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Entrevista com André Trigueiro

Entrevista com André Trigueiro

Por Vilma Kuckel

Reportagem publicada na edição impressa da SER Espírita n.28

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O jornalista André Trigueiro é carioca e tem  46 anos. É pós-graduado em Gestão Ambiental,  professor, escritor e palestrante. Deslumbrado com a vida, como se autodefine, considera um privilégio viver no Rio de Janeiro. Como ele mesmo diz, “uma cidade tão complexa! Com o que há de melhor e de pior no mesmo recorte geográfico, no mesmo perímetro urbano”. Editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News, Trigueiro é referência quando se trata de questões ambientais.  “O planeta Terra está no vermelho”, diz ele, fruto do consumismo acelerado que leva à exaustão dos recursos. Em seus programas e palestras, o jornalista chama a atenção: “Não existe eu e a natureza, pois somos uma coisa só. Estamos todos misturados na teia da vida. Cada pequena reação reverte no todo”. André Trigueiro é assim, simpático, alegre e consciente de seu papel no mundo.

SER Espírita – Quando se fala em emoções, quais as primeiras lembranças que chegam a sua mente?
ANDRÉ TRIGUEIRO – São muitas. Uma das lembranças boas é a do lançamento do meu primeiro livro, em 2003. Ao vê-lo pronto, fiquei rapidamente muito tocado. Uma emoção triste foi a morte de meu pai, em 1987, em um acidente de trânsito. Pela primeira vez eu me deparei com a experiência da perda de um
ente querido, alguém tão próximo. Foi algo que mexeu muito comigo. No dia da minha formatura ele não estava na plateia, e isso ainda é uma lembrança muito forte.

SE – Como o apresentador de um telejornal lida com a emoção da notícia?
AT – Uma das lembranças de quando a emoção reverberou em meu íntimo com muita intensidade foi a morte do Betinho. Ali eu não consegui ter meu lado profissional prevalente, de alguma forma deixei transparecer a emoção pela perda de uma pessoa por quem eu tinha grande admiração. A televisão expõe, os olhos são as janelas da alma. Mas não tenho pudores de compartilhar emoções com os telespectadores. Quando pensamos em jornalismo no século XXI, precisamos enxergar um ser humano na figura do apresentador.

SE – Como você se tornou espírita?
AT – Minha vida sempre foi marcada pela moral cristã. Minha mãe era espírita, meu pai era um católico convicto que abandonou o seminário pouco antes de assumir a vocação de padre. No lar prevalecia a influência religiosa paterna. Estudei em colégio católico, fiz primeira comunhão e crisma. Foi em 1987 que senti a necessidade de informações que preenchessem lacunas importantes, para as perguntas que o catolicismo não conseguia responder. Foram naqueles momentos da juventude que surgiram muitos questionamentos. Eu precisava entender mais sobre o sentido da dor, do sofrimento e de como interagimos com o plano espiritual. Busquei então os livros de cabeceira da minha mãe, as obras básicas de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, O Livro dos Médiuns e a Gênese). Neles encontrei muitas respostas e uma nova diretriz para meus caminhos. Conheci o centro espírita Joana d’Angelis, em Copacabana (no Rio de Janeiro), que até hoje frequento. Engajei-me nos trabalhos da casa, participei de atividades de passes e atividades com os jovens frequentadores da mocidade espírita. Foi um período da minha mocidade muito intenso no movimento espírita.

SE – Como surgiu o livro Espiritismo e Ecologia?
AT – A ideia do livro surgiu quando o escritor, músico, terapeuta e fundador da Sociedade
Pró-livros Espíritas em Braille, Luiz Antonio Mileco, me convidou para fazer a palestra Ecologia e Paz. Sem que me desse conta, o livro nasceu ali. Procurei, então, buscar informações nas obras de Kardec, nas obras psicografadas de Chico Xavier, Divaldo Franco e outros que considero referenciais dessa relação entre as ciências ecológicas e a Doutrina Espírita. O livro não se esgota no tema. Ele oferece uma janela, uma possibilidade de interpretação. Há um universo de assuntos que merecem ser devidamente estudados e pesquisados, porque há muitas questões em aberto, entre as quais o aquecimento global, a falta de água doce, a poluição dos rios, a falta de planejamento das cidades. É urgente que o movimento espírita absorva e contextualize, à luz da Doutrina, os sucessivos relatórios científicos que denunciam a destruição, sem precedentes, dos recursos naturais não renováveis, no maior desastre ecológico por ação do homem.

SE – O que cada pessoa pode fazer para ajudar a salvar o planeta?
AT – Não é o planeta que precisa ser salvo, somos nós! É preciso primeiro entender que o planeta seguirá em frente, de uma forma ou de outra. É preciso compreender como funcionam as engrenagens que sustentam a vida no planeta, é preciso saber que o meio ambiente começa no meio da gente. Ecossistemas saudáveis permitem vida em abundância, conforto, saúde, longevidade e disposição.

SE – Que ensinamentos a Doutrina Espírita  agrega ao seu dia a dia?
AT – Tem a questão das impermanências, o entendimento de que bons e maus momentos são passageiros. Ao seu término, um cronômetro que não para nunca, nos permite enxergar momentos novos. Devemos olhar o futuro com olhar desprendido. Eu considero um privilégio a existência, procuro na medida do possível enfrentar as minhas inúmeras imperfeições e limitações tentando enxergar o lado positivo das coisas! Procuro estar atento ao fato de sensibilizar as pessoas para a prática do bem em todos os campos de vida, promovendo esse debate dentro de casa, no trabalho, na reunião de condomínio. Entendo que precisamos praticar o que se fala. É a pedagogia da atitude, do exemplo.

SE – Como podemos construir um mundo melhor?
AT – Prestando atenção na frequência dos nossos pensamentos, no que irradiamos a
nossa volta. Há muita força embutida em cada pensamento, em cada palavra. Realizando certas mudanças na rotina, certos ajustes nas tarefas do cotidiano, podemos efetivamente transformar o mundo num lugar melhor.

SE – Que mudanças?
AT – Restabelecendo metas, expectativas, sonhos de consumo. Consumir água com responsabilidade e respeito por esse recurso. Estar vigilante ao consumo de energia, reduzir o volume de lixo, descartar adequadamente e de forma inteligente os resíduos. Reduzir consumos é possível e necessário. É necessário que saibamos viver com menos. O planeta é um só e os recursos não são infinitos.

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