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DEPRESSÃO, TRISTEZA QUE LIMITA

DEPRESSÃO, TRISTEZA QUE LIMITA

Por Jaqueline Silva

Publicado na SER Espírita impressa n.11

“Agireis como bravos soldados que, ao invés de fugir do perigo, preferem as lutas em combates arriscados à paz que não lhes pode dar nem glória, nem promoções. O que importa ao soldado perder durante a ação suas armas, seus equipamentos e suas roupas, contanto que saia vencedor e com glória? O que importa a aquele que tem fé no futuro deixar no campo de batalha da vida sua fortuna e sua veste carnal, contanto que sua alma entre gloriosa no reino celeste?”
O trecho, retirado de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, nos coloca em dúvida em relação às origens de nossas tristezas e decepções. Mas, então, o que causaria nossa melancolia? Como sabermos se estamos deprimidos ou se estamos apenas passando por um momento mais difícil?
A depressão é um problema muito comum nos dias de hoje. Um dos grandes desafios para a maioria das pessoas é saber diferenciá-la da melancolia. “Existem fatores que fazem com que a pessoa em questão fique melancólica, e não depressiva”, afirma a psicóloga clínica Izabel Valente. E se entende por esses fatores pontos considerados superficiais que não agregam para o lado espiritual apenas, mas também para o físico, como, por exemplo, o consumismo, a pressão e o imediatismo. Ou seja, os dias de hoje são extremamente propícios à depressão.
Porém, não se pode generalizar. Existem vários casos de pessoas em estado depressivo. Aliás, este é um dos pontos que Izabel enfatiza. Por isso, não é recomendável que o indivíduo se aproprie da doença dizendo “sou depressivo”, mas sim, falando que “está com depressão”, pois trata-se de um momento de transição e que, com certeza, será sucedido por dias melhores. “Sempre podemos melhorar”, afirma a especialista. Segundo ela, o paciente está passando por uma fase, não é algo permanente. Essa constatação lembra a citação do espírito Leocádio José Correia, manifestado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz: “tudo na vida passa”, até mesmo as fases boas. Ele complementa afirmando que a “única certeza de que temos é a da mudança”.
Saber reconhecer a enfermidade, portanto, é o ponto-chave. Para a psicóloga, o que dificulta esse reconhecimento é o fato de que as pessoas estão adquirindo a síndrome do “super–homem” e não admitem limitações, muito menos falhas. Entretanto, isso é um erro. As consequências desse tipo de comportamento são variadas como, por exemplo, o senso de “juventude eterna” – aquelas pessoas que não admitem (ou não aceitam) a idade que têm -; a preocupação excessiva com a estética; a internet que dispõe de inúmeras informações e conteúdos não coerentes; os relacionamentos superficiais; entre outras. Os jovens, para ela, estão propensos à depressão por conta dos relacionamentos. “Eles não sabem se relacionar. É tudo muito rápido. As pessoas já pensam que, na união com o companheiro, se caso não der certo, podem se separar. Elas não sabem mais conviver com o parceiro”, enfatiza. Ou seja, os comportamentos baseiam-se na competição e não geram o pensamento de que cada ser possui um significado especial.
Aliás, o tempo encaixa-se completamente neste contexto: não aproveitamos cada minuto do dia. Como a pressão e o imediatismo são frequentes e habituais, tornam-se padrão fora do ambiente de trabalho e estendem-se às atitudes pessoais. A falta da noção de “família”, como argumenta a psicóloga, gera uma crise nos valores morais e, em decorrência disso, ocorre um suprimento da identidade do ser, do seu autoconhecimento. “Quando você determina do que gosta ou não, o que quer, possui opção de escolha; isso já é o início d
o processo de auto conhecer-se”, diz Izabel.

DEPRESSÃO É DOENÇA?
Segundo a psicóloga clínica Izabel Valente, a depressão pode ser uma enfermidade. Ela explica que, para que o tratamento se torne mais eficaz, é preciso trabalhar em conjunto. No caso do paciente necessitar de medicamentos, não há o porquê de evitá-los, entretanto, o acompanhamento psicológico também se torna fundamental no processo. Já, na opinião do médico Ruddy Facci, as questões bioquímicas, cognitivas e até mesmo espirituais
integram a conjuntura da depressão. “Há interfaces com o livre-arbítrio”, diz ele.
Conforme Facci, cada um desses fatores contribui para o desenvolvimento da doença. Os fatores neurofisiológicos se referem ao funcionamento cerebral (conexões neuronais e sinapses) e estão interligados com os fatores bioquímicos, que tratam da escassez de substâncias químicas que dificultam as conexões (neurotransmissores), retardando o funcionamento do cérebro.
Segundo Izabel, essa primeira fase é considerada endógena, e está relacionada diretamente com o organismo, ou seja, na falha de substâncias químicas deste. Portanto, a pessoa já teria uma propensão para o estado depressivo organicamente. As etapas espirituais e cognitivas em que “atingem o comportamento pessoal”, como Facci menciona, são, na visão de Izabel, o estado exógeno, no qual o cidadão não tem uma tendência para adquirir a depressão, mas, por algum fator que ocorreu durante anos, acabou desencadeando-a. Por exemplo, um estupro, uma violência verbal ou até mesmo um desencarne de uma pessoa querida. É nessa fase que o paciente cria uma barreira entre ele e o mundo, isolando-se socialmente. “A depressão é egoísta. Ela afasta as pessoas”, afirma Izabel.

É POSSÍVEL EVITAR
Que atitudes devemos tomar para tentar reverter a situação ou mesmo evitá-la? Autoconhecimento é uma delas. A psicóloga afirma que hábitos comuns do dia a dia podem ajudar na prevenção. “É preciso amar a si mesmo, manter pensamentos positivos. Parar para estabelecer metas. O ser humano precisa de objetivos e não há nada de errado em dar um tempo para estabelecê-los”.
Aliás, saber o que e como falar com as outras pessoas também auxilia no exercício de conhecer a si mesmo. Conforme a psicóloga, as pessoas perderam o sentido de “pedir ajuda”. Com a síndrome do “super-homem”, do “faz tudo”, elas esqueceram que ao serem auxiliadas por terceiros não estarão atuando melhor ou pior, mas necessitam desse auxílio, já que são seres humanos passíveis de erros e mudanças.
Tanto Facci quanto Izabel concordam que o quesito exercício físico é fundamental na prevenção da depressão. E o médico ainda afirma que alguns alimentos também podem ser eficazes. Ômega 3, verduras e frutas ajudam a manter o bom funcionamento do intestino. 95% da serotonina, segundo Facci, é produzida neste órgão. Ela é a precursora da melatonina, substância que auxilia no equilíbrio, no combate ao estresse, no sistema imunológico e também na produção de outras substâncias necessárias ao corpo humano. O médico afirma ainda que o autoconhecimento é uma peça fundamental para a prática do bem-estar, e “o trabalho (como atividade cotidiana), a fé racional, o equilíbrio corpo-mente-espírito) são fatores preventivos da depressão”, afirma. Izabel acrescenta que a prece é outra forma de manter
pensamentos positivos, pois é este o momento de “ligação com o Creador”, diz ela.
O estado depressivo pode ser entendido como a consequência de fatores combinados, portanto, um efeito decorrente de causas. Mas sendo o espírito, portanto cada um de nós, um ser livre, temos todas as condições de atuar nas causas e mudar o efeito, superando assim os desafios inerentes ao processo evolutivo. O autoconhecimento, o atendimento especializado, o relacionamento fraterno são instrumentos importantes, tanto para quem é auxiliado quanto para quem auxilia, em um dos mais importantes desafios de nossa existência, conforme podemos deduzir da mensagem do espírito Leocádio José Correia, em mensagem psicografada pelo médium Maury Rodrigues da Cruz: “a maior vitória que uma pessoa pode ter é vencer a si
própria”.

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