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Espírito e matéria: qual a diferença?

Espírito e matéria: qual a diferença?

Por Raul J. F. de Oliveira

Doutor em Ciências, professor acadêmico e coordenador de grupos de estudos espíritas.

Este texto foi elaborado com a intenção de sanar uma dúvida bastante crucial que muitas vezes atormenta o intelecto dos espíritas que pretendem aprofundarem-se em estudos mais elaborados da Doutrina.
A questão é fundamental e traz à tona uma discussão que, se não for bem entendida, pode gerar desvios extremamente equivocados naqueles que “lêem a letra” da codificação sem se aterem aos detalhes.
A fonte básica para orientar a discussão é o próprio O Livro dos Espíritos, publicado por Allan Kardec em 1857.
Vamos ao questionamento: espírito é matéria? Vale aqui então uma pequena introdução para começar a responder esta pergunta.
A essência do espírito não procede da mesma origem que a matéria, pois se assim fosse, todos os espíritos estariam sob os efeitos das leis materiais, ou seja, envelheceriam, se decomporiam, morreriam (se desagregariam), etc. Porém, isto não ocorre, o espírito é da eternidade. Se não, observemos o que O Livro dos Espíritos diz a este respeito na sua Introdução (item VI):

[…] Vamos resumir, em poucas palavras, os pontos principais da doutrina que nos transmitiram, a fim de mais facilmente respondermos a certas objeções.
“Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom”.
“Criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais”.
“Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos” (KARDEC, 2006, Introdução – item VI).

Na citação direta acima pode-se observar que existem seres materiais e imateriais (os espíritos), portanto, espíritos não são matéria.
Para ir mais longe e clarear melhor as dúvidas, tomemos algumas perguntas que Kardec fez aos espíritos para explicar as suas respostas sobre o assunto:

Pergunta 23. Que é o Espírito?
Resposta: “O princípio inteligente do Universo.”
Pergunta 25. O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta, como as cores o são da luz e o som o é do ar?
Resposta: “São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.” (KARDEC, 2006, Livro Primeiro Capítulo II – Elementos Gerais do Universo).

Neste ponto já se pode observar a menção “distintos uma do outro”, significando que a essência de uma não é a essência da outra, portanto, espírito não tem a essência da matéria, assim, não é matéria.
Ainda em outra questão:

Pergunta 27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito?
Resposta: “Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. … (KARDEC, 2006, Livro Primeiro Capítulo II – Elementos Gerais do Universo).

Observe que se existem três coisas distintas no Universo, o termo indica que uma não é a outra, ou seja, as essências, as origens são diferentes. Então, matéria e espírito não são a mesma coisa, não têm a mesma origem.
Continuando com outra pergunta:

Pergunta 79. Pois que há dois elementos gerais no Universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material?
Resposta “Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material. A época e o modo por que essa formação se operou é que são desconhecidos” (KARDEC, 2006, Livro Segundo Capítulo I – Espíritos).

Note-se que aqui os espíritos afirmam categoricamente que o princípio de cada um é diferente, ou seja, há uma diferença da essência do que são feitos.
Finalmente, para tornar mais claro uma última pergunta feita aos espíritos:

Pergunta 82. Será certo dizer-se que os Espíritos são imateriais?
Resposta “Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa.
É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos.”
Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque, pela sua essência, diferem de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria. […] Nós outros somos verdadeiros cegos com relação à essência dos seres sobre-humanos. Não os podemos definir senão por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da imaginação (KARDEC, 2006, Livro Segundo Capítulo I – Espíritos).

Ao fim do primeiro parágrafo da resposta dos espíritos vale um comentário, naquele momento os espíritos utilizam o termo “incorpóreo” para afirmar que o espírito é alguma coisa, apenas isto. Porém, do segundo parágrafo da resposta é que nasce a grande confusão. A locução “matéria quintessenciada” foi utilizada pelos espíritos para tentar dizer a Kardec o quão superior à própria matéria é a essência do espírito, algo que está além da estrutura da própria matéria. Além disso, há uma clara analogia entre o antigo conhecimento manifestado pelos Gregos, que consideravam todas as coisas da natureza oriundas do fogo, da água, do ar ou da terra (as quatro essências primordiais), com a quinta essência (ou quintessência), como algo totalmente diverso das anteriores, portanto ímpar a estas. Não haviam outros meios para explicar a essência do espírito ao codificador com o conhecimento inteligente da época (onde a célula ainda não era conhecida, quanto mais o átomo), então tiveram que parear a explicação com algo mais ou menos inteligível para o momento. Aliás, o último parágrafo da resposta dos espíritos é bem esclarecedor quanto a isto.

Referências

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra da 2ª, 4ª, 5ª, 6ª, 10ª, 12ª edições francesas. Edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006.

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