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Do lado esquerdo do peito

Do lado esquerdo do peito

Relacionamentos duradouros de amizade são exemplos de respeito e compreensão com o próximo e muito importantes para uma permanência saudável na Terra

Por Leticia Iambasso – Publicado na SER Espírita impressa n. 22

 

“A amizade é um amor que nunca morre”, escreveu o poeta Mário Quintana. É na amizade que as principais relações humanas criam laços afetivos e quebram com as sensações de abandono e desamparo. A amizade pode ser sentida por alguém que, mesmo longe, tem sincera estima e apreço por outra pessoa sem pedir nada em troca. “A amizade pressupõe cumplicidade, ou seja, estar com o outro, reconhecendo e aceitando as diferenças”, diz o psicoterapeuta e professor da Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo, Breno Rosostolato.
De acordo com o professor, a necessidade e, principalmente, a importância de ter amigos é essencial para nos espelharmos e nos refletirmos em alguém, criando, assim, uma identidade emocional e auxiliando no processo de autoconhecimento. “Criamos amigos porque não sabemos viver sozinhos e precisamos de pessoas que nos autorizem a sermos nós mesmos”, observa.

Por que ter amigos?
O psicanalista João Rafael Torres aborda outra questão do ponto de vista da amizade: a depressão em decorrência da solidão. Segundo ele, a depressão é uma das formas de adoecimento que pode provir de uma baixa capacidade relacional e de uma ausência ou debilidade de sentidos existenciais. “As relações são um dos principais veículos para atribuirmos sentido à nossa existência. O isolamento deixa a vida mais triste. E hoje é consenso médico que o mal-estar psíquico é a fonte geradora e mantenedora dos males do corpo”, explica.
Um dos maiores benefícios da amizade é, sem sombra de dúvida, o auxílio e o compartilhamento dos problemas e da dor do outro. O alívio de um abraço, de uma palavra amiga ou de um simples silêncio compreensivo e acolhedor faz uma diferença enorme para quem precisa. “Nos momentos de luto, por exemplo, percebemos que os verdadeiros amigos não se importam com longos discursos sobre o desencarnado. Mas simplesmente acompanham os enlutados, com disponibilidade”, exemplifica Torres.
Para ele, o mesmo vale para outras ‘mortes’ experimentadas ao longo da existência – que na verdade são desafios: o fim de um casamento, a decepção diante de um filho ou crises financeiras. “A amizade não corresponde diretamente à capacidade de nos aliviar o sofrimento, nem de sofrer junto e na mesma medida, e sim na disposição para acompanhar de perto a dor do outro”, revela.
Com o advento das novas tecnologias e novos meios de comunicação, o relacionamento virtual por meio das redes sociais cresceu. Os psicólogos concordam que o canal é uma boa oportunidade para estreitar as amizades e uma forma de fazer novos amigos. Mas as relações virtuais não propiciam toda a capacidade de interação e troca como nas relações vivenciadas presencialmente. “A impessoalidade das amizades virtuais pode servir para encobrir as vulnerabilidades, o que, em vez de gerar admiração, desperta um desconforto: precisamos reconhecer no outro o seu quê de ‘humanidade’, que inclui falhas, deficiências, idiossincrasias”, conclui Torres.

Ir além
As mudanças de comportamento e a luta contra o desconhecido geram medo e instabilidade. Mesmo quando é utilizado para defesa, o afastamento do convívio social não é recomendado para nenhuma pessoa, pois ela pode ficar sem referências e empobrecida emocionalmente, dando passagem e lugar a sentimentos como o rancor, a raiva e o ódio. Apesar de todos os benefícios que provêm dos relacionamentos sociais e amigáveis, existem pessoas que preferem se isolar do mundo e de todos. Rosostolato acredita que o isolamento é uma escolha da pessoa, porque o sofrimento é inerente a isso e, a dor, inevitável. “Prolongar o estado de dor é escolha de cada um. Existem pessoas que se acostumam com a dor, com o sofrimento, e permanecem na mesma posição, no mesmo lugar. Porque mudar, lutar contra a dor e fazer diferente pressupõe transformações e mudanças, no que tange ao comportamento, opiniões, conceitos e posturas”, explica.
A Doutrina Espírita convida sempre a expandir o amor para além do círculo íntimo de familiares e amigos próximos. Ela nos lembra de que podemos transformar o inimigo de hoje em amigo. “Por ser derivada do amor, a amizade é o laço que se estende da existência na matéria à vida na dimensão espiritual e vice-versa”, define o coordenador e editor do Grupo Espírita Paz e Bem, de Fortaleza, Jânio Alcântara. Ele relembra também que nossa vida é eterna e, por isso, os laços de amizade sinceros nunca irão se desfazer. “Um dia reencontraremos aqueles de quem fomos amigos, conforme o grau de afinidade e a sintonia vibratória”.
Ele acrescenta: “Ainda encarnados, os amigos podem se visitar durante o sono físico, em estado de desdobramento. Ainda durante o sonho, os amigos desencarnados podem se reencontrar com aqueles que continuam encarnados”. Ou seja, os verdadeiros amigos, inconscientemente ou não, desencarnados ou encarnados, possuem formas de comunicação entre si que nunca se perderão.

Amizade eterna
Uma amizade que nasceu no calor da Doutrina Espírita há 25 anos. Jânio conheceu Tom Trajano quando este era um dos coordenadores no Centro Espírita João, o Evangelista, em Fortaleza. Foi por causa da recepção fraternal que recebeu do amigo na primeira ida a um centro espírita que ele permanece até hoje nas fileiras espíritas.
“Como Tom era um dos coordenadores do grupo e eu estava ávido para conhecer a Doutrina Espírita, rapidamente me transformei em um trabalhador nas reuniões públicas e nas atividades de assistência social. Isso fez com que convivêssemos muito próximos, transformando Tom de um atendente fraterno, que me ouvia e aconselhava, em um amigo”, conta. Para Jânio, a amizade deles é duradoura, pois, além de compartilharem os mesmos objetivos nos estudos espíritas, possuem semelhanças que só verdadeiros amigos conseguem distinguir um no outro. “Fundamos juntos o Grupo Espírita Paz e Bem há 11 anos. Nossa missão é divulgar os valores da Doutrina e incentivar o despertar do ser humano para o autoconhecimento e a autotransformação, auxiliando na evolução do planeta.”
Outra amizade que perdura no tempo há 30 anos é a relação entre a locutora Valdene Moraes e a gestora de conteúdo Solange Serrano. Elas se conhecem desde a adolescência quando frequentavam festas, organizavam teatros e viagens. Mas, mesmo após passarem por casamentos e filhos, a amizade prevaleceu. “Acredito que o motivo principal de mantermos a amizade até hoje é o afeto que sentimos uma pela outra. Podemos ficar distantes o tempo que for, mas o sentimento nunca muda”, explica Solange. Já Valdene acredita na afinidade e no respeito para manter uma amizade duradoura. “Se não houver essas qualidades entre o relacionamento de amigos, a amizade não segue adiante”.
Para elas, a amizade deve ser cultivada todos os dias, pois valores como a respeitabilidade e a confiança acrescentam no crescimento e no desenvolvimento de cada ser humano. “Não ficamos muito tempo sem nos encontrar, mas, se isso acontecer, certamente o valor da amizade em nada será afetado”,complementa Solange.
Quando a recíproca é verdadeira, certamente a amizade também é. Entretanto, devemos estar atentos para não exigir dos amigos algo além do que eles estão disponíveis a oferecer. “Amizades não existem para obedecer a um ‘ranking’ ou a um tratado de intenções fixo. A compreensão no que tange às limitações dos outros é um sinal de amor verdadeiro, de aceitação. E é só assim também que conseguimos ser aceitos em nossas imperfeições”, orienta João Torres.

 

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