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Espiritismo – alcance possível da verdade

Uma das principais alavancas que sempre moveram o ser humano em sua incessante busca pelo progresso foi a tentativa de compreender o que é a verdade.
Evidentemente que tal pergunta é das mais complexas, mas ao tentarmos respondê-la, podemos, com certa facilidade, fazer algumas constatações:
• Aquilo que entendemos como verdadeiro varia de acordo com o momento histórico e a cultura em que estamos inseridos;
• Podemos, quando muito, perceber alguns segmentos da verdade, mas nunca compreendê-la integralmente;
• Aquilo que em um determinado momento tomamos como verdadeiro, pode vir a ser substituído por um novo modelo, que através de um viés diferenciado, traz respostas mais coerentes e precisas àquele dado segmento analisado;
•   O alcance que conseguimos fazer da realidade, por depender em grande parte de nossos 5 sentidos é bastante limitado;
A cada momento da história da humanidade, em cada cultura, de acordo com o stock cultural de cada grupo, buscou-se construir um sistema de ideias que fosse capaz de, ainda que parcialmente, trazer as respostas necessárias às perguntas de cunho existencial.
Nesse sentido, notamos que as explicações sobre a verdade dadas pelos povos da antiguidade, eram impregnadas de conteúdo místico que as explicações para tudo aquilo que era desconhecido das pessoas era atribuída a deuses, explicado através de mitos, de histórias fantásticas e miraculosas.
Na Grécia antiga, muitos dos principais filósofos que são até hoje estudados eram também grandes cientistas e ajudaram a promover – por exemplo – inegáveis avanços na ciência matemática, assim como a aprofundar o entendimento religioso, ajudando a alterar gradativamente o sentido mítico que prevalecia à época e iniciando um período (ainda germinal) de racionalidade.
Com o decorrer dos séculos, especialmente na cultura ocidental, operou-se uma disjunção entre os 03 grandes eixos da macrocultura humana – quais sejam, ciência, filosofia e religião – deixando os mesmos de serem vistos como complementares e passando, em determinados momentos, a competir entre si e a adotar posturas diametralmente opostas e, portanto, inconciliáveis.
Tal distinção acabou levando a enormes distorções, que podem facilmente ser percebidas ao notarmos, por exemplo, a prevalência do segmento religioso sobre os demais ao longo de boa parte da Idade Média, e a prevalência do segmento científico em detrimento dos demais, verificada nos últimos 400 anos, especialmente com a base teórica trazida por grandes capacitores como Isaac Newton e René Descartes.
Durante a Idade Média a filosofia e a ciência ficaram sob o jugo da mentalidade católica dominante – que fazia que tudo fosse interpretado à luz dos dogmas impostos pela Igreja e engessava qualquer tentativa de pesquisa dissoante ou de produção intelectual
Como contraponto, a partir das contribuições de Isaac Newton e René Descartes, consolidou-se uma absoluta distinção entre ciência, filosofia e religião, ficando cada um dos três grandes eixos da macrocultura humana fechados em si mesmos. Tal postura possibilitou um forte avanço das demonstrações trazidas pela ciência, mas, em contrapartida, manteve à religião relegada a aspectos dogmáticos e cada vez mais anacrônicos, e a filosofia distanciada da maior parte das pessoas, como sendo algo obscuro e de pouca importância.
Esse avanço da ciência, especialmente através do paradigma reducionista e simplificador encetado por Descartes, acabou fazendo com que, por algum tempo, o homem se tornasse prepotente, crente de que poderia alcançar uma plena compreensão da ‘verdade’ simplesmente através da aplicação do método científico.
Contudo, devemos perceber que o alcance da verdade – ou ao menos o máximo alcance possível em um dado momento – somente pode se fazer através da conjugação harmônica e coerente dos três grandes eixos da macrocultura humana, sendo absolutamente impossível compreendê-la somente através de um deles.
Enquanto através da ciência podemos nos questionar ‘como?’, a filosofia e a religião nos dão a medida dos ‘por quês?’ e ‘para quês?’ imprescindíveis para que possamos alcançar uma melhor visão da verdade.
A Doutrina dos Espíritos, fundamentada justamente nesses três grandes aspectos da macrocultura humana, permite-nos uma visão mais completa e coerente da realidade que nos cerca, especialmente no sentido de percebermos que ela é muito mais ampla e complexa do que se poderia depreender de uma mera visão materialista.
Através da conjugação de ciência, filosofia e religião, estaremos aptos a fazer a permanente re-conceituação daquilo que entendemos por verdade já que seu alcance varia de acordo com o conhecimento atingido pela humanidade como um todo.
Seguindo essa perspectiva de permanente re-conceituação da verdade, o que é próprio da Lei de Progresso, torna-se fácil perceber que não podemos fazer um Espiritismo requentado e datado, baseado na mera repetição do que se operou em décadas anteriores.
Logo, devemos perceber que o Centro Espírita deve ser concebido como uma Universidade do povo, como um lugar de permanente estudo e re-contextualização da verdade alcançada, não podendo mais ser visto como um mero local de utência, ou como um oráculo no qual os espíritos manifestantes serviriam para trazer respostas prontas a todas as nossas indagações.

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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