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Consciência em Bergson: a vida do espírito transborda

Consciência em Bergson: a vida do espírito transborda

“Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos, pois, a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.”
(RUMI)

Por Juliana Fischer de Almeida*

Henri-Louis Bergson, filósofo francês que viveu entre os séculos XIX e XX, produziu um pensamento totalizante dando certa ênfase para o tema da consciência, marcando um novo paradigma sobre o assunto. Também se interessou pela espiritualidade e foi ganhador do Prêmio Nobel da Literatura, em 1927, pois extrapolou os contextos psicológico e epistemológico da filosofia, adentrando ao campo da existência de uma nova maneira. Para Bergson, à “filosofia cabe a tarefa de estudar a vida da alma em todas as suas manifestações. Experiente em observação interior, o filósofo deveria descer ao fundo de si mesmo e depois, voltando à superfície, acompanhar o movimento gradual pelo qual a consciência se distende, se estende, se prepara para evoluir no espaço.” (2009, p. 37).
Bergson defende que a consciência é distinta dos processos materiais e apresenta argumentos a favor da imortalidade do espírito. Na conferência intitulada “Consciência e a vida”, proferida em 1911 na Universidade de Birmingham, o filósofo apresenta a questão: O que é consciência? Num primeiro aspecto, o referido conceito se aproxima da memória, uma vez que “uma consciência que nada conservasse de seu passado, que incessantemente esquecesse de si mesma, pereceria e renasceria a cada instante […]. Mas toda consciência é antecipação do futuro. Consideremos o direcionamento de nosso espírito em qualquer momento que seja: veremos que ele se ocupa daquilo que existe, mas tendo em vista principalmente o que vai existir. […]. O futuro está ali; ele nos chama, ou melhor, nos puxa para si […]. Reter o que já não é, antecipar o ainda não é: eis aí, portanto a primeira função da consciência.” (idem, p. 5).
Nesse sentido, o termo consciência se interliga com a noção de tempo sendo a união entre aquilo que foi e o que ainda não é para que possamos efetuar escolhas com base na memória do que aconteceu, pensando nas vantagens e desvantagens ocorridas no passado; e, prevendo aquilo que a escolha poderá acarretar. Portanto, é preciso lembrar para prever e, posteriormente, decidir. Tal movimento chama-se presente, porquanto é caracterizado justamente pelo instante limítrofe entre passado e futuro que somente pode ser concebido e não percebido. Por conseguinte, o presente é aquilo que “é” no exato momento do fluir da escolha. A noção temporal é extremamente significativa para a formação do “eu”, pois “a conversão do passado no presente e a lembrança do passado é o que torna possível ao “eu” não apenas representar o próprio passado, mas também as oscilações passadas do pêndulo ou as posições passadas do ponteiro ao lado das posições atuais.” (COELHO, 2010, p. 45).
O movimento para escolher e formar o “eu” está intimamente ligado à noção de criação, considerado o segundo momento da noção de consciência abordada por Bergson. Assim, “o ser vivo escolhe ou tende a escolher. Seu papel é criar. Num mundo onde todo o restante é determinado, tem a seu redor uma zona de indeterminação. Como, para criar o futuro, é preciso preparar algo dele no presente, como a preparação do que será só pode ser feita utilizando o que foi, a vida empenha-se desde o início em conservar o passado e antecipar o futuro numa duração em que passado, presente, futuro se encavalam e formam uma continuidade indivisa: essa memória e essa antecipação são a própria consciência. E é por isso que, de direito se não de fato, a consciência é coextensiva da vida. […]. A vida é precisamente a liberdade inserindo-se na necessidade e utilizando-a em seu proveito.” (BERGSON, 2009, p. 12/13).
Desse modo, a consciência como coexistência da vida significa que explicar o sentido da vida somente pelo viés determinista da matéria é esvaziar a existência de um significado livre e criativo. A consciência é do espírito, pois é a inteligência, o centro das tomadas de decisões, portanto, a vida. É pelo intermédio da consciência que somos movidos em direção às nossas escolhas numa continuidade criativa, sendo possível uma “evolução integral da vida em nosso planeta, uma travessia da matéria pela consciência criadora, um esforço para liberar, à custa da engenhosidade e invenção, algo que permanece aprisionado no animal e que apenas no homem se liberta definitivamente.” (idem, p. 17).
O pensamento bergsoniano leva a uma irredutibilidade da consciência à matéria uma vez que a “liberdade é uma dimensão essencial do espírito, inerente a sua natureza profunda […] Bergson se propõe à tarefa de sustentar a liberdade do espírito ante as determinações do corpo, o que faz com que a questão da liberdade seja tratada de maneira correlata ao problema da relação entre espírito e corpo.” (COELHO, 2010, p. 198). Portanto, o triunfo da vida é a criação com vistas ao engrandecimento da nossa personalidade, fortificando nosso “eu” através das nossas escolhas e da composição do continum temporal.
Por fim, o transbordamento da vida do espírito é um acontecimento da própria vida com uma consciência que exprime a liberdade de ser num incessante. É como um florescer da força motora da alegria pelo anúncio de que a vida venceu, pois, “toda grande alegria tem um toque triunfal, em toda parte há alegria, há criação: quanto mais rica é a criação, mais profunda é a alegria.” (BERGSON, 2009, p.22). A linguagem do espírito deve ser explorada por nós para que possamos encontrar o oculto naquilo que há e perceber o que existe no infindável silêncio da nossa consciência.

Referências:
BERGSON, H. A energia espiritual. Trad. Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
COELHO, J.G. Consciência e matéria: o dualismo de Bergson. São Paulo: Unesp, 2010.

*Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

 

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