[kads group="topo-1"]


Grande montanha

Grande montanha

Por Eder Puchalski

O mundo é tão grande que pode parecer assustador. O mundo é tão barulhento que o silêncio, às vezes, parece a melhor forma de se proteger. O mundo chega a inibir pela sua grandiosidade e pela sua força, e o medo acaba por afastar o indivíduo da realidade, pela sua dificuldade de dar conta das diversas pressões que a vida impõe. Nessa caminhada, intensa e sempre contraditória, precisamos aprender a diferenciar o que são os projetos e o que é a própria vida, pois não se confundem.
Todos temos diversos projetos – seja um trabalho, uma empresa, um negócio, um curso, um relacionamento, uma viagem, etc. Mas nenhum desses projetos pode resumir a vida, porque nenhum deles pode ser maior que a própria vida. A vida engloba todos os projetos – os que pensei, os que quis, os que fiz, os que não fiz, os que pretendo fazer. Quando confundimos projeto com vida, corremos o grave risco de achar que a vida acabou quando um projeto não “deu certo”. Ou seja, ao confundir um com o outro, a vida fica diminuída e até anulada por apenas um projeto que não ocorreu como desejávamos. É como resumir o todo a uma parte, apenas. É como tentar reduzir tudo o que já aprendi (o passado), tudo o que estou vivendo (o presente), tudo o que irei viver (o futuro), a um pequeno momento, anulando um tempo imenso em um breve instante. Os projetos são menores, a vida é sempre maior. Os erros e os acertos são menores, a pessoa que tenta (o ser) é sempre maior. Nenhuma decepção pode ser maior que a continuidade do presente, da construção que o indivíduo segue realizando, dia a dia, na tentativa de conseguir novos olhares e novos momentos em sua trajetória de evolução.
As dúvidas e as dificuldades atingem a todos – sem exceções. E cada um no seu tempo, com as suas capacidades, está tentando enfrentar as angústias que preenchem o seu pensamento e o seu sentimento. Não há medicamentos e nem modelos de tratamento capazes de transformar esse cenário, só o que realmente existe é a liberdade e o agora. A possibilidade de decidir, agir e mudar, e o tempo presente para fazê-lo. Cabe à cada um buscar o autoconhecimento para entender os desafios que precisa superar e a direção para a qual deve seguir. Com coragem para olhar a si mesmo e fazer perguntas importantes, com ainda mais coragem para respondê-las com sinceridade, e com muito mais coragem para fazer as mudanças que perceber necessárias. Difícil, mas o único caminho verdadeiramente real.
Talvez o fato de o mundo ser tão grande tenha também a função de nos lembrar que nossas dores são pequenas, se comparadas ao infinito de possibilidades que a vida é. De forma poética, o filósofo alemão Immanuel Kant chamou a sensação de estar diante de uma imensa montanha de “sublime”, porque a grandiosidade da natureza despertaria no Ser Humano a consciência de que há um infinito que não conseguimos compreender, causando ao mesmo tempo espanto e encantamento, medo e admiração.
A vida é como a montanha cujo tamanho não conseguimos dimensionar, cujo fim não conseguimos ver, nem prever, muito menos definir. Diante das decepções, lembremos que elas são passageiras, enquanto a liberdade é permanente. Cabe a mim mesmo, de dentro para fora, romper com o medo para enxergar a beleza “sublime”; romper com a ideia de sofrimento, para começar a pensar pelo prisma do crescimento; aprender a não valorizar as dores, mas o conhecimento adquirido; a ressignificar o passado, para manter aberto o futuro; a esquecer o que não foi possível realizar, para priorizar o que ainda é possível aproveitar – o tempo presente. Tempo de continuar, tempo de tentar, tempo de buscar, tempo de crescer, tempo de viver. Tempo de admirar a grande montanha.

Eder Puchalski é historiador, roteirista, professor e coordenador do Museu Nacional do Espiritismo (Munespi).

Compartilhe: