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Animais são espíritos?

Animais são espíritos?

Por Flavia Zanforlim, Jaqueline Silva e Mara Andrich

Publicado na SER Espírita impressa n.13

Para quem tem animais de estimação, afirmações de que o bichinho é o ‘mais inteligente do mundo’ não são raras. Quem convive com eles sabe bem que são, sim, “inteligentes” e, com isso, se transformam em verdadeiros “donos-coruja”. É certo que é uma inteligência diferente, desenvolvida do jeito deles, mas as pessoas sentem que eles têm algo especial. E como já se sabe, o espírito é o princípio inteligente dos seres, então eles serem espíritos seria uma conclusão lógica.
Afinal, será que os animais são espíritos como os humanos? De que forma explicar essa espécie de “inteligência” dos mascotes e dos insetos? Do ponto de vista do Espiritismo, algumas dessas questões são facilmente respondidas na obra de Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita. Outras, porém, ainda são objeto de estudo. Mas como tudo no Universo, a evolução faz parte da vida de todos e um dia, quem sabe, cientistas vão comprovar muito do que Kardec já dizia no século XIX. E até mais do que isso.
A palavra ‘evolução’ diz tudo quando o assunto é animais. De acordo com pesquisadores, os bichinhos – sejam eles cães, gatos ou formigas, pássaros e peixes – são, sim, espíritos, assim como os humanos. No entanto, um dos espíritos orientadores da SER Espírita, Antonio Grimm, criou um termo mais apropriado para diferenciar os espíritos dos animais e dos humanos: o “protoespírito”. O coordenador de grupos de estudos espíritas, Milton Brero de Campos explica que o que diferencia o espírito humano do espírito animal é o grau de evolução. “Deus criou o Universo com dois elementos: o princípio material e o princípio espiritual. Assim, ele dá a todos o princípio inteligente, que é o espírito, e com ele a capacidade de evoluir”, observa Campos. E Deus também dá a todos a possibilidade de evoluir conforme o seu esforço. “Deus não criou espíritos humanos ou princípios espirituais ou protoespíritos para os minerais, vegetais ou animais. Ele deu a oportunidade igual, e a evolução é que diferenciará o estágio de cada um”, explica.
O pesquisador espírita, sociólogo e professor Rui Simon Paz faz uma analogia entre crianças e adultos para explicar as diferenças entre animais e humanos. Segundo ele, o que os difere é a “essencialidade existente em todos os seres”. Como diz o professor, “quando avançamos na escala evolutiva melhor visualizamos a revelação dessa essencialidade existente em todos os seres. O que os difere? O mesmo que difere um adulto de uma criança. No adulto acentua-se gradativamente aquilo que a criança é.
Assim, como o pinheiro é a revelação no tempo e no espaço que o pinhão, a semente, já era desde o princípio”. Sendo assim, a primeira fase do espírito é a mineral, depois a vegetal, em seguida a animal e, por último, a humana. Segundo o pesquisador Brero de Campos, é na fase animal que o espírito – ou protoespírito, como diz Grimm – começa a ter sua individualidade. “A evolução ele tem sempre, assim como o nível de consciência. Quando o espírito se torna individual ele começa a construir o psicológico”, comenta. Porém, para passar de uma fase a outra leva-se muito, muito tempo.
Pode-se confirmar isso observando um gato caçar, por exemplo: ele se posiciona sem fazer barulho, delicadamente – para não incomodar e nem espantar a presa – respira, calcula a distância, a direção do vento, e só então ataca. “Ele é inteligente, mas é uma inteligência diferente da humana. E o que diferencia um e outro é o grau evolutivo”, explica. Mesmo as árvores e flores têm inteligência. Basta lembrar que elas se reconstroem quando são destruídas. Porém, é importante salientar que os protoespíritos também apresentam diferenças entre eles, ou seja, o protoespírito da grama é diferente do da árvore, e assim por diante.É importante lembrar também da importância que tem o respeito e a admiração que o ser humano deve ter pelos animais. E que, inevitavelmente, quem tem um bichinho participa (e contribui) do processo evolutivo dele. O espírito Leocádio José Correia, em psicografias e psicofonias pelo médium Maury Rodriguez da Cruz, afirma que “as pessoas que optaram por ter animais não devem esquecer que são, provavelmente, o ser mais evoluído com quem eles têm contato”.
Na opinião da veterinária e escritora Irvenia Prada – entre suas obras está o livro A Alma dos Animais – os animais pensam, mas “em ondas fragmentárias”, citando o livro Mecanismos da Mediunidade, de Chico Xavier (pelo espírito André Luiz). “Eles pensam, raciocinam para resolver seus problemas, sabem montar estratégias de comportamento, o que nos leva a pensar que são seres sencientes (do latim, sentiens, que significa ‘que sentem’”. Ela compartilha da opinião de Campos sobre a criação dos seres, e lembra que a física quântica revela que o Universo é “uma grande rede cósmica de interrelações”. “Cai a subjugação, entra a cooperação, o entendimento, o respeito a tudo e a todos. Portanto, os animais são nossos irmãos”, comenta.

A BARATA É INTELIGENTE
A consciência psicológica não ocorre em nível semelhante em todos os animais. Nos insetos, por exemplo, a história é outra. Não raro as pessoas se deparam na cozinha de casa com uma fileira de formigas, como se elas estivessem obedecendo a um general. Os cupinzeiros, e mesmo os formigueiros são “construídos” de uma forma bastante artesanal, o que também provoca uma certa surpresa em quem prestar atenção nos detalhes. As casinhas do joão-de-barro são outros bons exemplos. As baratas, se forem observadas, ficam atentas ao ambiente, procurando fugir de algum chinelo, ou mesmo procurando algo para se alimentar. Até a maneira como alguns cardumes se movimentam no mar ou como os pássaros voam no céu é interessante: o jeito com que se mexem, alguns em círculos, outros em formas geométricas, denuncia algum tipo de inteligência, ou pelo menos alguma maneira de se comunicar, seja com outros seres, seja com os fenômenos naturais.
Portanto, há que se concluir que existe algum tipo de inteligência nesses seres, embora pareçam tão atrasados se comparados ao homem. Desta forma, eles são espíritos também, mas quando se trata de insetos, por exemplo, o entendimento a respeito disso é um pouco diferente. Como explica Paz, neste caso há um protoespírito (que é o princípio inteligente anterior ao Homo sapiens, ao qual vinculam-se colônias de animais, como formigas, cupins, bandos de aves, etc.), e não um espírito individualizado. No caso
destas colônias, ele explica que “a população de um formigueiro, composta por milhares de formigas, não se compõe de indivíduos no sentido espiritual, mas todo o conjunto vincula-se a um único protoespírito”.

ONDE ESTARIA O ELO PERDIDO?
Ao contrário do que crê a religião hindu, a Doutrina Espírita não acredita que os seres humanos já tenham encarnado em uma alface ou em um crocodilo, por exemplo, ou que vão reencarnar desta forma (o que denomina-se “metempsicose”). Essa questão também está sendo estudada ainda, mas já se tem indicações de que seria impossível isso ocorrer. O espírito desenvolve habilidades como o raciocínio, a comunicação, as habilidades manuais que ficariam bloqueadas em um corpo animal sem as condições de aplicação deste acervo de conhecimentos. Seria um retrocesso incoerente com o progresso contínuo.
Segundo Brero de Campos, primeiramente é fundamental compreender que o processo de evolução ocorre no Universo, e não apenas na Terra. Ou seja, em qualquer um dos milhões de planetas que povoam galáxias incontáveis. É, portanto, natural que os processos reencarnatórios ocorram em todos esses planetas. Segundo Campos, “já fomos animais, várias formas de animais, em várias partes do Universo, não necessariamente na Terra. O jacaré, por exemplo, é um estágio evolutivo somático (corporal) da Terra, produto da participação de inúmeros protoespíritos, para chegar no estágio do jacaré, ou qualquer outro animal, dos dias de hoje. No passado, a forma física desses animais era diferente, e eles foram evoluindo para chegar na forma que têm hoje”, explica. Portanto, também para esses animais, para cada forma física do passado, teve um protoespírito, compatível com seu grau evolutivo”.Considerando dois exemplos hipotéticos – o corpo do jacaré e o corpo humano – o corpo do jacaré é um produto desenvolvido no ambiente físico da Terra e sua evolução a partir de formas ancestrais ocorreu no decorrer de 150 milhões de anos.
Se o corpo humano, por ser mais complexo, tenha tomado 600 milhões de anos, isso poderia indicar que não houve tempo para o ser humano ter passado pelo estágio de jacarés na Terra, simplesmente porque eles são muito jovens para o estágio evolutivo espiritual. Isto não impede que o humano tenha passado por uma forma física parecida em algum outro ponto do Universo em
um passado evolutivo longínquo. Desta forma, também não há como o ser humano ter sido um jacaré. “Simplesmente porque eles são o produto contemporâneo a nós, e nós já estamos usando um corpo mais evoluído, com um estágio espiritual mais evoluído. Significa que no passado, quer seja na própria Terra ou em outro mundo, estivemos em corpos animais muito estranhos, mas não necessariamente o jacaré, pois ele é um produto
evolutivo atual. No passado o jacaré era de outra forma”, explica o pesquisador. Ou, seja, é possível que qualquer ser humano já tenha estado em outros planetas em formas protoespíriticas, já que há espíritos em vários níveis de inteligência no Universo.

DE PROTOESPÍRITO PARA ESPÍRITO
Diante do fato de que todos os seres são inteligentes, mas em graus de evolução diferentes, resta tentar esclarecer como essa evolução ocorreu (e continua ocorrendo). Quando, afinal, o protoespírito passa a ser espírito propriamente dito? É importante lembra que o “humano” não seria o “terráqueo”, mas sim, o indivíduo que passa a ter certos entendimentos que o animal não tinha antes. Segundo o sociólogo, professor e coordenador de grupos de estudos espíritas, Rui Simon Paz, ainda não se sabe exatamente onde estaria o “elo perdido” da evolução da vida na Terra. “Mas estudando o comportamento dos símios, cientistas afirmam com procedência que eles já têm autopercepção”, comenta. Em um dos testes, após olhar no espelho, o chipanzé percebeu que havia uma marca de batom em sua testa. “Não há outra explicação para esse comportamento, senão, a autopercepção, o reconhecimento de si mesmo. Ora, essa é a característica que melhor define o espírito no seu estágio individualizado”, explica Paz. Para a escritora e veterinária Irvenia Prada, o elo perdido é o Homo habilis. Ela explica que Darwin e Kardec foram contemporâneos, e que em A Gênese Kardec citou que a “hipótese sobre a origem do corpo humano” e a possibilidade de que”corpos de macacos teriam sido muito adequados a servir de vestimentas aos primeiros espíritos humanos, necessariamente pouco avançados, que vieram encarnar na Terra (…)”. Outras citações do livro também sustentariam a hipótese do Homo habilis, como o trecho do capítulo XI – 16 (A Gênese). Segundo Irvenia, a biologia atual também considera a hipótese, considerando que o ser humano evoluiu a partir do Australopithecus (um macaco de postura ereta) que vivia na África há 3,5 milhões de anos. “Mas pesquisas a respeito da capacidade volumétrica da cavidade craniana do Australopithecus e de quatro espécies humanas mostraram que as medidas do Homo habilis estavam muito próxima das medidas do Australopithecus do que das outras medidas humanas, o que gerou dúvidas a respeito de sua verdadeira natureza – macaco ou ser humano. Há menos de um ano veio o golpe de misericórdia para o Homo habilis, pois foram encontrados na África dois fósseis do Australopithecus sediba (…)”. Segundo ela, como são evolutivamente mais recentes que o Homo habilis, estes têm agora tudo para serem levados à categoria de Australopithecus. Como Irvenia interpreta, em O Livro dos Espíritos Kardec já dizia que a faculdade dominante no homem selvagem é o instinto. E, para ela, a espécie mais primitiva é o Homo habilis
.
LIVRE-ARBÍTRIO E MEDIUNIDADE
Segundo o professor Simon Paz, o livre-arbítrio – que caracteriza bem os seres humanos – ocorre na fase de Homo sapiens. “Podemos considerar que o livre-arbítrio constitui-se na fronteira inequívoca entre o Homo sapiens e as demais espécies”, afirma.
Como explica o professor, os animais podem ter uma sensibilidade um pouco diferente daquela que nos seres humanos denomina-se mediunidade. “Quando afirmamos ter uma intuição, por exemplo, a antecipação de uma notícia de algo acontecido à distância, é porque recebemos uma informação atemporal e transespacial daquele evento. Quando toca o telefone para nos informarem do ocorrido, é como se já tivéssemos conhecimento antecipado do fato (…). Isso é comum, e é inerente à mesma essencialidade que reside em todos os seres. Tudo informa e comunica em face do processo de inteligibilidade que permeia o existente”, explica o professor.
Os animais também se incluem nesse processo. Basta exemplificar com o fato de que os gatos que residem em regiões sujeitas a terremotos sabem com antecedência o que vai ocorrer e somem do local (só voltam depois da tragédia). É como se uma rede mental estivesse sendo operada pelo ser humano. Pode-se manter uma sintonia consciente ou se desligar da rede. O mesmo ocorre com elefantes, e até cobras em regiões vulcânicas. “Isso não quer dizer que os animais são mais evoluídos que os humanos neste aspecto. Ambos têm as mesmas possibilidades no que diz respeito à percepção de situações ainda não reveladas. A diferença está no grau de operação do livre-arbítrio. Nós humanos questionamos a informação e procuramos
relacioná-la a algo já experimentado, o que não ocorre com os gatos”, informa. Já na opinião da escritora Irvenia, os animais podem ver espíritos, citando as obras de Kardec (em O Livro dos Médiuns, no capítulo Da Mediunidade dos Animais há relatos de Erasto, que dizem que “os espíritos podem se tornar tangíveis para os animais”).

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