhos. “Os pais precisam estar seguros de si, de suas crenças, valores, sentimentos para que possam estabelecer uma relação honesta com seus filhos. Esse é o melhor exemplo”, afirma.

Amor incondicional
Rosana explica que, desde que seus filhos eram muito pequenos, costuma lembrá-los que a relação entre mãe e filhos é uma condição desta encarnação. “Somos espíritos milenares, irmãos de caminhada. Mas agora, como estou no papel de mãe, sei que meu exemplo é fundamental e muito importante”, diz. Na opinião de Rosana, que estuda o Espiritismo há cerca de 20 anos, um dos maiores desafios atuais para os pais de adolescentes é o materialismo excessivo. “Outro ponto é a influência dos meios de consumo na atual sociedade, refletindo no comportamento individual ou coletivo das
pessoas”, diz. Ela entende que, apesar de fisicamente crescido, o adolescente necessita muito dos pais. Por isso, acha fundamental participar nos programas escolares, conhecer os amigos, conhecer gostos, dificuldades, angústias e alegrias. “Assim estamos sempre estimulando o diálogo, a confiança e o respeito”, comenta Rosana. “É muito importante também saber ouvi-los, sermos afetivos e nunca cansarmos de repetir o quanto eles são importantes em nossa vida e o quanto os amamos”.

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