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Allan Kardec – Como ele mudou nossas vidas

Allan Kardec – Como ele mudou nossas vidas

Por Simone Mattos

(Publicado na SER Espírita impressa n.28)
Hippolyte Léon Denizard Rivail era um professor cético, conhecido autor de livros pedagógicos na França do século XIX, quando testemunhou mesas que giravam no ar e ditavam, ao som de pancadas, mensagens atribuídas aos espíritos desencarnados. Na época, fenômenos assim
aconteciam com frequência para plateias das quais faziam parte, além de Rivail, diversos intelectuais respeitados e renomados, como o escritor Victor Hugo.
Mas, o que estaria por trás daquilo? Fraude? Hipnose coletiva? Foi o que o curioso professor decidiu pesquisar. O impacto de sua descoberta foi tão avassalador que fez com que, aos 53 anos, Rivail mudasse de nome e de vida. O professor tornou-se Allan Kardec, líder de uma doutrina tão significativa que, pouco mais de 150 anos depois, conta com pelo menos quatro milhões de seguidores apenas no Brasil.
As fortes manifestações que despertaram a atenção de Allan Kardec foram uma ferramenta necessária, naquele momento da humanidade, para provar a existência da alma e a imortalidade do espírito. Mas, bem diferente dos impactantes fenômenos que ficaram conhecidos como “mesas girantes”, o Espiritismo se consolidou como uma doutrina focada no estudo e na pesquisa e que não se pauta pelo sobrenatural, pelo mágico ou pelas forças ocultas, pois toda a sua extensão é alcançável através do conhecimento. Muito mais importante do que ter explicado aqueles fenômenos pontuais, o legado deixado por Kardec nos mostra o papel e a força que o amor e o respeito ao próximo têm na construção de um mundo melhor. “A compreensão dos princípios do Espiritismo nos leva, inevitavelmente, a uma mudança de postura diante da vida”, comenta o jornalista e arquiteto Eugênio Lara, editor do Pensamento Social Espírita (Pense), de São Vicente (SP). Lara destaca a importância das consequências morais que resultam do entendimento da obra de Allan Kardec.
“Ele definiu a nova doutrina como ciência filosófica ou ciência de observação, mas sem perder a dimensão moral”, comenta. Para o jornalista, a finalidade principal do Espiritismo de Kardec é social. “Não se limita à experimentação e à constatação do fenômeno ou ao assistencialismo social e mediúnico, mas se desdobra em todas as dimensões do comportamento humano, moral, social”, diz.
Por isso, a morte e o morrer ganham outro significado. “A finitude da vida física e a ideia de imortalidade, vivenciadas mediante o processo reencarnatório, segundo as leis da evolução, oferecem uma nova concepção da existência”, comenta. Esse processo evolutivo se espalha por todo o Universo, em outros planetas habitados, porque o Espiritismo postula e adota como princípio doutrinário a pluralidade dos mundos habitados, sem a qual, a evolução não se processaria de modo integral e completo. Na opinião do mestre em Comunicação e editor do blog Observador Espírita, Dalmo Duque dos Santos, o Espiritismo teve pontos históricos importantes: a reafirmação da imortalidade em bases científicas, a difusão do conceito de reencarnação, a intercomunicação entre os polissistemas por meio de inteligências encarnadas e desencarnadas e, sobretudo, o resgate do Cristianismo em bases morais humanistas, desvinculado das igrejas.
Ele pondera, entretanto, que o conhecimento espírita teria avançado pouco como filosofia e ciência. “Crescemos numericamente como busca e expressão religiosa, em função dos mesmos e persistentes conflitos humanos: as questões da dor, da morte e do destino”, critica. Para progredir mais nos campos científico e filosófico seria necessária uma mudança de mentalidade. “Somente agora, 150 anos depois, é que estamos dando os primeiros passos nesse sentido multidimensional da doutrina”, afirma. Para ele, o Espiritismo atingirá a maturidade e a plenitude ética integral neste século XXI. “Isso significa que muitos pontos ainda incompreendidos da doutrina seriam desvendados”.
O jornalista Eugênio Lara concorda que o Espiritismo ainda tem muito a avançar e comenta que, nestes 150 anos, as maiores contribuições ficaram no campo assistencial. “Quase toda a literatura produzida, ao menos no Brasil, é voltada para a evangelização e a autoajuda”, cita. “Ainda há uma preocupação maior em evangelizar do que em assumir uma postura mais cultural, social e condizente com a natureza filosófica do pensamento espírita”.
Para o consultor em educação corporativa Sérgio Naumowicz, coordenador geral dos grupos de exercício mediúnico da Casa da Fraternidade (núcleo da Sociedade Brasileira dos Estudos Espíritas/SBEE, de São Paulo), a compreensão e o entendimento das raízes filosóficas e, principalmente, científicas da Doutrina Espírita estão sofrendo transformações coerentes e consequentes com o crescimento dessas áreas no próprio conhecimento humano. “A evolução do conhecimento humano, nesses campos, se faz década a década, e a nossa prontidão para compreensão se faz na medida da aquisição dos novos conhecimentos científicos, filosóficos e religiosos”, afirma Naumowicz, que estuda a Doutrina Espírita desde 1989.

TRANSFORMAÇÃO CONSTANTE
“Costumo dizer que o contato com o Espiritismo aumenta muito nossa responsabilidade em relação à vida e ao próximo”, afirma o escritor Marcel Souto Maior, autor do livro Kardec – A Biografia, lançado no final de 2013 e que já vendeu mais de 100 mil exemplares. Para ele, é difícil não se transformar depois de entrar em contato com lições deixadas por homens como Allan Kardec. Entre as máximas, cita: “Nascer, morrer, renascer – progredir sem cessar”; “Fora da caridade não há salvação”; “Ajude o outro e estará se ajudando” ou ainda “Trate o outro como você gostaria de ser tratado”.
Também autor do livro As Vidas de Chico Xavier, que deu origem ao filme homônimo, Souto Maior compara o codificador da Doutrina Espírita àquele que foi o seu maior representante brasileiro. “Chico Xavier e Allan Kardec foram homens que viveram movidos por três sentidos muito fortes e raros: o sentido de missão (difundir o Espiritismo e a solidariedade no país e no mundo), o sentido de doação (ajudar o outro sem esperar nada em troca) e o sentido de aceitação (das próprias dores e dos ataques que sofreram).” Ele relembra um aprendizado que ouviu pessoalmente de Chico Xavier, durante as pesquisas que fez sobre o médium brasileiro. “Ele me disse que havia aprendido a viver apenas com o necessário”, disse Souto Maior, que jamais esqueceu a força dessa lição. A provocação o fez avaliar sobre o quanto perdemos correndo atrás de necessidades irreais. “Qual a nossa medida de necessário e qual a nossa missão aqui e agora?”, indaga o escritor. “Se encontrarmos respostas para estas duas perguntas já daremos passos importantes nas nossas vidas”, comenta.
Durante suas pesquisas sobre Kardec, que o levaram quatro vezes à Paris, onde passou muitas horas de estudos no acervo da Biblioteca Nacional da França, ele apurou o máximo de informações possível sobre a repercussão da obra de Kardec nos jornais e revistas do século XIX. Sua constatação é de que foram muitos os ataques desferidos contra o professor por adversários da imprensa, ciência e igreja. “Em Paris, consegui reconstituir um pouco da atmosfera da época – esta tensão permanente entre Ciência e Religião, Crença e Descrença – e resgatar a “voz” da oposição a Kardec, o ex-professor cético que se tornou um missionário em campanha contra o materialismo”, conta.

KARDECISMO ATUAL
Os centros espíritas que seguem a linha-mestra da doutrina codificada por Kardec – estudo e prática da caridade – funcionam como “núcleos de solidariedade” ativos e integrados no país. A cada reunião de estudo da obra de Kardec e a cada ação em favor do próximo, a mensagem de Kardec revive e um círculo virtuoso se forma. Esta é a opinião do escritor Souto Maior sobre
a atualidade da doutrina. “Vejo os espíritas cada vez mais mobilizados e cada vez menos divididos no Brasil”. Ele diz ainda que, quando lhe perguntam se o Espiritismo perdeu força e influência no Brasil após o desencarne de Chico Xavier, a sua resposta é sempre “não”. Além disto, comenta que o Espiritismo estaria cada vez mais focado na solidariedade e longe dos ditos fenômenos.
Segundo o escritor, o Espiritismo ganha força a cada lançamento de livro, a cada novela com conteúdo espiritualista e a cada filme lançado no país. Ele lembra que filmes recentes, como “Chico Xavier”, dirigido por Daniel Filho, e “Nosso Lar”, dirigido por Wagner de Assis, levaram mais de sete milhões de pessoas aos cinemas. “Muita gente saiu das salas de cinema e entrou nas livrarias em busca dos livros de Chico Xavier e Allan Kardec”, afirma. Sérgio Naumowicz concorda que filmes e livros despertam curiosidade sobre a Doutrina dos Espíritos, o que leva milhares de pessoas a os buscarem. “Contudo, isso me parece um fenômeno similar à curiosidade das experiências de Kardec há 150 anos”, compara.
Em sua opinião, Kardec lançou as fundações para que a Doutrina dos Espíritos construísse sua sustentabilidade em torno da pesquisa. “Porém, passados muitos anos do início de seu trabalho, e ao analisar o trabalho espírita no século XXI, percebo que pouco do seu caráter pesquisador fundamenta as ações desenvolvidas atualmente nas casas espíritas”, diz. Ele julga ser necessário que os centros espíritas busquem, cada vez mais, a linguagem da pesquisa. “Somente dessa forma teremos uma doutrina pronta para os desafios dos séculos XXI, XXII e sucessivamente”, avalia.

DIVISOR DE ÁGUAS
Quase dois séculos atrás, com o decorrer de suas pesquisas, Allan Kardec definiu o Espiritismo como uma nova ciência a qual, pelo método experimental, chegou à conclusão de que estas manifestações provavam a existência da alma e de sua sobrevivência após a morte. Ele percebeu que cada espírito possuía um grau de conhecimento e de moralidade. A sua comunicação com os Espíritos resultou em vasto material, que consistia em relatos, descrições, desenhos e mensagens e, com a ajuda de amigos pesquisadores, Kardec resolveu estudá-los, classificá-los e explicá-los.
De seu árduo trabalho resultaram as cinco obras básicas do Espiritismo, utilizadas por adeptos da doutrina em todo o mundo. São elas: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Em 1958, Kardec ainda fundou em Paris a primeira sociedade regularmente constituída para o estudo e a pesquisa da nova
doutrina: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
LINHA HISTÓRICA – ALLAN KARDEC

1804 – Lyon, 3 de outubro de 1804. Nasce Hippolyte Léon Denizard Rivail

1824 – Retorna a Paris e publica um plano para aperfeiçoamento do ensino público

1832 – Casa-se com Amélie Gabrielle Boudet

1834 – Passa a lecionar, publica diversas obras sobre educação e torna-se membro da Real Academia de Ciências Naturais

1835 – Mantém em sua casa cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia, Astronomia e outros

1854 – Ouve falar, pela primeira vez, das “mesas girantes”

1855 – Começa a freqüentar reuniões com os fenômenos das “mesas girantes”

1857 – Inicia a publicação das obras da Codificação com O Livro dos Espíritos, considerado como o marco de fundação do Espiritismo

1858 – Lançamento da Revista Espírita. Funda a primeira sociedade espírita regularmente constituída, com o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

1859 – Lançamento de O que é o Espiritismo? Lançamento de Instrução Prática
sobre as Manifestações Espíritas

1861 – Lançamento de O Livro dos Médiuns (substitui Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas)

1862 – Lançamento de O Espiritismo em sua Expressão mais Simples e Viagem Espírita de 1862

1864 – Lançamento de O Espiritismo em sua Expressão mais Simples e Viagem Espírita de 1862 e O Evangelho Segundo o Espiritismo

1865 – Lançamento de O Céu e o Inferno

1868 – Lançamento de A Gênese

1869 – Desencarna em Paris em 31 de março de 1869, aos 64 anos de idade,
em decorrência da ruptura de um aneurisma. Sepultado no Cemitério do Père-La chaise. Em sua lápide está escrito o seu lema: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”, em francês

1890 – Lançamento de Obras Póstumas, O Principiante Espírita e A Obsessão

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