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Ensino religioso nas escolas públicas: problema ou oportunidade?

Ensino religioso nas escolas públicas: problema ou oportunidade?

Até quando nossas escolas irão se concentrar na produção e apresentação de soluções técnicas, sem capacitar os futuros profissionais a avaliar se são éticas?

Veiculado na Gazeta do Povo neste domingo | Paulo Henrique Wedderhoff

Em setembro, o Supremo Tribunal Federal deliberou que o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras pode ter natureza confessional, ou seja, vinculado às diversas religiões e igrejas. O debate incluía desde alertas sobre o risco de proselitismo – o esforço para convencer pessoas que uma determinada religião é a melhor que existe – até propostas que, para defender um Estado laico, reduziam as atividades escolares a assuntos técnicos. Mas, considerando que a decisão já foi tomada, que as religiões compõem parte do acervo moral da humanidade e que vivemos uma grave crise ética e moral, o ensino religioso pode ser útil para ajudar os jovens a repensar seu projeto de vida.

Além da abordagem confessional (que trata de uma religião em particular), há espaço para um ensino religioso não confessional. Para entender o assunto com clareza é interessante rever os conceitos de religiosidade, religião, igreja e escola. Religiosidade é a sensibilidade em relação à importância da vida, que todas as pessoas têm em maior ou menor grau, e que já se encontra, por exemplo, nas crianças, através de demonstrações de respeito ao outro, à natureza e aos animais. Religião é o conjunto de respostas que um grupo cultural desenvolve ao longo da sua história para responder questões complexas como a origem do existente, da vida, o destino do ser consciente, da alma ou espírito; bem como o sentido da vida, da dor e da morte, e a ação moral correspondente a tais entendimentos. Igreja é uma estrutura organizada para preservar e difundir uma entre as várias interpretações religiosas existentes. E escola é o local para o encontro do conhecimento em sentido amplo. É um laboratório, promovendo a capacitação do indivíduo para uma vida consciente, produtiva e harmoniosa em sociedade.

Muitos pais defendem que a educação moral e religiosa deve vir do lar e que a escola deve se ater à instrução científica. No entanto, embora a família deva ser a referência principal, a escola desempenha importante papel nessas questões – desde que não atue para catequizar ou impor uma doutrina em particular. Também se deve considerar que parte da sociedade já teve acesso ao ensino religioso confessional, podendo-se argumentar que tal esforço não gerou maior resultado ao se avaliar seus efeitos no comportamento ético de maneira geral.

O que se poderia fazer para melhorar a eficiência do ensino moral? As eventuais falhas estariam na qualidade das perguntas, na qualidade das respostas ou em ambas? Será que já não passa da hora de nossas escolas capacitarem os jovens para a construção do conhecimento que sustenta o comportamento ético, que dá valor à vida, e onde a desonra por sua falta seja um fardo inaceitável? Até quando nossas escolas irão se concentrar na produção e apresentação de soluções técnicas, sem capacitar os futuros profissionais a avaliar se são éticas?

Mais que discutir as particularidades de religiões e igrejas, é possível, no espaço da escola, avaliar com os alunos questões religiosas e morais básicas, que todas as religiões procuram responder. O pensamento religioso é um dos elementos decisivos para sustentar as ações éticas, é parte da cultura e do pensamento humano, e essencial para se viver bem. Cabe à sociedade insistir que o currículo escolar desenvolva instrumentos para fazer uma espécie de “vacinação moral”, promovendo a religiosidade natural sem proselitismo religioso.

Um caminho poderia ser o de ensinar a evolução do pensamento religioso, discutir as grandes questões religiosas, e apresentar os princípios que fundamentam as principais religiões, deixando a cada aluno a escolha do sistema de ideias que lhe pareça mais coerente. Outro caminho complementar é promover o autoconhecimento, fundamental para ajudar o jovem a construir uma resposta coerente, desenvolvendo o conjunto de princípios que irão sustentar seu projeto de vida. Cada pessoa deve decidir como quer viver, fazendo as escolhas em função de valores. E o pensamento religioso é uma referência rica para essas decisões pessoais.

O estímulo à religiosidade natural e a preocupação com o próprio bem-estar futuro, com base na ligação entre causas e efeitos, podem ser alavancas naturais úteis na construção de um futuro melhor para o país e o mundo.

Há inúmeras questões religiosas que podem ser abordadas durante as aulas, com método adequado para adaptações às faixas etárias e condições de cada aluno. Qual é o sentido e o significado da vida? O que é amizade, amor, caridade, fraternidade? Como entender a vida e a morte? O que é alegria, esperança e felicidade? Qual a diferença entre perdão e esquecimento? Qual a importância do respeito à pessoa, da tolerância às diferenças e aceitação da diversidade? Como entender liberdade, responsabilidade, dever e escolhas? Qual a importância do trabalho e da honestidade? Por que algo é certo ou errado? O que é desprendimento, renúncia pessoal, responsabilidade social? Qual a força da não violência, da não agressão e da paz? Como evoluir da competição para a cooperação?

O primeiro passo, portanto, deve ser capacitar os agentes da mudança – os professores –, ajudando-os a compreender que religiosidade é a religião natural que todo ser traz ao nascer e que, se estimulada, é fonte de comportamento ético e cidadania consciente.

Paulo Henrique Wedderhoff, empresário e ensaísta, é conselheiro do Instituto Democracia e Liberdade (IDL).

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