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Existem milagres?

Quando falamos sobre religiões, notamos que muitas pessoas tendem a associar a percepção que fazem de Deus diretamente à ideia de milagres, de fatos sobrenaturais que fogem a tudo aquilo que é conhecido e plausível, afirmando que esta seria a forma de Deus comprovar seu poder e sua onipotência.

Segundo a acepção mais comum, milagres seriam acontecimentos absolutamente fantásticos e inexplicáveis, que derrogam momentaneamente as leis naturais em benefício exclusivo de uma determinada pessoa ou um grupo de indivíduos.

Será que seria plausível acreditar que – sendo Deus a inteligência suprema, a causa primária de todas as coisas, a substância da substância da vida, o princípio que criou e mantém a unidade em todo o Cosmos – poderiam as leis que regem o Cosmos da forma mais sublime que se possa imaginar ser simplesmente invalidadas em uma dada circunstância para logo a seguir tornarem a valer?

Pensar dessa maneira seria o mesmo que negar a absoluta perfeição das Leis Divinas, posto que Deus é o supra-sumo de todas as virtudes, dentre as quais a justiça e a inteligência e não teria criado determinadas regras para as mesmas serem invalidadas ou derrogadas a seu bel prazer. Se as leis dos homens são imperfeitas e muitas vezes são desrespeitadas, não podemos projetar tal imperfeição ao Creador, posto que Suas leis são absolutamente perfeitas.

Aquilo que em tempos pretéritos foi chamado de miraculoso, assim o foi em virtude exclusivamente de nossa ignorância, de nossa incapacidade de perceber que um determinado fato, por mais que fosse incomum, não fugia a essas regras que podem ser perfeitamente compreendidas, desde que nos esforcemos para tanto.

 Em outras épocas, tudo aquilo que não conseguíamos explicar e compreender era atribuído a seres mágicos, explicado de formas míticas ou simplesmente tidos como milagres. À medida que fomos avançando em termos de intelectualidade, muitos desses fatos que anteriormente eram inexplicáveis são hoje conhecidos por todos e inclusive ensinados nas escolas.

Assim ainda o é, ainda hoje, para algumas religiões, o que ocorre quanto aquilo que diz respeito à mediunidade e aos fatos espíritas. Contudo, por se tratarem de leis naturais, podem ser estudados e compreendidos assim como qualquer outra coisa, não tendo nada de miraculoso ou sobrenatural. O que precisamos para bem compreender esses fenômenos é apenas de métodos adequados e interesse suficiente. Essa é exatamente uma das principais tarefas do Espiritismo, a de demonstrar a realidade através de uma visão mais ampla, mas que pode ser compreendida através da razão.

A natureza, a vida, e tudo aquilo que existe já são por si sós suficientemente dignos de nossa imensa e intensa admiração. O simples fato de as Leis Divinas nos revelarem uma enorme harmonia em toda a complexidade cósmica já dá conta da absoluta inteligência que as creou sendo, pois, desnecessário acreditarmos que Deus somente demonstraria seu poder ao permitir a realização de milagres, quando tal poder é demonstrado a todo momento através de Sua obra sublime.

Sobre essa possibilidade de compreendermos e conhecermos as regras que regem absolutamente todos os mecanismos da natureza, vejamos a interessante explanação trazida pelo eminente filósofo Immanuel Kant:

“Tudo na natureza, tanto no mundo animado quanto no mundo inanimado, acontece segundo regras, muito embora nem sempre conheçamos essas regras. A água cai segundo as leis da gravidade e, entre os animais, a locomoção também ocorre segundo regras. O peixe na água, o pássaro no ar movem-se segundo regras. A natureza inteira em geral, nada mais é, na verdade, do que uma conexão de fenômenos segundo regras; e em nenhuma parte há irregularidade alguma. Se pensamos encontrar tal coisa, só podemos dizer neste caso o seguinte: que as regras nos são desconhecidas.”[1]

Cabe, pois, a cada um de nós ter essa consciência de que todo o que podemos observar no Cosmos ocorre segundo regras absolutamente harmônicas e regulares, e que nos cabe gradativamente, na medida de nosso possível, tentar compreendê-las.

[1] KANT, Immanuel. Lógica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011. p.29.

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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