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Mudar de carreira: por que não?

Mudar de carreira: por que não?

Indecisões sobre qual carreira seguir ou dúvidas se a escolha foi acertada são cada vez mais comuns. E não há nada de mal nisso, pois mudar os rumos profissionais pode ser uma excelente decisão

Por Claudia Guadagnin – publicado na SER Espírita impressa n.28

Na questão 674, de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questiona seus mentores espirituais sobre a importância do trabalho para o indivíduo. Ele pergunta: “A necessidade do trabalho é uma lei da Natureza?”, e recebe como resposta: “Sim, e por isso mesmo é uma necessidade. A civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque aumenta suas necessidades e prazeres”. Mais adiante, pergunta: “Por que o trabalho é imposto ao homem?”. E tem a seguinte resposta: “É uma consequência da sua natureza corpórea. Uma expiação e ao mesmo tempo um meio de aperfeiçoar sua inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância intelectual; eis porque ele deve a alimentação, segurança e bem-estar à sua atividade”.
Junto com o desenvolvimento social, o trabalho ganhou ainda mais importância, mas seu excesso também é capaz de gerar insatisfação, estresse e outros males responsáveis por afligir corpo, alma e mente. Não são poucos os que se dizem insatisfeitos com os rumos profissionais que tomaram e decidem por uma revolução. Casos de pessoas que reúnem coragem, disposição e abrem mão da estabilidade financeira por um tempo a fim de buscar satisfação pessoal e profissional são cada vez mais frequentes.
Doutor em Física, Gabriel Guerrer, de 29 anos, é um exemplo de fidelidade à vocação. Munido de coragem, trocou um caminho que parecia financeiramente vantajoso para democratizar os conceitos da Física Quântica. Atualmente estuda as correlações da teoria com a experiência subjetiva e a conexão entre mente, matéria e espiritualidade.
Gabriel passou no curso de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ainda bem jovem, com 16 anos, enquanto cursava o segundo ano do Ensino Médio. Com 20 anos de idade se mudou de Curitiba (PR) para o Rio de Janeiro (RJ) para cursar mestrado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Com 25 anos já era doutor. Estudou a física das partículas elementares e, entre 2007 e 2008, foi um dos poucos brasileiros a trabalhar no acelerador de partículas LHC (CERN, em Genebra, na Suíça). No laboratório de 27 quilômetros de extensão construído a 100 metros de profundidade, cientistas tentaram recriar condições próximas às do Big Bang, a grande explosão que deu origem ao Universo, segundo as teorias atualmente mais aceitas. “Soube da construção do acelerador e percebi que o desenvolvimento daquele fascinante monstro tecnológico estava alinhado cronologicamente à minha jornada. Senti uma força me direcionando para aquela experiência, que foi emocionante. Um sonho que virou realidade”.
Algum tempo depois, Gabriel sentiu que o tempo de viver aquela etapa havia chegado ao fim. “Embora tenha sido um processo maravilhoso, estava distante da minha paixão e motivação iniciais com relação à Física e um entendimento mais amplo dos mistérios do Universo. O que havia aprendido até então, a linguagem matemática, a forma racional e pragmática de pensar, não estava me preenchendo existencialmente. Sentia uma angústia e sabia que existia outro caminho, outra possibilidade. Parecia um ato de loucura naquele momento, mas dei voz a uma profunda intuição: preciso romper com a trajetória acadêmica”, lembra.
Gabriel voltou ao Brasil em 2008 decidido a buscar novos rumos. Quando defendeu a tese de doutorado, em 2009, seu orientador perguntou o que ele pretendia fazer. “Não tinha a menor ideia, então, ele sugeriu que eu fosse trabalhar em uma empresa do mercado financeiro, no Rio de Janeiro. Passei pelas entrevistas e fui aceito”. Gabriel dedicava horas do dia a um ambiente bastante competitivo. “Senti o mal cristalizado nas ambições e na busca de poder das grandes corporações. Foi um ano difícil, mas de um importante aprendizado: vi o que eu não queria viver”. Foi então que ele decidiu fazer o que poucos teriam coragem: comprou um Fusca ano 74 e iniciou um novo e desafiante caminho. Sozinho, viajou por onze meses pelo Brasil e conheceu uma centena de cidades. “Vejo agora que a viagem foi uma pós-graduação prática em percepção subjetiva dos conceitos da Física Quântica”, reflete. Hoje, ele ministra cursos do assunto para curiosos e garante: “Sinto que estou no lugar certo, usando o melhor do que tenho para fazer o que devo. Sinto-me inspirado. Meu desafio é dar ao mundo o que eu mais gosto de receber: a sensação do fascínio em torno da misteriosa experiência de ser”.
Izabele Kutz, psicóloga e especialista em orientação profissional, trabalha há mais de seis anos como coach (palavra inglesa que significa “treinadora”), descobrindo potencialidades e limitações de indivíduos que desejam melhorar o desempenho no trabalho ou conhecer-se para identificar vocações e conquistar uma atividade que o faça feliz. Segundo ela, se desejarem, todas as pessoas são capazes de mudar. “O principal diferencial de quem procura o coaching (treinamento) é a vontade de crescer e aprender. Depois do processo, a pessoa tem um diferencial a seu favor, que é o autoconhecimento e a consciência de si, de seu potencial e pontos de atenção. Assim, qualquer mudança torna-se muito mais fácil”, indica.
Izabele tem como foco o coaching executivo, voltado a quem trabalha em empresas, mas também atende pessoas que a procuram para definição ou mudança de carreira, e interessados em desenvolvimento pessoal. “Por 20 anos trabalhei em grandes corporações e multinacionais, mas me inquietava o fato de eu achar que não usava meus melhores talentos na profissão”, comenta. Então, em 2008 Izabele encerrou esta etapa – que considera importante, pois lhe deu bagagem para entender os conflitos e situações que os profissionais trazem. “Vivi na pele as dificuldades que eles vivem. Hoje, vejo que a escolha de me tornar coaching foi acertada e me sinto realizada, cumprindo minha missão de vida. Entender nossos valores é essencial, assim como saber o que te move, o que se busca da vida”, diz ela.

NUNCA É TARDE

O psicoterapeuta Daniel Rezinovsky reforça a importância de se estar atento às oportunidades oferecidas pela vida e garante: nunca é cedo ou tarde para isso. “Mais importante do que escolher uma profissão, num sentido formal, é perceber as intuições que nos direcionam para determinada vocação. E isso apenas surge quando se está atento a vivências que estão fora das expectativas da família ou dos amigos, por exemplo. Temos um excesso de profissionais e uma grande falta de pessoas que seguem sua paixão, sua voz interior. É disso que precisamos hoje”, indica.
Segundo ele, os jovens precisam se tornar conscientes, o mais cedo possível, de que devem ouvir a si mesmos, seguir o que realmente sentem e vivenciar o impacto de suas decisões para, gradualmente, se aproximarem de um caminho que seja realmente seu. “Os pais devem perceber que não podem esperar atitudes adultas se seguem tratando os adolescentes como crianças. Eles devem ter uma experiência de vida mais plena, um contato maior com o mundo. Precisam ser encorajados a explorar seus interesses de modo livre, participando de cursos, frequentando palestras e dialogando com pessoas de outras áreas.
Para o psicoterapeuta, conflitos envolvendo decisões sobre mudanças de carreiras podem acontecer em qualquer fase da vida. Mas, se bem administrados, são saudáveis. “O que surge nesses momentos é um impulso muito intenso de autenticidade, para podermos viver uma vida que seja genuinamente nossa. Então, a angústia se torna uma espécie de bênção, pois é o reflexo de um radar interno, que nos indica que o curso atual de nossas vidas está nos levando cada vez para mais longe do nosso ideal, do nosso destino”, orienta. Segundo ele, a decisão de interromper os estudos e o trabalho quando eles não satisfazem mais depende de cada indivíduo, de suas condições e possibilidades, mas precisa ser considerada.

 

 

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