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Diferentes caminhos para o cume da montanha

Ao longo da história da humanidade, vimos – e lamentavelmente ainda vemos – as mais diversas atrocidades sendo cometidas em nome desta ou daquela religião. Em vários momentos distintos, verdadeiros genocídios chegaram a ser praticados contra determinadas populações, tendo como pano de fundo a intolerância religiosa. Absolutamente todas essas demonstrações de intransigência, seja em nome de qual religião for, são dignas de repulsa e decorrem de uma visão caolha e completamente equivocada dos fundamentos das religiões.

A tradição hinduísta, que preconiza a tolerância e o convívio pacífico e harmônico entre as mais diversas tradições religiosas, nos traz uma alegoria bastante interessante e que merece ser analisada: a de que as mais diversas religiões nada mais são do que caminhos alternativos para que possamos todos – em algum momento – atingir uma mesma meta. Tal comparação é, aliás, compartilhada por boa parte dos estudiosos das religiões sendo recorrente em várias explanações.

Segundo tal visão, a vida (aqui analisada em seu sentido mais amplo) poderia ser compreendida como o escalar de uma montanha, no qual a cada indivíduo é dado escolher uma determinada trilha, dentre as várias já delineadas pelos que nos antecederam. Em cada lado da montanha, há uma trilha segura e já bem demarcada que corresponderia às principais religiões existentes na Terra. Aos que preferirem, é dado inclusive abrir picadas e desbravar novos caminhos, conquanto tal tarefa seja muito mais árdua, além de possivelmente não os levar assim tão longe. Ao longo do caminho, muitas trilhas se bifurcam, dando origem a novos trajetos que seguem paralelos. Outras se encerram antes do topo – o que obrigaria os viajantes a retornarem e reiniciarem suas jornadas dessa vez optando por um trajeto distinto.

Uma coisa é certa: quanto mais próximo do topo, mais as trilhas convergem, já que o cume da montanha é um só (dada a estrutura cônica da montanha) assim como a verdade também é una. Quanto mais próximos da base, as diferenças entre as trilhas parecem mais gritantes, já que distintos são os momentos históricos, culturas, geografias e costumes dos povos que iniciaram cada uma dessas tradições.

Contudo, se abstrairmos os fatores externos, as formas de cada uma dessas religiões, veremos que na essência a mensagem e os valores trazidos por todas elas são incrivelmente similares, senão idênticos.

Ora, será que é assim tão difícil percebermos que as diferenças aparentemente intransponíveis que existem entre as religiões decorrem muito mais de fatores culturais e históricos – ou mesmo de deturpações havidas ao longo da história de cada uma delas – do que de incongruências existentes em seu cerne? Será possível que algumas tradições absolutamente anacrônicas possam prevalecer sobre a mensagem moralizadora e dignificante trazida no âmago de cada religião? Afinal, o que vale mais: a forma ou a essência?

Aos estudiosos do espiritismo é necessário perceber que não temos (nem nós e nem ninguém) – de forma alguma – o monopólio das virtudes e da verdade. Não devemos, pois, de forma alguma, descurar de ao menos tentar conhecer um pouco dos fundamentos e da história de cada uma das demais religiões, já que em cada uma delas está contido o germe das grandes verdades trabalhadas de forma distinta em cada época.

Se a visão que hoje somos capazes de alcançar nos leva um pouco mais longe e nos permite refutar dogmas, ritos, a visão do sacro, do mágico e do místico para buscarmos o fundamento moral de nossa existência, isso é absolutamente natural, já que, segundo a lei do progresso, tivemos que – enquanto humanidade – passar pelos estágios que nos antecederam para podermos alcançar a atual percepção da realidade. Contudo, isso não nos impede de buscar juntar e compreender aquilo que de bom também foi trabalhado em outras épocas e culturas.

A partir do momento em que formos capazes de perceber esses fundamentos comuns a todas as religiões, assim como o fato de que todas elas – cada uma a seu tempo – tendem a um mesmo fim, certamente veremos fortalecida a nossa própria fé, já que perceberemos de forma ainda mais intensa a harmonia Cósmica e a existência dessa lei moral comum, a lei de Deus.

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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