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Filosofia Taoísta: a epifania do “chi”

Filosofia Taoísta: a epifania do “chi”

“Quem conhece os homens é inteligente.
Quem conhece a si mesmo é iluminado.
Vencer os homens é ter força.
Quem vence a si mesmo é forte.
Quem sabe contentar-se é rico.
Agir fortemente é ter vontade.
Quem não perde a sua residência, perdura, quem morre mas não perece, eterniza-se.”

(Lao-Tsé, Tao the Ching, XXXIII)

Por Juliana Fischer de Almeida*

O pensamento chinês, ao longo da história, se materializou em três grandes sistemas: confucionismo, taoísmo e budismo. Nos textos de Confúcio, de maneira superficial, a mensagem se baseia no respeito à tradição, na compreensão das leis e no cultivo da personalidade, sendo um código ético para o comportamento humano. O taoísmo e o Budismo podem ser considerados como “irmãos” no sentido de que ambos apresentam uma determinada maneira de viver e ver o mundo, contudo, no Budismo existe uma espécie de renúncia ao mundo, no taoísmo há um desfrute.
Além disso, a diferença consiste em que o Budismo “se move pela compaixão e o segundo pelo amor à harmonia. Sempre existiu entre eles esta diferença essencial: enquanto o budismo considera os sentidos como janelas que olham miragens e a irrealidade, para o taoísmo são portas pelas quais o espírito livre voa e mistura-se com os odores e formas do universo. ” (RACIONERO, p. 29, 2016).
Lao-tsé, considerado um dos maiores personagens da filosofia na China antiga, não é um nome próprio, mas significa “grande senhor” ou “velho mestre”. Seu nome real seria Li Er ou Lao Dan. De acordo com os estudiosos, viveu no séc. VI antes de Cristo e as duas grandes obras suas são “Tao de Ching” e “Tao de King”.
Tao significa caminho, um caminho que percorremos internamente, um caminho que a nossa consciência faz para tornar-nos mais lúcidos e transformar nossos atos externos. O Tao não pode ser compreendido apenas pela razão ou pela emoção, sendo que para apreender adequadamente seu conteúdo necessita-se de ambos, devendo compartilhar da liberdade de pensamento e do olhar para além dos limites ordinários das nossas crenças.
O Tao reflete uma polaridade paradoxal que se manifesta, por exemplo, “O Tao é ação expressada na não-ação. O Tao é a não-ação expressada na ação” (Lao-tsé) ou “O Tao é o caminho infinito que conduz ao Tao” (Lao-tsé). Nessa visão de mundo “[…] não existem dualismos. Criador e criação são uma mesma coisa. Bem e mal, são valores que a mente humana opõe a aspectos criadores e destruidores do universo. […]. A metáfora do taoísmo é a água, pois sempre se adapta.” (RACIONERO, p. 16, 2016). Assim, o que há no mundo não são dualidades, mas opostos que representam as polaridades da realidade, porquanto na dualidade existem coisas separadas e na polaridade são os extremos de uma mesma coisa. Isso significa dizer que o sentimento inefável da integração e da totalidade é percebido, a experiência harmônica entre a natureza e o ser humano é contemplada como uma dança das formas e sensações, implicando num modo de ver a vida conforme a pessoa a percebe de maneira intuitiva. Portanto: “Quando todo mundo conhece o belo como belo, eis o feio; quando todo mundo conhece o bem como bem, eis o mal; certamente, o não manifesto e o manifesto geram-se mutuamente; o fácil e o difícil se complementam entre si; o cumprido e o curto manifestam-se seu contrário; o alto e o baixo estabelecem-se medida mútua; a voz e o som harmonizam-se entre si, […]” (Tao de Ching, II).
Assim, se o Tao é o caminho, o que é Chi? O Chi “[…] é uma espécie de energia, uma substância fundamental constituinte de tudo o que existe no mundo físico. […]. O Chi é a linguagem ou a forma de expressão dos sentimentos […]” (RACIONERO, p. 59, 2016). Essa energia vital produz um movimento, gerando um equilíbrio que muda o tempo todo, e quem deseja captar o Chi deve penetrar nas profundezas de si e possuir o ritmo vital, sendo que um dos instrumentos é a meditação.
A manifestação do Chi pode ser compreendida como uma “energia cósmica que se irradia de todas as coisas, preenchendo o silêncio com a potência vital e com o vazio das vibrações amorosas. Os aromas adormecidos sugerem histórias inacabadas com emoções indefinidas. Na solidão sonora o canto dos pássaros noturnos se perde no silêncio.” (idem, p. 43).
Como o Chi é uma energia que emana de tudo, inexiste separação entre sujeito e objeto e como as rosas do jardim de Pan-yun-tuan, que só percebemos quando a mente se acalma e o espaço entre a rosa e a pessoa desaparecerá, o fenômeno da percepção entre o homem-rosa é percebido por si mesmo, sentindo o Chi passar. Essa é a mensagem que se propõe pelo método da sugestão na qual a filosofia taoísta trabalha. Desse modo a imaginação nos auxilia neste processo, pois “a definição é uma limitação, a beleza de uma nuvem ou uma flor está em seu desdobramento inconsciente.” (KAKUZO, 1970, p. 10).
A epifania do Chi acontece justamente quando tomamos consciência que o caminho a ser percorrido deve ser realizado por nós mesmos, que inexiste dualidades distintas entre as coisas, que é na compreensão da totalidade que reside a unidade de tudo e todos. Por meio de aforismos, Lao-tsé relega para a humanidade sua forma de ver e sentir o mundo, trazendo poeticamente profundos conhecimentos sobre a existência humana e sobre a metafísica do ser. Por fim, é pela integração e pelo inefável que encontramos o caminho na plenitude do retorno.

Referências:
KAKUZO, Okakura. The ideals of the East. New York: E. P. Dutton and Company, 1970;
LAO-TSÉ. Tao te Ching. Trad. Alfonso Colodrón. Madrid: EDAF, 2018;
RACIONERO, Luis. Textos de estética taoísta. Madrid: Alianza Editorial, 2016.

*Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUC-PR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

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