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Exercício político – compromisso com a evolução social

Exercício político – compromisso com a evolução social

Por Flavia Zanforlim – publicado na SER Espírita impressa n.10

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Fazer política é tomar e aplicar decisões que interferem na vida de todos. A responsabilidade com os padrões éticos-sociais deve ser o par desta ação

Confundir política com politicagem é um erro comum, pernicioso e antigo. Tanto é assim que se atribui a Platão a frase: “os que não gostam de política, serão governados pelos que gostam”. O filósofo Thomas de Aquino ajuda na compreensão do termo com sua afirmação de que “política é a arte de governar os homens e administrar as coisas, visando o bem comum, de acordo com as normas da reta razão”.
Apesar das desilusões, é importante lembrar que, no que diz respeito a governo e governados, a evolução política só se dará pelo exercício democrático que pressupõe o exercício do voto e a alternância de governantes. Além disso, a ampliação da consciência sobre as consequências das decisões como eleitores ou como eleitos será um dos principais fatores para a mudança no comportamento de quem vota e de quem governa.
A ação política, contudo, não se restringe a votos, mas alcança toda ação individual que afete de maneira positiva ou não o vizinho, o bairro, a cidade, o estado, a nação e a humanidade. Ela pode começar com o mau exemplo de jogar um papel de bala na rua, o lixo tóxico em um rio ou ideias negativas no ambiente mental em que se vive. Assim como também pode começar com o bom exemplo de instruir-se e instruir as pessoas com quem se compartilha a vida na Terra. É neste contexto que se dá conta do quanto Aristóteles estava correto ao afirmar que o ser humano é um animal político. Como coloca o jurista e espírita Aylton Paiva, “o espaço político é a sociedade. O ser humano é um ser político, pois ele vive em sociedade. Quando agimos, ou não agimos, em sociedade, para o bem ou para o mal, estamos sendo políticos”.
Esta explicação não é recente. Atribui-se a origem da palavra política ao termo grego ‘politeia’, que significa ação orientada para o bem comum da ‘pólis’, ou seja, da cidade e dos cidadãos. Quando pensamos em política, logo nos vem à mente a ideia de decisões que afetam muitos.
Em época de eleições começamos a pensar em como fazer valer os nossos direitos. Mas, além da descrença que o brasileiro já tem no sistema político, ele afirma que futebol, religião e política não se discutem, na maioria das vezes. Contra esta afirmação, o espírita, médico e secretário da Saúde de São Bernardo dos Campos, em São Paulo, Ademar Arthur Chioro dos Reis, responde que “o diálogo permanente é pressuposto básico para a política e a democracia”. Sustentando a necessidade do diálogo, Chioro lembra que “a política é uma atividade humana que está diretamente relacionada à vida em sociedade e deve ser regida pelo cumprimento dos direitos humanos”. Ele afirma que “os direitos referentes à vida devem prevalecer sobre os direitos referentes às coisas, e os direitos referentes ao bem de todos devem prevalecer sobre os direitos referentes ao bem particular. Isso só se efetiva à medida que as pessoas possam, livre e democraticamente, discutir os diferentes projetos em disputa e se colocar em acordo sobre as decisões que precisam ser adotadas”.
Mas para que essa hierarquia de direitos seja respeitada é necessária uma conscientização social sobre o que é cidadania. O administrador e coordenador de grupos de estudos espíritas Paulo Wedderhoff enfatiza que a abstenção do exercício político gera prejuízo tanto para as pessoas que abdicaram dos próprios direitos quanto para o grupo social. “Votando em branco, ou anulando o voto, por exemplo, diminui o número de votos válidos e facilita a vida de quem não gostariam de eleger. Seria importante que todos compreendessem que seu desinteresse equivale a renunciar à cidadania”, acrescentou Wedderhoff. Mas o voto é somente uma das inúmeras ações políticas.
Chioro ressalta que não se deve restringir o exercício político às campanhas eleitorais, militância partidária ou participação em governo. “O exercício político, que se confunde com a plena realização da cidadania, é exercido cotidianamente em cada espaço onde se dão as relações humanas. Atuamos politicamente na família, na escola, no trabalho, no bairro, no clube, no centro espírita, etc.”, afirma ele.
É preciso enfatizar sempre que somos todos responsáveis. Para alguns, esta responsabilidade é um fardo, para outros é a porta que se abre para a liberdade, pois junto com a necessidade de ação nasce a autonomia. É com este pensamento que o secretário de saúde declara que o cidadão tem responsabilidade sempre, e isso não acaba no dia das eleições. “Com o mesmo rigor que escolho o partido e os meus candidatos, procuro acompanhar, monitorar e fiscalizar as ações dos políticos eleitos, com especial ênfase naqueles que receberam o meu voto”. Ele comenta, inclusive, que já votou em candidatos que não atenderam, após eleitos, as suas expectativas, mas salienta que isto “não deve diminuir a importância do voto”. E conclui que o voto funciona como exercício e manutenção da democracia agindo como instrumento transformador da sociedade.

POLÍTICA, POLÍTICA PARTIDÁRIA E POLITICAGEM
Para essa transformação acontecer de maneira organizada e assim poder alcançar a sua finalidade de desenvolvimento público a partir de uma ação democrática, o jurista explicitou a necessidade de um aprofundamento do termo ‘política’. A política como a ciência e a arte da administração justa para o bem comum; a política no sentido da política partidária, que é fundamental para a constituição dos Poderes Legislativo e Executivo, nos níveis municipal, estadual e nacional, dentro do processo democrático; e a politicalha, que é, no exercício de cargos nos Poderes Legislativo ou Executivo, agir de forma inescrupulosa e mesmo criminosa, objetivando fins egoísticos de pessoas e grupos. Para o secretário de saúde Chioro, “o controle social é o mecanismo mais efetivo de aperfeiçoamento do sistema político. Se cada cidadão cumprisse esse dever cotidianamente, e não a cada quatro anos, teríamos outro sistema político e um país muito mais civilizado. Segundo ele, a lógica é muito simples e indaga: “você controlaria a sua conta bancária uma vez a cada quatro anos? Veria o boletim dos seus filhos ou controlaria o que eles assistem na TV uma vez a cada quatro anos?
Controlaria as vendas do seu negócio ou as despesas da sua empresa uma vez a cada quatro anos? Ou controlamos os políticos ou eles nos controlam”.
Paulo Wedderhoff lembra que toda eleição é um contrato. O candidato promete, as pessoas votam e esperam que ele cumpra o que prometeu. “Se ele mentiu ou foi incompetente, temos o direito de não renovar o contrato ou afastá-lo antes que seja tarde. A conscientização é o melhor remédio para que o Brasil desperte”.

LAÇOS ENTRE ESPIRITISMO E POLÍTICA
Lembrando os laços políticos estabelecidos com a chegada do Espiritismo no Brasil, a doutora em História e professora de Teologia Espírita Vera Irene Jurkevics ressalta que o papel do Espiritismo é reforçar os movimentos éticos, assim responsáveis e solidários, que acontecem na sociedade. Ela cita o deputado, médico e difusor do Espiritismo no Brasil Adolfo Bezerra de Menezes que, antes de se posicionar como espírita, já participava do Partido Liberal e defendia a abolição da escravatura. Segundo ela, devido à forte influência da cultura francesa na elite brasileira de 1850 a defesa dos princípios éticos espíritas foi uma consequência, tanto que não só Bezerra tornou-se espírita, mas também outros liberais e líderes políticos da época.
Nos dias atuais, o jurista Aylton Paiva constata que pouco se discute política no meio espírita. Sendo necessário, segundo Chioro, lidar com o tema da política nos grupos de estudos e nas atividades de reflexão, que têm lugar nas instituições espíritas. “Isso pode nos ajudar a interferir como cidadãos nos rumos da sociedade, contribuindo para a promoção da justiça social e da cidadania”, ressalta.
O médico citou a Confederação Espírita Panamericana (CEPA) do Brasil, que atua representando os espíritas no Conselho Nacional de Saúde. “Em conjunto com outras entidades da sociedade civil, trabalhadores da saúde, universidades e gestores públicos, tem dado importante contribuição para a formulação e o controle da política de saúde em nosso país”, diz. Isso significa participar de discussões no campo da bioética, da saúde mental, do planejamento familiar, do cuidado ao idoso, das pesquisas com células-tronco, eutanásia, da prevenção e controle ao uso das drogas, entre outros, contribuindo com a visão espírita de homem e de mundo. Chioro enfatiza que “o Espiritismo é, por excelência, agente da solidariedade humana”. Por mostrar a vida atual como consequência lógica e racional dos atos praticados em anteriores existências, fazendo de cada pessoa autor da felicidade própria, possibilitando uma importante contribuição à elevação do nível moral da sociedade. “Segundo Herculano Pires, somos co-construtores do Universo”, lembra o jurista. Paiva, que também é autor da obra O Espiritismo e a Política para a Nova Sociedade, ressalta o papel do espírita como cidadão consciente, agente de transformação social, esclarecido pela Doutrina Social Espírita, contida em O Livro dos Espíritos, em sua terceira parte (Das Leis Morais), que estabelece normas sociais e espirituais. E que estas tornam possível a ação política no seu sentido mais amplo, que é a arte da administração justa para o bem comum.

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