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Depressão e Preconceito – desmistificando a doença

Depressão e Preconceito – desmistificando a doença

Por Ana Rosa B. M. Rocha

Durante o mês de setembro iniciou-se uma campanha nacional de prevenção ao suicídio e valorização da vida com o intuito de promover o conhecimento sobre o problema e ajudar aos outros e a si mesmo, em caso de identificação dos sintomas.

O suicídio é o ato extremo de quem não está mais suportando a própria vida, estando o nível de dor emocional muito além de suas capacidades de aguentar. Não é um ato direto contra a vida como parece para nós que tomamos conhecimento dessa tragédia, mas uma atitude de total desespero de quem quer acabar com um sofrimento desproporcional e não encontra solução.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) admite um elo entre a ideação suicida e os transtornos mentais, destacando-se o índice de 35,8% na relação dos casos de suicídio com depressão.

Pois bem, a depressão não é “doença de rico” como se escuta por aí, muito menos “falta do que fazer” como outros inadvertidamente apregoam. O máximo que se pode conseguir com um incremento das tarefas cotidianas é mascarar a depressão. E ela pode acometer qualquer pessoa, de qualquer gênero, classe social, cultural ou intelectual, em qualquer lugar do mundo. É claro que é preciso ponderar que existem aspectos que propiciam seu desenvolvimento, como:

  • Falta de objetivo na vida – ter objetivos é extremamente importante para viver os dias com motivação e entusiasmo. Os objetivos funcionam como alavancas para o movimento da vida.
  • Baixa autoestima – o autoconhecimento é imprescindível para a pessoa perceber e conceber seus potenciais, suas habilidades e seu papel no mundo, agregando valor a sua pessoa.
  • Abusos (físicos, psicológicos/emocionais) – abusos e violências sofridas de forma recorrente ou mesmo uma única e traumática vez podem desencadear uma séria descompensação emocional.
  • Conflitos – vividos na família, no ambiente de trabalho, no meio social.
  • Hereditariedade – os genes podem ser responsáveis pelo estado depressivo grave, embora não sejam os únicos determinantes.
  • Doenças graves – que gerem instabilidade emocional e medos.
  • Abuso de substâncias químicas – podem desencadear a depressão pela alteração do funcionamento cerebral.
  • Eventos traumáticos na infância – que não tenham sido trabalhados internamente.
  • Estresse – responsável pelo desgaste do organismo biopsiquicoespiritual.
  • Grandes perdas (divórcio, morte, desemprego) – esses eventos costumam deprimir de forma avassaladora os hormônios estimulantes como a serotonina, endorfina e dopamina.
  • Má qualidade do sono e/ou da alimentação – iguala-se ao estresse
  • Falta de atividade corporal e/ou intelectual – deprimem os hormônios estimulantes do bem-estar.
  • Falta de amor próprio e amor ao próximo – a carência afetiva, especialmente quando a falta de amor recai sobre si mesmo, freia o indivíduo nas suas atitudes altruístas e construtivas que promovem extremo bem-estar.
  • Inadequação no trabalho e/ou nas relações – quando a pessoa não se conhece ou tem o intuito de estar sempre agradando aos outros, incorre no risco de não viver uma vida que a satisfaça. Não se percebe nas suas capacidades, desejos, qualificações, enfim, falta-lhe boa autoestima para objetivar a vida com escolhas positivas, que lhe façam bem.

A depressão pode permear alguns desses aspectos, sendo muito comum conter a maioria deles, haja vista que uma ação que vá contra a essência do indivíduo pode abrir espaço à outra.

Os sintomas são bem perceptíveis, embora muitas pessoas descuidadamente enxergam com naturalidade a tristeza, o relaxo, o desânimo, a falta de energia, o descuido com a higiene, a irritabilidade, dores de cabeça, dores de estômago, falta de ar, apatia, medos, insegurança, insônia, esquecimento, ansiedade, angústia, isolamento social e falta de prazer ou alegria em fazer as coisas do dia-a-dia, como se fossem escolhas espontâneas da pessoa em questão.

Somos seres espirituais. Temos um corpo físico, um intelecto, mas somos fundamentalmente seres emocionais. Sentimos antes de conhecer. Sentimos antes de pensar e agir. Sentimos até mesmo antes de saber o que sentimos! Quantas vezes nos deparamos com uma sensação estranha que não conseguimos identificar! Muitas vezes essas sensações estão instaladas há muito tempo em nós como o medo, a raiva, a tristeza, mas não nos permitimos contatá-las. Vivemos numa sociedade que abomina os “maus sentimentos” como se eles não pudessem absolutamente serem sentidos. E caso alguém sinta, “por favor, esconda!” “Não demonstre!”

Ora, é claro que preferimos feições alegres, posturas otimistas, mas sabemos que nem sempre é assim. Se algo muito desagradável acontecer pode ser que emerja a cólera, o medo, a angústia, a tristeza… e podemos sim senti-los porque são reais e, sendo reais e perceptíveis podem ser sanados. Mas do contrário, se não permitirmos sentir a emoção verdadeira, como poderemos lidar com ela? E mais, ela se esconderá no nosso corpo muitas vezes sem termos a consciência de que ela está lá e, numa situação propícia ela pode vir à tona sem nenhuma contenção, de forma explosiva, causando, como um tsunami, grande estrago nas relações e na própria saúde do seu autor.

As emoções

Vamos entender um pouco mais de emoção: sua etimologia tem origem no latim: ex-movere e significa “mover-se para fora”. No entanto, no afã de se enquadrar aos modelos sociais, muitas pessoas se retraem excessivamente na expressão de suas emoções, por parecerem “feias” ou “erradas”. É muito importante que se releve que os sentimentos ruins advêm de experiências e todos os seres humanos estão sujeitos a vivências boas e ruins. É incoerente esperar que dessas experiências só resultem emoções boas.

Mas o que acontece com as emoções que reprimimos? Que não “vão para fora?” Ficam, obviamente, contraídas.

Na natureza existe uma lei indelével que informa que todo organismo vivo se expande e se contrai exatamente como ocorre com o coração. Sua pulsação ritmada e contínua nos mostra que a expansão e a contração são processos necessários para pulsar a vida. Ao se observar uma ameba, organismo unicelular, lá está ela a se expandir e se contrair ritmicamente. Podemos citar vários exemplos ainda: os pulmões dos seres vivos, o abrir e fechar das flores, o trabalho e o recolhimento, o dia e a noite, enfim, todo o processo natural pede e concatena com este pulsar. E assim somos nós. Se não pulsamos nas nossas emoções, se nos acostumamos a reprimi-las, teremos de fato um processo descompensado de contração muscular e psíquica a que o psicanalista e psicoterapeuta Wilhem Reich* denominou “couraças de caráter”. E é justamente nessa repressão que a depressão encontra espaço para se instalar.

É preciso, pois atentar para o estilo de vida que escolhemos para não incursionarmos nos moldes que depreciam o ser e abrem espaço para as sensações deletérias que acometem as suas vidas. É de suma importância estar atento aos sinais que esta doença revela e buscar ajuda. Precisamos lembrar que sempre há uma pessoa que nos ama e, mesmo que não consigamos percebê-la, ela existe. Portanto, a melhor maneira de descobri-la é dividindo a vida com aqueles em que vemos uma possibilidade de nos estender a mão. Palavras de carinho ajudam muito, mas também é preciso avaliar a seriedade da doença e buscar especialistas, quando necessário. A ABP divulgou que a taxa de suicídio é três vezes maior nos homens do que em mulheres porque eles não dão tanta importância para os sintomas e assim, buscam ajuda com menor frequência. O que pode ocorrer, nestes casos, é a acomodação do estado depressivo tornar-se o padrão de comportamento na vida do deprimido, dificultando, com o passar do tempo, as possibilidades de melhora.

É preciso, pois, urgentemente beber da fonte do conhecimento, sair do conformismo e fazer o enfrentamento necessário para afastar-se desse estado e se reencontrar com a centelha de luz e esperança que rege uma vida de fé. Parafraseando o espírito Leocádio José Correia, “sejamos, permanentemente, a fé.”

*extraído do livro A Análise do Caráter (1995)

Ana Rosa B. M. Rocha – Terapeuta Corporal (Análise Reichiana).

 

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