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Fora da caridade não há evolução

Uma das principais lições trazidas por Jesus Cristo, principalmente através de seu exemplo de vida e de uma série de parábolas por ele proferidas, é a necessidade da prática da caridade para o aperfeiçoamento moral e espiritual do ser humano. Tal virtude é um dos pilares da moral cristã, juntamente com o amor, a humildade e a justiça, devendo ser bem compreendida para que venha a ser praticada na medida exata.

Sabe-se que é apenas através da prática da caridade que os seres humanos poderão atingir um grau maior de conhecimento de si mesmos e da própria vida, e tal constatação é facilmente dedutível. Senão vejamos:

É certo que todos nós fomos criados em um mesmo grau de ingenuidade e ignorância, e que todos tendemos à perfectibilidade e à felicidade plena, as quais serão alcançadas gradativamente de acordo com o grau de depuração moral que tenhamos conseguido atingir.

A encarnação terrena serve justamente para que possamos pouco a pouco alcançar esse pleno desenvolvimento moral e isso se faz justamente através das interações sociais realizadas durante cada uma de nossas existências. Ora, se é certo que cada um de nós é um espírito com um dado grau evolutivo que está momentaneamente encarnado com vistas a superar certas imperfeições, cada qual com seus próprios gostos, suas tendências, seu histórico de vida, seus anseios, etc., é evidente que a melhor forma de compor essas relações sociais, dentro dessa complexa dinâmica é através da prática da caridade. A única forma de manter a harmonia entre elementos tão diversos é através de concessões e sacrifícios mútuos, os quais são alcançados justamente através da caridade.

Mas afinal, em que consiste a caridade?

A primeira impressão que pode nos vir à mente é que a caridade se consubstanciaria na doação de bens materiais aos menos favorecidos, especialmente em épocas festivas, tais como as festas de final de ano. Todavia, com o devido respeito, essa é uma visão caolha e deturpada de tão sublime virtude.

Segundo definição contida no Livro dos Espíritos[1], a verdadeira caridade, tal qual compreendida por Jesus, consiste na “benevolência com todos, indulgência com as imperfeições dos outros, e perdão das ofensas”. Vê-se, pois, que a caridade, quando praticada em sua integral acepção, é algo muito mais complexo do que a simples outorga de bens matérias aos financeiramente menos favorecidos. Muitas vezes estaremos fazendo um bem muito maior emitindo um bom pensamento para aqueles que necessitam, do que simplesmente distribuindo moedas nos semáforos.

Aliás, é certo que a simples doação de bens materiais, dependendo da forma como for realizada, pode, por vezes, ferir a dignidade da pessoa pretensamente beneficiada, causando-lhe ofensa ao invés de algum benefício. Aquele que tem uma verdadeira compreensão da caridade vai até os necessitados sem esperar que eles lhe estendam as mãos, e não mede esforços para tentar minimizar suas angústias.

O indivíduo realmente bom e caridoso tem uma plena concepção da indulgência, e não faz qualquer espécie de distinção no seu trato pessoal com seus semelhantes, sejam inferiores, iguais ou superiores. Ele sabe que muitas vezes o que as pessoas precisam não é necessariamente de bens materiais, mas sim de uma palavra de conforto, ou simplesmente um bom pensamento.

Certamente que há muito mais de caridade em dividirmos um pouco do nosso tempo com o próximo, do que simplesmente tirarmos a esmola do bolso de forma fria e impessoal.

A verdadeira caridade compreende também a indulgência para com os defeitos de nossos semelhantes, eis que não é dado a nenhum de nós julgar as limitações do outro, quando nós próprios temos limitações às vezes muito maiores. Ainda, perceba-se que o indivíduo realmente caridoso é doce e benevolente para com todos, não se exaltando ou se exasperando por quaisquer futilidades. Por fim, ao invés de menosprezar a ignorância e os vícios, procura instruir e moralizar todos aqueles que necessitam.

Importante atentarmos ao fato de que a prática da caridade deve ser absolutamente desinteressada, não devendo ser realizada em busca de reconhecimento ou graças futuras.

Feitos esses apontamentos, podemos perceber que a prática da caridade deve estar presente em todos os momentos de nossas vidas, seja no trato com nossos familiares, vizinhos, amigos, colegas de profissão, com os menos e com os mais favorecidos financeiramente. Todos, sem exceção, necessitam da caridade dos seus semelhantes, cada qual em uma diferente medida.

O que deve ficar bastante claro é que a caridade não deve ficar restrita ao plano teórico. Deve, sim, ser praticada à exaustão.

Evidentemente que muitos podem achar difícil a aplicação plena da caridade em seu dia-a-dia. Afinal, durante nossa trajetória terrena, diversos são os desafios que temos que superar e, quase que diariamente, nos deparamos com uma série de obstáculos que evidentemente devem ser suplantados. Sabemos, contudo, que é somente através da superação dessas adversidades que poderemos evoluir cada vez mais, daí porque serem necessários tais desafios..

Devemos perceber que a prática plena da caridade é um projeto que pode levar toda uma encarnação, ou até mesmo diversas delas. É importante buscarmos refletir e nos posicionar a fim de que possamos iniciar tal caminhada o quanto antes.

[1] Questão 886

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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