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Heráclito e a dimensão infinita da alma

Heráclito e a dimensão infinita da alma

“Caminhando não encontrarás os limites da alma, mesmo se percorreres todas as estradas, pois é muito profundo o lógos que ela possui.” (Heráclito de Éfeso, frag. 45)

Por Juliana Fischer de Almeida

Heráclito de Éfeso viveu entre os séculos VI e V a. C., em Éfeso, sendo considerado um dos grandes filósofos pré-socráticos. Escreveu Sobre a Natureza que chegou até nós apenas fragmentos que constituem aforismos com sentenças oraculares. A sua ideia básica é encontrar o princípio pelo qual todas as coisas são organizadas, lógos, que se manifestam por meio de várias formas contraditórias, pois a unidade se encontra através do movimento.
Para Heráclito, “a natureza das coisas dependia do conflito entre opostos. O equilíbrio dependia do conflito, a unidade da pluralidade, a identidade da diferença, e vice-versa. O homem via as coisas óbvias, as diferenças, a mudança, a pluralidade; ele, Heráclito, via que há uma unidade subjacente, constância, e assim por diante, e que um conjunto de coisas e outros são mutuamente dependentes.” (HAMLYN, p. 20/21). Assim, chega-se ao devir como tudo aquilo que flui numa harmonia de contrários, nós somos e não somos ao mesmo tempo, porquanto para sermos em um momento preciso devemos não ser mais aquilo que éramos e para continuarmos sendo temos que permanentemente estar em movimento. Heráclito afirma: “eis as conjugações: inteiro não inteiro, concorde discorde, harmônico des-harmônico: e a partir de todas as coisas o uno e a partir do uno todas as coisas”. (HERÁCLITO, frag. 10).
A essência do Lógos é obscura e o segredo desta obscuridade não está na falta de conceitos, mas nela mesma e, segundo Heidegger, tal obscuridade é um “a se-pensar”. Isso significa dizer que na ordem cósmica o profundo faz ecoar na unidade entre divergentes, portanto o obscuro nada mais é que um incomparável brilho. Desse modo, é no sentido paradoxal dos aforismos que encontramos o mais belo despertar da alma para uma realidade múltipla. Nesse sentido, qual seria a dimensão infinita da alma?
A interpretação da alma, segundo Heráclito, é “[…] uma fresta em direção a algo ulterior e, portanto, não físico.” (REALE, ANTISERI, p. 24). A metáfora utilizada pelo filósofo para explicar a alma é a do fogo, pois “[…] permanece o mesmo, embora sujeito a mudanças constantes no brilho e na queima.” (HAMLYN, p. 22). A alma no humano, assim como as transformações no mundo físico – psysis -, comportam a transmutação entre estados opostos, e, cabe aos homens entender a linguagem da alma para se viver plenamente. Portanto, “mutações do fogo: em primeiro lugar mar, a metade dele terra, a metade vento ardente.” (HERÁCLITO, frag. 31).
Uma das mudanças mais significativas que ocorrem na alma é o advento da morte na qual se separa do corpo físico, retornando, possivelmente, ao ciclo cósmico como vapor e, em última instância, fogo como uma ambiguidade da condição de mortalidade-imortalidade. No fragmento a seguir, o filósofo diz: “imortais-mortais, mortais-imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles.” (HERÁCLITO, frag. 62). O humano é imortal, uma vez que após a morte seu cadáver como a terra e sua alma como vapor continuam a participar da mudança no Cosmos, ocorrendo a transformação daquilo que fica para aquilo que vai e/ou retorna ao universo.
A alma ultrapassa a dimensão do físico, pois não é perene e está suscetível a infinitas alterações seja enquanto mortal ou imortal, porquanto esse é o verdadeiro estado de todas as coisas existentes. No dinamismo da realidade e na implicação que isto acarreta na forma de entender a si e o mundo é que Heráclito deixa seu legado para a humanidade de que “tudo escorre” e que “descemos e não descemos no mesmo rio, nós mesmos somos e não somos.” (frag. 49).
Por fim, a dimensão infinita da alma se manifesta num incessante transcorrer daquilo que somos e é pela metamorfose propiciada pelo fogo que a inexistência do limite se impõe. É pelo Lógos pensado de forma não estática e sempre com caminhos a serem percorridos pela nossa alma que a infinitude se apresenta. Assim, a lógica dos contrários e o equilíbrio no conflito constituem a harmonia da existência.

 

Referências:
HAMLYN, D.W. Uma história da filosofia ocidental. Trad. Ruy Jungmann. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1990;
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia pagã e antiga. Vol.1. Trad. Ivo Storniolo. Paulus: São Paulo.2003.

Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

 

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