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Felicidade – uma busca interior

Felicidade – uma busca interior

Por Flavia Zanforlim

Reportagem publicada na SER Espírita impressa n.24

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Uma coisa é certa: todos querem a felicidade. Cada indivíduo faz essa busca de maneira bastante singular, guiando-se conforme as expectativas que tem da vida, do mundo, das pessoas e, principalmente, de si mesmo. Mas o que é felicidade? Um bom começo para descobrir o que traz felicidade pode ser responder quais são as suas expectativas em relação ao trabalho, à família, ao lugar onde mora. Assim, fazer autoconhecimento é fundamental.
A psicóloga Clarice Vargas considera que “é preciso refletir sobre a natureza de nossos desejos. Perguntar a si mesmo todos os dias: qual é o meu desejo? E ouvir a nós mesmos com coragem.” Costuma-se pensar que a felicidade está no outro – em um objeto, em uma pessoa. E assim cada pessoa se torna vítima da própria vida. A psicóloga relata que, quando pergunta para algumas pessoas o que elas desejam, muito frequentemente ouve respostas que começam assim: “Eu queria que o fulano…”. E raramente ouve: “Eu queria saber por que eu…”. Ela avalia que “quanto mais atribuímos nossa própria sorte a fatores externos, em vez de atribuirmos a nós mesmos, menor é o nosso poder de alterar o curso da própria vida. “Nada pode ser mais nocivo à própria felicidade do que colocar sua viabilidade fora de si mesmo”.
Como defendia o filósofo Sócrates, cada um é artífice da própria felicidade ou infelicidade. O escritor Jerri Almeida, autor da obra O Desafio da Felicidade, pondera que a “felicidade não é uma dádiva que Deus oferte para alguns e negue a outros”. Almeida lembra de Kardec. “A felicidade é uma conquista individual, consubstanciada na Lei do Trabalho, nesse caso, do trabalho interior, isto é, do esforço que o indivíduo faz para domar suas más inclinações, melhorando-se gradualmente. A felicidade, portanto, é um desafio interior, no crescimento em direção ao amor proposto por Jesus”.
O escritor explica que quando Jesus diz, em Eclesiastes, que a felicidade não é deste mundo, certamente ele está explicando que a felicidade não está no ‘mundo externo’, ou no ‘mundo material’. “Portanto, a felicidade deve ser construída ou buscada no ‘mundo interior’, que é o espaço onde depositamos a bagagem de nossa vida”, conclui. Se por um lado não é saudável esperar ser feliz por meio de coisas externas, em outra perspectiva, o espírito Leocádio José Correia, em psicofonia feita pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, traz a seguinte orientação: “Seja feliz na felicidade dos outros”. Em um entendimento semelhante, o espírito Antonio Grimm afirma que “quem tem compromisso com a própria felicidade não rompe com a felicidade dos outros”.
Estas orientações trazem um sentido profundo sobre a importância da humildade, da bondade e do amor na construção da felicidade, ressaltando o sentido de respeito, de dignidade, de solidariedade, conduzindo ao entendimento para a família humana.
A psicanalista Rita de Cássia de Araújo atenta para o que ela chama de ‘ditadura da felicidade’. Ou seja, que as pessoas estão querendo ser felizes a qualquer custo. Mas isto nunca vai resultar em felicidade, no máximo em euforia e em angústia. “Percebo as pessoas se sentindo na obrigação de estarem felizes a qualquer preço e o tempo todo”, afirma. Rita explica que diante de um fato difícil “deixamos de fazer aquilo que talvez seja o mais importante, que é escutar verdadeiramente aquele mal-estar, aprender com ele, aprender sobre si mesmo por meio dele e, principalmente, nos transformar a partir dele”.

APRENDER A MUDAR
Com referência na psicanálise, Rita explica que o ser humano é limitado, exposto a mal-estares diversos. Mas ela argumenta que esses mal-estares temporários são “as oportunidades que temos para reconduzir e aperfeiçoar nosso processo de subjetivação, de construção de nós mesmos, processo este que nunca cessa”.
Ela lembra das lagartas que, para se transformarem em borboletas, precisam antes passar pela fase do casulo. “Se quisermos aproveitar esta metáfora para entender o processo de subjetivação humano, diríamos que somos capazes de viver esse processo de transformação muitas e muitas vezes”, compara. Segundo ela, as transformações só ocorrem quando mudamos comportamento e agimos. “Quando questionamos nosso modo de ser e de estar no mundo. Quando paramos de nos interrogar, perdemos a oportunidade de passar por essas transformações, ficando paralisados, fixados, engessados e deixamos de aprender”.
Rita lembra do filme Click, no qual o protagonista compra um controle remoto que é capaz de controlar a sua vida e ele decide acelerar ou pular as partes que não lhe interessam. “Estamos fazendo isso também, querendo pular momentos preciosos da nossa vida porque estamos infelizes, e com eles as oportunidades de aprendermos, de tecermos a nossa existência”, afirma.
Para fazer tudo isso, as pessoas devem estar cientes do seu papel no mundo, como espíritos em evolução, e tomar consciência de que é preciso mudar. O escritor Jerri Almeida diz que “o elemento determinante do melhoramento interior é a vontade”. E atenta que “é necessário perseverança para permanecer no caminho. Mas o que nutre a perseverança? A esperança, ou seja, a fé no futuro”. E, para isso, é importante a fé em si mesmo a partir da ação. Então mude! Mas, espere, não tenha muita pressa. Tanto a psicanalista Rita de Cássia quanto o escritor Jerri Almeida lembram os estudos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a ‘Sociedade Líquida’ e consideram a pressa e o individualismo características preocupantes da sociedade atual. Por isso Rita defende que “num mundo atropelado pela pressa e pelo individualismo, ninguém quer mais perder tempo com as dificuldades e atribulações, querem pular logo para a parte em que serão felizes”. “Bauman usa a metáfora da liquidez para dizer que vivemos numa sociedade do volátil e do descartável. O bastante nunca basta e vivemos escravos do que não temos. Mergulhados no mundo ‘líquido-moderno’ vivemos níveis preocupantes de ansiedade e estresse. Por mais que o indivíduo acumule bens materiais, que logo se superam, há uma insatisfação interior, fruto do vazio que representa a ausência de valores profundos. Esse é o maior gerador de infelicidade”, explica Almeida.
A psicóloga Clarice Vargas avalia que esta questão chama atenção para as grandes chagas da sociedade de consumo e sua alienação. Ela entende que “alguém pode sugerir que para ser feliz é preciso trocar de carro todo ano. Mas, para que isso ocorra, é preciso que um sujeito aja na direção da autenticação deste valor. Há o concurso de desejo; do livre-arbítrio”.
EQUILÍBRIO E FELICIDADE
O professor acadêmico do curso de Teologia Espírita, Oswaldo Branco, acredita que a felicidade é algo que permite ao indivíduo administrar com coragem a sua falibilidade, mantendo um equilíbrio mínimo que sustente o significado de sua própria vida perante a transitoriedade das alegrias, paixões, mágoas, euforia e desentendimentos – que passam, mas deixam aprendizado.
A psicóloga Clarice destaca que, para associar a ideia de felicidade à ideia de equilíbrio, é preciso entender que nenhum dos dois sejam compreendidos de forma absoluta, e que o equilíbrio não é estático, mas sim móvel, dinâmico. Desta forma, é possível compreender as palavras de Gandhi: “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho”. E associá-las à filosofia Taoista: “O caminho se faz ao caminhar”.

FAZENDO HISTÓRIAS FELIZES
Questionado sobre o ingrediente que não poderia faltar para a felicidade, o escritor Jerri Almeida respondeu: “Amor! Onde existe amor, não obstante os sofrimentos e desafios, encontraremos a presença da felicidade. Por largo tempo o ser humano foi um receptor da vida. A felicidade é quando o sujeito desenvolve a consciência de ‘doador’, tornando-se um servidor da vida.”
Quem pode ilustrar muito bem esta ideia é o médico norte-americano Hunter Doherty, conhecido como Patch Adams, que ficou famoso por inserir uma nova forma de tratar os pacientes nos hospitais: levando alegria e humor para os quartos onde adentrasse. Para ele, “o amor é contagioso”. Inclusive essa frase deu nome ao filme lançado em 1998 sobre sua atuação como Doutor da Alegria, onde o ator Robin Williams protagoniza o médico. E assim Patch Adams serviu e serve como inspiração para a criação, pelo mundo todo, de inúmeros grupos intitulados Doutores da Alegria. E não é à toa que Patch é a grande referência de Roseli Bassi, que fundou em 2005 o Instituto História Viva, em Curitiba (PR). O Instituto leva amor e felicidade para mais de mil pessoas, por meio da ação de cerca de cem voluntários que ouvem e contam histórias em hospitais, orfanatos, asilos e casas de apoio. Para participar, o voluntário precisa fazer um treinamento de 35 horas. Roseli conta que mais de mil voluntários já passaram pelo Instituto e explica que poderia ter colocado somente profissionais, mas defende que o voluntariado oportuniza esta ação para pessoas que nem imaginariam que poderiam ajudar.
E que o próprio voluntário cresce, fica alegre, que esse trabalho dá sentido para a vida, revelando a verdadeira felicidade. “O benefício é sistemático, a pessoa coloca o talento dela em favor do próximo. E a gente só consegue felicidade fazendo a felicidade do outro”, diz Roseli. “E, para mim, dá um sentido de satisfação, de dever cumprido”. Por outro lado, as histórias ainda se transformam em ferramentas de socorro para quem ouve. Tanto pela mensagem que é oferecida – que promove os valores humanos, o amor, a verdade – quanto pela alegria e emoções positivas que proporcionam. Cabe lembrar que Jesus deixou sua mensagem por meio de parábolas, que são histórias repetidas até hoje.
Roseli explica ainda que uma das principais bandeiras da ONG é promover a leitura e diz que o Brasil é miserável porque não lê. “O projeto promove isto, pois o voluntário, para contar histórias, vai ter que ler”. Além disso, o voluntário, por meio do exemplo, deixa o estímulo da leitura para quem ouve.
Questionada sobre o que significa felicidade, Roseli responde: “É a sensação que me invade quando coloco em ação um serviço ao próximo. E perdura em mim como um alento em todos os momentos seguintes, deixando em meu coração a certeza de estar no caminho certo!”. Quer ser voluntário ou conhecer um pouco mais sobre o Instituto História Viva? Então, acesse: www.historiaviva.org.br.
MEDINDO A FELICIDADE
Já ouviu falar da FIB? Esta sigla significa Felicidade Interna Bruta e implica na defesa de que o desenvolvimento humano de um povo se mede mais pela felicidade alcançada por ele do que pelos recursos econômicos gerados – mensurados pelo Produto Interno Bruto (PIB). Essa ideia foi criada em 1972, pelo rei do Butão, no Himalaia, Jigme Singye Wangchuck, com a defesa e compromisso de fazer uma economia que levasse em conta os valores culturais, baseada nos valores espirituais budistas. No Brasil, a FIB chegou em 2008, no município de Angatuba (PB), por meio do Instituto Visão Futuro, sob a coordenação da antropóloga norte-americana Susan Andrews.
Conheça as nove dimensões da FIB:
1. Bem-estar psicológico e espiritual – avalia a satisfação do indivíduo em relação à sua própria vida;
2. Saúde: avalia a eficácia do sistema de saúde desde a etapa preventiva;
3. Uso equilibrado do tempo: entender a necessidade de administrar o tempo – tempo de estudar, de trabalhar, de ter lazer etc.;
4. Vitalidade Comunitária: avalia a relação de pertencimento dentro das comunidades;
5. Educação: ultrapassar o sentido da educação como um processo formal e alcançá-la nas suas mais variadas formas (familiar, ambiental etc.);
6. Cultural: aprender a respeitar e valorizar a riqueza e o potencial da diversidade cultural e dos seus respectivos valores locais;
7. Meio ambiente: avalia a relação das pessoas com o meio ambiente e os recursos naturais e promove a reflexão sobre resiliência ecológica (resiliência = capacidade de autorregeneração);
8. Governança: promove a democracia e a cidadania, avalia a participação e o entendimento político das pessoas;
9. Padrão de vida: avalia a estrutura financeira das famílias e promove o entendimento sobre a aplicação e a qualidade necessária destes recursos para um padrão de vida digno.
Para saber mais sobre a FIB, acesse: www.felicidadeinternabruta.org.br.

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