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Desencarnes Coletivos

Desencarnes Coletivos

Um dos princípios da Doutrina dos Espíritos é Deus, “causa primária de todas as coisas, absolutamente justo e bom”. Se Deus é a causa primária e é justo, então há justiça em tudo. Entretanto deve-se avaliar e entender que um fato justo nem sempre corresponderá às nossas expectativas. Justiça significa um efeito correspondente às causas que lhe deram origem, e muitas vezes os efeitos que veremos em nossas vidas e em nossa sociedade serão diferentes do que esperávamos obter. Esse é um referencial importante para a análise lógica dos fatos, principalmente quando estes fatos dizem respeito à manutenção da vida e às nossas relações de afetividade.

Quando entramos em um avião para uma viagem a passeio ou de negócios o fazemos com a expectativa de chegarmos com segurança ao nosso destino. Porém há inúmeros fatores que determinarão que uma viagem aérea ocorra sem acidentes. Nós, as pessoas, podemos agir para que muitos desses fatores estejam dentro das condições para que tudo corra conforme previsto, ou, sem acidentes. Por exemplo: podemos projetar aeronaves seguras, podemos projetar aeroportos seguros, podemos desenvolver sistemas de análise meteorológica para que os voos sejam mais seguros, podemos estabelecer padrões culturais que permitam às organizações que operam as aeronaves e os aeroportos o façam com maior segurança, e assim por diante. Ainda no campo da análise de desencarnes coletivos, em acidentes aéreos sempre encontramos causas humanas: manutenção preventiva não realizada, decisões equivocadas, a exemplo da liberação do pouso em Congonhas do avião que chegava de Porto Alegre em um dia de chuva, sistemas de controle e treinamento nem sempre adequados. Se a manutenção tivesse sido feita, se o pouso não tivesse sido autorizado, se houvéssemos investido mais em sistemas de treinamento, se houvesse menor pressão por resultados financeiros, permitindo condições operacionais mais seguras, muitos acidentes não teriam ocorrido. Somos nós, espíritos no momento encarnados na Terra, que determinamos o que acontecerá no curto, médio e longo prazos.

Após o Tsunami de 2004 diferentes países adotaram medidas de proteção mais eficientes contra este tipo de evento. Com isso, quando voltar a ocorrer, o risco de desencarne será menor. Mas, se essas medidas adicionais não fossem tomadas, milhares de pessoas continuariam sob o risco de desencarnar ao serem surpreendidas por uma ação da natureza, e sendo da natureza é natural, justa, possível de acontecer. Portanto cabe a nós, sociedade organizada, espíritos encarnados, usarmos o conhecimento e a ciência para melhorarmos as condições de habitação na Terra.

Décadas atrás os terremotos vitimavam milhares de pessoas. Com o passar do tempo as pessoas passaram a pesquisar o fenômeno natural, e ao entendê-lo desenvolveram tecnologia para prever e reduzir danos materiais e o risco à vida. Hoje temos, com base no uso da análise crítica, do conhecimento, da ciência e da ação humana, sistemas que conseguem alertar sobre terremotos, assim como tecnologia em constante desenvolvimento para a construção civil.

O incêndio ocorrido na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul alerta para uma situação cada vez mais comum em um planeta com população em crescimento: aglomeração de pessoas. Isso ocorre, por exemplo, em casas religiosas, casas de eventos, em estádios, em feiras, em pavilhões de exposição, em aeroportos, em rodoviárias, em escolas. O processo de aprendizado nos leva a não querer viver uma situação de dor mais de uma vez. Assim, diante do que ocorreu algumas perguntas se apresentam: a legislação vigente está adequada? Ela cobre todas as situações, riscos e demandas no que diz respeito a locais que podem ser acessados por grande número de pessoas? As estruturas responsáveis por sua aplicação estão adequadas? Possuem equipes suficientes e adequadamente treinadas? Há um planejamento de adequação desses espaços, tendo em vista sua importância na rotina social e econômica do país? Há linhas de financiamento e suporte aos empreendedores que precisarão se adequar? Essas questões precisam de respostas, e as respostas devem levar às ações. Sem essas ações o risco de novas tragédias continua o mesmo.

Portanto é temerário nos apegarmos a explicações com fundamento religioso que retiram da sociedade a responsabilidade sobre o que ocorreu em Santa Maria, assim como em Congonhas em 2007 e em outros casos. Explicações que podem desviar das pessoas a atenção sobre sua responsabilidade quanto à prevenção e melhoria contínua das condições sociais e culturais. Para a Doutrina Espírita não há destino. O que há é justiça, o que significa viver os resultados de suas escolhas. E no caso da boate em Santa Maria, o que ocorreu é resultado da escolha média de nossa sociedade em aceitar que as ações que dizem respeito à preservação da vida sejam tratadas com baixa prioridade. Na média ainda aceitamos leis inadequadas, ainda aceitamos lentidão na legislação, ainda aceitamos que as leis existentes não sejam aplicadas, ainda não atuamos como fiscais. Se deixarmos de incentivar práticas inadequadas elas deixarão de existir, e esta certamente será uma valorosa contribuição para a vida nessa nossa passagem pela Terra.

Nelson José Wedderhoff

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Sobre o Autor

Nelson José Wedderhoff

Nelson José WedderhoffEngenheiro Eletrônico; Professor Acadêmico na Faculdade Doutor Leocádio José Correia (FALEC); Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas; e Conselheiro Editorial da revista SER Espírita.

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