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Ensinar e aprender – essa é a questão!

Ensinar e aprender – essa é a questão!

A família biológica tem papel fundamental para a evolução moral do espírito. É na convivência com o núcleo familiar que encontramos as maiores e mais importantes oportunidades de aprendizado e ensinamento

Por Anna Paula Michels – publicado na edição 26 da revista SER Espírita impressa

A palavra ‘família’ apresenta o conceito de ‘conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos’. E, ainda, ‘grupo de pessoas unidas por convicções, interesses ou origem comuns’, ambas definições do Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. Dentro da Doutrina Espírita, além da ideia de família biológica – com quem nos relacionaremos enquanto espíritos encarnados –, há o conceito de família espiritual, com quem mantemos laços de afinidade eternos e podemos ou não encontrar após o desencarne.

Sendo biológico ou espiritual, o núcleo familiar com o qual nos relacionamos tem papel fundamental em um dos principais objetivos da existência do espírito: a sua evolução, o seu progresso moral dentro daquilo que chamamos eternidade.

De acordo com O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, é justamente para alcançar este objetivo que nos foi dada a possibilidade da reencarnação. E, antes de cada reencarne, além do projeto de vida que cada espírito se propõe desenvolver, é selecionado um núcleo familiar para o espírito fazer aprendizado.

O espírito Leocádio José Correia, um dos orientadores da SER Espírita, por meio do médium Maury Rodrigues da Cruz, ressalta exatamente a ideia de que no ambiente familiar poderemos nos deparar com os maiores obstáculos e aprendizados. “É no templo doméstico que aprenderemos a viver com o grande mundo social.” Não é à toa que, em toda a humanidade, é comum encontrar famílias onde predomina a harmonia e outras nas quais alguns integrantes enfrentam dificuldades de relacionamento.

Seguindo este raciocínio, perguntas como ‘para que serve a família biológica?’, ‘qual a importância da convivência familiar para a evolução do espírito?’, ‘como podem ser explicadas as diferenças e as afinidades entre pais e filhos’, ‘como é definida a composição dos núcleos familiares’ etc. passam a fazer parte das reflexões do homem.

Função da família
Para a terapeuta relacional sistêmica e cognitiva comportamental, Mara Cristina Moro Daldin, espírita há 38 anos, com estas reflexões torna-se possível fazer ‘um novo olhar’ sobre a família biológica e analisar a sua verdadeira função. “As funções da família são determinantes na manutenção da civilidade. É a família consanguínea que dá ao homem a oportunidade de exercitar o aprendizado do amor ao próximo como a si mesmo, lei principal que regula as relações espirituais superiores”, opina.

Segundo ela, é fundamental compreender a importância da família biológica, mas sempre se lembrando da família espiritual, já que ambas exercem grande papel no progresso evolutivo da humanidade. “Qualquer pessoa que convive conosco faz parte de nossa família biológica. Temos uma família de sangue, uma no trabalho, na escola, no centro religioso. Temos um pai, uma mãe e somos todos irmãos. Por isso, podemos trocar sentimentos uns com os outros. Ela explica ainda que no polissistema espiritual todos são parentes. “Porque estamos todos ligados ao único Pai, que é Deus”, comenta.

Para a pedagoga Maria Sueli Knopak, espírita desde 1970 e coordenadora do Curso de Pedagogia da Faculdade Doutor Leocádio José Correia (FALEC), uma das principais funções da família é a oportunidade de fazer exercício do amor. “Sabe-se que uma das maiores leis do Cristianismo é ‘ame o próximo como a ti mesmo’. Sendo assim, ainda estamos engatinhando para essa conquista maior, que por certo trará maior felicidade e plenitude na compreensão da vida. Ainda temos dificuldade de ver no outro a extensão do nosso ser, de sentir no outro a presença de Deus. É, portanto, na família que aprendemos a amar”, ressalta.

Outra função da família biológica destacada por Sueli é a prática do perdão, atitude tão essencial para se alcançar o respeito, a caridade e a igualdade. Partindo da hipótese que cada um dá apenas aquilo que tem construído ao longo da sua jornada evolutiva, não se pode exigir unanimidade. É necessário alongar o olhar, pensar criticamente sobre aquele ser que não está dando conta da sua tarefa, e olhar para dentro de nós mesmos numa análise efetiva, percebendo nossas fraquezas, nossos defeitos que também ainda não conseguimos transpor”.

A terapeuta Mara Cristina também percebe a convivência entre familiares como uma excelente chance de se aprender a respeitar e amar o próximo, com humildade e sem distinções. “A família é um laboratório de experiências, onde a felicidade e a dor se alternam, possibilitando decepções, frustrações, crescimento e aprendizados. É no ambiente familiar que aprendemos sobre o respeito, através dos nossos pais, principalmente no maior modo de aprendizado: o exemplo.

Relações conflituosas
Em toda a humanidade, é comum encontrar grupos familiares onde predomina a harmonia ou haja situações conflitantes com frequência. De acordo com a Doutrina Espírita, essa instabilidade de relações é explicada pela individualidade de cada espírito. Ou seja, os espíritos são diferentes em relação àquilo que já superaram e aprenderam – cada um à sua maneira e ao seu tempo. Na opinião de Maria Sueli é exatamente com estas diferenças, nesta diversidade, que acontece o progresso moral do espírito. “Encarnamos numa frequência a qual pertencemos; penso que estamos exatamente no lugar que deveríamos estar. Se a situação familiar é difícil, é exatamente nestes desafios que precisamos fazer a superação. E acrescenta: “Se a família é hiposuficiente culturalmente, ou se vive na miséria, o espírito precisa de muito mais esforços para transformar a sua realidade. Mas talvez tenha vindo para exercitar a humildade por ser excessivamente orgulhoso”, opina.

Para a terapeuta Mara Cristina, em qualquer situação de desentendimento por desigualdades ou pontos de vista diferentes, é necessário ter equilíbrio e respeito ao próximo – esforçando-se para aceitar a opinião do outro e fazer autorreflexão sobre nosso comportamento e nossas atitudes.

Composição familiar
Mas como entender a composição de uma família material? Segundo conceitos trazidos pelo Espiritismo, essa ‘seleção’ está proporcionalmente relacionada ao grau evolutivo do espírito e pode se basear no projeto de vida definido por ele. Projeto este que contém situações e oportunidades de aprendizado sobre aquilo que o espírito ainda não alcançou. “Faz-se necessário viver com qualidade, desfrutar da melhor maneira possível todos os momentos com os familiares, sejam eles bons ou ruins, para que numa próxima encarnação possamos ampliar nossas relações, aprendendo a conhecer, aprendendo a conviver com o diferente, aprendendo a amar mais, aprendendo a ser”, relembra a professora Maria Sueli.

Para ela, não seria tão proveitoso se as encarnações acontecessem na mesma família mais de uma vez, por exemplo. “Seria improdutivo para o aprendizado, pois estaríamos revendo situações, pensamentos, organizações muito semelhantes e não estaríamos difundindo o sentimento do amor, não estaríamos conhecendo e ampliando novas culturas familiares”, defende.

Sobre a importância do esquecimento pelo espírito de experiências anteriores em cada encarnação, Maria Sueli lembra que o conhecimento adquirido e acumulado não se perde, mas deve ficar ‘adormecido’ para ser utilizado e relembrado apenas quando necessário. “Nada se perde, nosso conhecimento, nossas experiências acabam se revelando mesmo que de forma tênue nas reminiscências da vida. Mas acredita-se ser impossível no nosso estágio evolutivo aprender, conviver, perdoar e amar alguém que conhecêssemos na íntegra em sua trajetória de vida. Da mesma forma, seria difícil sermos aceitos e amados desde a tenra infância com um currículo aberto demonstrando toda nossa vida pregressa”.

Opinião compartilhada pela terapeuta Mara Cristina, que reforça uma das funções da reencarnação: aperfeiçoar o que falta ao espírito rumo à sua evolução. “O esquecimento possibilita que a cada reencarnação possamos nos construir diferentes, estruturar um novo caminho em busca da evolução. Com isto, podemos iniciar uma vida pautada em novas crenças e valores, otimizando pensamentos, sentimentos e ações. O homem vive e revive diariamente sua convicção de crescimento e amadurecimento. E, por meio do seu livre-arbítrio, realiza suas mudanças”.

Para exemplificar seu pensamento, a terapeuta cita uma das frases de Allan Kardec: “Nascer, crescer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei.”

 

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