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Espiritismo: uma releitura

Espiritismo: uma releitura

É preciso entender as mudanças que estão ocorrendo na sociedade para a construção de um mundo melhor hoje e amanhã. O Espiritismo pode ajudar nessa difícil tarefa

Por Mara Andrich

Desde que o Espiritismo foi codificado por Allan Kardec, no século XIX, muitas mudanças ocorreram na sociedade. Novos conhecimentos científicos e do ser, novas ideias que surgiram na cabeça de grandes pensadores, descobrimentos que têm revolucionado as artes, a ciência, enfim, todas as áreas do conhecimento.
Dentro dessa concepção, o Espiritismo também se modificou, pois inevitavelmente vem absorvendo os novos conceitos e os avaliando, reavaliando e os concebendo de maneira crítica. E até que se chegou a um novo momento no século XX, quando as casas espíritas passaram a ser verdadeiros nichos de conhecimento, onde as pessoas buscam, não uma educação formal, mas uma educação e aperfeiçoamento que têm somente um único objetivo:
a construção de uma sociedade melhor.
Hoje não se entende mais o Espiritismo como sendo apenas a doutrina da comunicação com o
polissistema espiritual, como uma religião, ciência e filosofia que se apega às manifestações de espíritos e aos fenômenos sobrenaturais. Sim, tudo isso também tem grande significado, mas são apenas parte de um todo muito maior de busca de conhecimento, de autoconhecimento, de educação, de busca de uma nova ordem moral, humana,
de afastamento do materialismo e de valorização de preceitos como a solidariedade, a paz e o amor.
Mas para conseguir esse avanço, é preciso, em primeiro lugar, um processo de educação permanente, na opinião do diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Antonio Cesar Perri. Apesar dos avanços desde a codificação, essa nova visão frente ao Espiritismo não é nada fácil de ser concebida, pois ainda há mudanças, principalmente na área da educação, que devem ser efetivadas. “É um longo processo, e estamos a caminho. Em geral, as legislações dos países já evoluíram muito, de certa forma, assegurando prerrogativas como direitos dos cidadãos. Mas é necessário o trabalho de base, de educação permanente junto à sociedade, para que os direitos sejam transformados em deveres conscientes”, afirma. Tudo isso pode iniciar dentro da casa espírita, que deve ser vista como “universidade do povo”, ou seja, como uma grande estrutura de transmissão de conhecimento. O professor e coordenador de grupos de estudos espíritas, Paulo Henrique Wedderhoff, vai além. Ele avalia que para que as mudanças na sociedade sejam aceleradas o centro espírita deve funcionar como um local que preencha o espaço vazio da educação continuada. Para ele, as universidades, por sua vez, também precisam promover a espiritualização, como já vem ocorrendo em algumas instituições de ensino no Brasil.
Segundo o espírito Antonio Grimm (em mensagem psicofonada pelo médium Maury Rodrigues da Cruz), o centro espírita precisa alcançar o foro de universidade aberta. Para serem repassados os conhecimentos na “universidade do povo” estes devem estar calcados em um projeto político-pedagógico, na opinião do presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE), Maury Rodrigues da Cruz. “Quando se fala em projeto político-pedagógico está se falando de um processo amplo, no qual se prioriza o ser humano. Mas para isso é preciso estar assentado na moral, na ordem espiritual, no sentido lógico e na dimensão axiológica. Para isso é necessário fazer conhecimento, e o centro espírita é uma agência de conhecimento, de sabedoria”, explica. Tendo isso, fica mais fácil capacitar pessoas que terão condições de fazer transformações na sociedade. “Essa transformação deve ser feita sem proselitismo, mas com uma visão crítica, tentando trazer elementos que substanciem o conhecimento numa ordem espiritual”, avalia Cruz.
Wedderhoff afirma que se o centro espírita estiver munido desse projeto será muito mais fácil fazer
com que cada indivíduo desperte para os desafios da sociedade. “O novo centro espírita deverá contribuir para que o estudioso alcance a prontidão para o seu papel de agente da transformação interior que ele espera ver no mundo em que vive”, observa o professor.
PRESENTE E FUTURO: MAIS INFORMAÇÃO, MENOS PRECONCEITO

Com mais informações, todo cidadão tem melhores condições de fazer avaliação crítica. Na medida
em que os agentes mediúnicos adquirem conhecimento, é possível tentar fazer modificações na sociedade. Nesse contexto, as pessoas em geral conseguem autonomia intelectual, ou seja, se tornam mais racionais, e não são manipuladas ou induzidas a nenhum tipo de pensamento ou atitude. E o Espiritismo vai sendo conhecido da maneira como ele realmente é, e não envolto em dogmas e conceitos sobrenaturais.
Na medida em que o Espiritismo se mostra como condutor de ideias, não é bom somente para a sociedade, mas também para a Doutrina, codificada no século XIX e que tem necessidade de ser contextualizada. “Penso que o preconceito que se tinha com o Espiritismo vem diminuindo na medida em que tem melhorado o nível cultural da população, e esta passa a ter a chamada autonomia intelectual, sem seguir determinações alheias ou ‘superiores’. A própria ação dos espíritas, de dedicação e seriedade nas atividades assistenciais e promocionais, a difusão mais ampla dos princípios do Espiritismo, têm contribuído para a mudança do cenário, do antigo preconceito para o respeito ou para a admiração”, analisa Perri.
Para Cruz, falta informação sobre o tema, e informar é o grande objetivo da Doutrina, hoje e amanhã. Para ele, é necessário cada vez mais mostrar à sociedade os fundamentos do Espiritismo: Deus, Jesus Cristo, reencarnação, entendimento entre os homens, perdão, boa vontade, amizade, amor, responsabilidade, solidariedade, descobrir no homem o que há de melhor. E se alguém ainda não começou, esse é o momento de fazer algo. “Esse é o momento das pessoas pensarem numa visão de solidariedade. Momento em que se possa entender que viver bem é ser solidário com a humanidade. A concepção que temos que ter de Deus, da humanidade, é do pertencimento que fazemos a Deus e à humanidade”, observa.
O presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), Dante López, acredita que o preconceito ainda existe, mas justamente por causa da falta de informação em relação à Doutrina Espírita. “Muitas vezes temos que explicar, primeiro, que o Espiritismo não é somente composto de fenômenos, que não falamos com os mortos, como se diz vulgarmente, mas sim, temos intercâmbios com os seres humanos desencarnados, que o mais importante
do Espiritismo é a sua filosofia, que resgata o conceito da justiça de Deus através da lei da reencarnação, que reconhece o ser humano como um espírito em evolução que não será salvo por ninguém porque não está condenado, e que tem um conteúdo de caráter universal, que pode ser útil para viver uma vida mais plena, mais consciente e, portanto, mais feliz”, avalia López.

Cruz compartilha da visão de López sobre a questão do sobrenatural. Para ele, “não é possível fazer
Espiritismo ficando somente numa ordem sobrenatural. Nem trabalhamos com isso mais. Temos a convicção da imortalidade, da eternidade. Se nós temos essa convicção não podemos cultuar visão sobrenatural. Temos que cultuar a visão natural, crítica, evolutiva, moral, consequentemente, espiritual”. Cruz ressalta que, antes de tudo o ser humano tem que ter conhecimento de si mesmo e, assim, ter condições de se autoadministrar, se prontificar e ter consciência de que precisa mudar e que precisa contribuir para as mudanças na sociedade.

PODEMOS CONTRIBUIR PARA O FUTURO DA DOUTRINA ESPÍRITA?

O presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), Dante López, ressalta que o Espiritismo no Brasil vem crescendo mais rapidamente, em relação ao restante do mundo. Segundo ele, no Brasil a Doutrina Espírita está presente em todos os segmentos da sociedade “por sua ação para os necessitados e por suas atividades de difusão”. Mas o que nós todos podemos fazer para auxiliar no desenvolvimento e na divulgação do Espiritismo? Para López, todos precisam se engajar e divulgar a essência da Doutrina, que para ele é a “potencialidade de oferecer uma explicação racional do sentido da vida, do conceito que faz da figura de Deus como Inteligência Suprema e não como uma figura antropomórfica (de forma humana) e da possibilidade de nos relacionarmos com o mundo espiritual de uma maneira natural.
O fenômeno que leva ao contato entre o mundo espiritual e o mundo físico é inerente à natureza
humana, não é propriedade do Espiritismo. Então onde há fenômenos espirituais há pessoas que investigam e, portanto, torna-se indissociável aproximar-nos da explicação espírita para tudo isso”, avalia. Na opinião do coordenador de grupos de estudos espíritas, Paulo Wedderhoff, as pessoas poderiam entender religião como código moral, como valorização e defesa da vida, e perceber a importância de debater isso com toda a sociedade. A compreensão da reencarnação também auxiliará muito. “Quando as pessoas se derem conta que terão que voltar à escolaridade da Terra em uma nova oportunidade reencarnatória, poderão se perguntar: quando eu voltar, o que encontrarei senão uma sociedade que eu ajudei a construir? Assim, mais rapidamente as atitudes mudarão e melhor o nosso
mundo se tornará”, lembra o professor. Com informação, a contribuição do homem será, sem dúvidas, muito maior para a humanidade. E as mudanças serão inevitáveis, entendendo sempre de que o espírito é imortal. “Com isso, a
contribuição poderá, como já tem ocorrido, ultrapassar ‘muros’ religiosos e perpassar várias religiões e as mais diversas pessoas”, diz o diretor a Federação Espírita Brasileira (FEB), Antônio Cesar Perri.
Para López, é difícil avaliar o que será do Espiritismo no futuro. Pois, na sua concepção, “o
Espiritismo será o que os espíritas fizerem dele”, citando o escritor Léon Denis.

(REPORTAGEM PUBLICADA NA EDIÇÃO 12 DA REVISTA SER ESPÍRITA IMPRESSA)

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