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Minha experiência no campo de refugiados

Certa vez, em abril de 2014, eu estava caminhando no Jardim Botânico de Curitiba (PR) e vi que tinha uma exposição do Médico Sem Fronteiras (MSF)*. Sempre fui simpatizante, já era doadora, mas conhecia o trabalho deles apenas pela TV e internet – aquelas coisas do tipo “ouvir falar”… Era, na verdade, uma simulação de um campo de refugiados. Entrei na fila e esperei a vez do meu grupo (tudo era muito bem organizado). Recebi um postal que continha a história de um personagem. Fui orientada que a partir daquele momento eu seria ela: Fatuma Badel, uma somali com 8 filhos. Tinham vários espaços de um campo de refugiados a serem visitados. Começamos simulando a nossa chegada a um deles. Mostraram-nos as barracas da ONU e as barracas improvisadas com galhos e folhas. O interessante é que vamos numa exposição dessas passando pelas “estações”, ouvindo como é lá na realidade, balançamos a cabeça e vamos ver a outra “estação”… afinal, aquilo tudo não está acontecendo conosco. É em algum lugar sei lá onde. Na África, talvez… afinal, lá tudo é assim. Eles sofrem mesmo…
Porém, o que o MSF fez foi magnífico. Para mim, uma das experiências mais fortes e significativas: quando paramos em frente à tenda fornecida pela ONU, a voluntária pediu que outro personagem contasse a sua história. Era um pai e uma filha que haviam chegado num campo de refugiados, e não tinha lugar. Fazia muito frio, era noite e precisavam ser recolhidos. Em uma tenda planejada para 4 pessoas, já tinham 13. Precisavam entrar mais 2. A voluntária repetia a história e todos nós, no piloto automático, apenas balançávamos a cabeça, aguardando a próxima parada. Ela repetia os números novamente. E nós ali, na mesma, parados, querendo ver logo tudo aquilo e voltar para as nossas vidas, nossas casas, afinal, era um domingo e domingo é dia de ir ao shopping, dia de aniversário, dia de almoçar fora, enfim dessas coisas. Ela, docemente, insistiu nos números e gentilmente pediu, então, que 13 de nós entrássemos naquela barraca onde cabiam apenas 4 pessoas. Ficamos estarrecidos e ao mesmo tempo queríamos ter aquela experiência. Com 5 lá dentro já foi ficando difícil. Quando chegamos no 13, ela solicitou que mais 2 entrassem, para reproduzimos a história tal como aconteceu. Estávamos apertadíssimos lá dentro. E isso tudo deve ter durado no máximo uns 3 minutos.
Então, a voluntária do MSF disse que era assim que eles viviam e sem perspectiva de reencontrar seus familiares que porventura tenham perdido durante a chegada até o campo, e sem perspectiva também de retorno pra lugar nenhum, pois seus países estavam em guerra. Naqueles menos de 3 minutos muitas coisas me passaram pela cabeça: ficar ali dentro por tempo indeterminado era a vida de muita gente e estava acontecendo com alguém, naquele momento, em algum lugar do mundo. Era a realidade… Nós só estávamos simulando… Ali dentro teriam 15 pessoas convivendo, administrando o desconforto total, o ar viciado, a facilidade de contágio de doença, a falta de privacidade, e com certeza, administrando também situações que nem poderíamos imaginar naquele momento.
Quando eu saí daquela barraca (é claro, eu entrei, eu quis passar pela experiência), percebi, ali mesmo, que aquilo que falam que temos muito mais a agradecer na nossa vida é a mais pura verdade. Basta estender o olhar…estender para fora do nosso umbigo!!!
Enfim, fomos para as outras estações, vimos como funcionam os banheiros, como fazem suas comidas, a vacinação, o atendimento aos desnutridos, o atendimento psicológico, o atendimento médico. Todos os que nos contaram sobre a dinâmica de um campo de refugiados são pessoas que já passaram por essa experiência no MSF. Foi uma experiência que eu sempre guardei com carinho, que eu sempre conto às pessoas quando posso, e que me sensibilizou. No final dessa simulação de estar dentro de um campo de refugiados, EU PUDE retornar para a minha casa.
Nem dois anos depois, notícias de refugiados de guerra chegam até nós: barcos lotados naufragando no Mar Mediterrâneo, pessoas se afogando, enfim, seres humanos fugindo do horror da guerra de seus países em busca de uma vida melhor. Quando escuto a palavra “refugiados”, lembro-me daquela breve, porém significativa experiência que tive naquela simulação num belíssimo ponto turístico de Curitiba, e que me marcou profundamente. Então, me vem em mente que milhares de pessoas ainda continuam com aquela vida, e pra pior…Pensar nisso dói, machuca, rasga por dentro… A dor culmina com a publicação da foto do garoto Aylan – o coração do pai de Aylan dói mil vezes mais. O coração do povo desesperado sírio que vive nessas condições de refugiados também dói. Outros povos que vivem assim também têm seus corações sangrando. E quando sangram, também dói…
Nós, brasileiros, somos feitos desses povos que têm seus corações doendo e sangrando. #somotodosimigrantes cabe bem para nós, pois nossos ascendentes fizeram talvez a mesma viagem, porém, com um desfecho diferente da viagem do garotinho Aylan. Sou Zattar, sou de descendência síria também. Qual foi a história da vinda da minha família para cá? Quantos Aylans? E quantos Aylans no Brasil e no mundo? Que diferença faz se é Brasil? Se é Síria? Somos todos do mesmo planeta, somos todos seres humanos vivendo no mesmo mundo, com sentimentos, com necessidades e uma capacidade infinita de amar! Só basta amar!

Ana Lucia Zattar Coelho
Professora de Educação Física e leitora do Portal SER Espírita

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