[kads group="topo-1"]


Cuidado de si e conhece-te a ti mesmo

Cuidado de si e conhece-te a ti mesmo

Por Juliana Fischer de Almeida

Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, é integrante do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

“O cuidado de si é uma espécie de aguilhão que deve ser implantado na carne dos homens, cravado na sua existência, e constitui um princípio de agitação, um princípio de movimento, um princípio de permanente inquietude no curso da existência.” (Foucault)

No ano de 1982, Michel Foucault apresenta no Collège de France o seminário sobre a Hermenêutica do Sujeito, sendo que na aula de 6 de janeiro, foi proposta a problemática geral: subjetividade e verdade a partir do marco teórico do cuidado de si. Primeiramente, a questão apresentada é “em que forma de história foram tramadas, no Ocidente, as relações, que não estão suscitadas pela prática ou pela análise histórica habitual, entre estes dois elementos, o “sujeito” e a “verdade””. (p.04).
Para tanto, Foucault inicia pela noção do cuidado de si, uma expressão grega denominada de epiméleia heautoû, que tem implicações com o sujeito e a verdade, sendo que a escolha da referida expressão possui um paradoxo, porquanto a noção de sujeito, enquanto aquele que o conhece por si mesmo, foi colocado em outro termo grego o gnôthi seautón, conhece-te a ti mesmo. Assim, a fórmula do “conhece-te a ti mesmo” foi a fundadora nas relações entre sujeito e verdade.
Foucault esclarece que o gnôthi seautón não era originalmente o conhecimento de si nem um fundamento moral ou principiológico, mas estava atrelado a um outro princípio, denominado, em grego, de epimeloû heautoû, “cuida de ti mesmo”. O “conhece-te a ti mesmo” é “uma das consequências, uma espécie de aplicação concreta, precisa e particular, da regra geral: é preciso que te ocupes contigo mesmo, que não te esqueças de ti mesmo, que tenhas cuidado contigo mesmo”. (p.07). É neste sentido que a fórmula do “conhece-te a ti mesmo” se apresenta e se delimita.
Por sua vez, o cuidado de si como princípio da vida filosófica e moral obedece ao princípio da racionalidade moral. O que se pretende mostrar é como um dado fenômeno cultural pode constituir na história do pensamento um momento decisivo até se chegar no sujeito moderno. A noção do cuidado de si possui três implicações: é uma atitude para consigo, para com outros e para com o mundo; implica em estar atento para o que se pensa e o que passa no pensamento; e, as práticas que são exercidas consigo mesmo. Essa noção é de fundamental importante para a história da subjetividade.
Com o objetivo de tentar entender porque a fórmula do “conhece-te a ti mesmo” teve uma certa supremacia com relação ao “cuidado de si”, começa expondo o “paradoxo suplementar” que consiste em preceituar o cuidado de si, num primeiro momento, como um voltar a si mesmo de maneira egoística e no transcorrer histórico, dentro de um certo contexto, como uma ética geral do não egoísmo. Portanto, neste “conjunto de paradoxos, creio, que se constitui uma das razões pelas quais o tema do cuidado de si veio sendo um tanto desconsiderado, acabando por desaparecer da preocupação dos historiadores.” (p.18).
Outra razão é o que se denomina de “momento cartesiano” que requalifica o “conhece-te a ti mesmo” e desquantifica o “cuidado de si”. O procedimento cartesiano instaura a evidência na origem do procedimento filosófico, o conhecimento de si se apresenta como consciência, colocando a existência do sujeito no princípio do acesso ao ser, retirando o conhecimento de si como um acesso fundamental à verdade. Foucault insiste que o procedimento cartesiano desqualificou e excluiu o cuidado de si do pensamento filosófico moderno.
A filosofia interroga se pode haver verdadeiro e falso, sobre o que nos torna possível ou não separar o verdadeiro do falso, a forma de pensamento que permite ao sujeito ter acesso à verdade delimitando tal acesso. A verdade jamais é dada ao sujeito por um simples ato de conhecimento que seria fundamentado e legitimado por ser ele: “a verdade só é dada ao sujeito a um preço que põe em jogo o ser mesmo do sujeito” (p.20). Assim, é necessário que o sujeito se modifique, se transforme, se desloque, se torne outro que não ele mesmo para ter o direito ao acesso à verdade. A verdade só é dada ao sujeito a um preço que põe em jogo o ser mesmo do sujeito, podendo-se concluir que não pode haver verdade sem a transformação do sujeito.
Desse modo, é o movimento que tira o sujeito de seu status e de sua condição atual – movimento de ascensão do próprio sujeito, chamado de movimento do éros – amor. Outra forma de transformação é o trabalho e a elaboração de si para consigo, sendo o responsável por um longo labor que é o de ascese. Portanto, éros e ascese são duas modalidades segundo as quais o sujeito se transforma para se tornar sujeito capaz de verdade. Nestes termos, o que seria a verdade? A verdade não é uma recompensa ao sujeito pelo ato de conhecimento, a verdade é que ilumina o sujeito; dar acesso à verdade é justamente uma “transformação do sujeito, não do indivíduo, mas do próprio sujeito no seu ser sujeito” (p.21). Todavia, o transcurso histórico, segundo os motivos explanados pelo filósofo, levou o entendimento da verdade na idade moderna como incapaz de salvar o sujeito: “a verdade, tal como ela é, não é capaz de salvar o sujeito.” (p.24).

Referência: 

FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. Trad. Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

Compartilhe: