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Nosso Lar mostra experiências que transformam

Nosso Lar mostra experiências que transformam

Por Mara Andrich

Publicado na revista SER Espírita – edição 10

Por mais que as pessoas não acreditem em vida após o desencarne, a curiosidade sobre o que ocorre depois da passagem faz parte do imaginário da maioria. Para os espíritas, a qualidade dos pensamentos e das ações desenvolvidas no plano material (no nosso caso, na Terra) é determinante para o porvir. E é isso que o filme Nosso Lar, clássico do cinema espírita, traz.
Prova da curiosidade é que o longa, dirigido por Wagner de Assis, levou dois milhões de espectadores ao cinema em menos de um mês, e pouco mais de um milhão em apenas cinco dias em cartaz, batendo outros filmes nacionais, como Se Eu Fosse Você 2 (que levou aos cinemas, em seis dias, o mesmo número de pessoas, e era o primeiro colocado em bilheteria). Com seus efeitos especiais produzidos por especialistas renomados (os mesmos dos filmes Watchmen e O Dia Depois de Amanhã), a história de André Luiz emociona não só pela beleza e tecnologia da “cidade dos espíritos” denominada de Nosso Lar, mas também pelos valores positivos que passa para toda a humanidade.
André Luiz foi um médico casado, pai de dois filhos, que viveu no Rio de Janeiro no início do século XX. Ele cometeu alguns erros ao longo de sua vida e, após o desencarne, permaneceu anos em um local onde ficariam os espíritos menos evoluídos (chamado por muitas pessoas de Umbral). Algum tempo depois ele se arrepende e evolui, e com seu livre-arbítrio se torna um homem bom e humilde. A história foi ditada por ele mesmo ao médium brasileiro Chico Xavier. Com a sua capacidade de psicografar e orientado pelo mentor Emmanuel – que também é personagem do filme – Chico escreveu como a vida se desenrola no plano espiritual de maneira emocionante. Mostrou que há vida após a vida, e que isso é fundamental para a evolução dos seres.
A ideia de produzir um filme sobre o livro Nosso Lar surgiu em 2005, segundo Wagner de Assis. O roteiro começou a ser produzido em novembro de 2008 e as filmagens terminaram em setembro do mesmo ano. A pós-produção foi realizada em julho deste ano. O longa custou R$ 20 milhões, o filme nacional mais caro até hoje, e está sendo exibido em 443 salas do país. Assis conta que o objetivo é falar a todos os públicos, sendo o mais fiel possível à essência da obra. “Buscamos excelência em qualidade para que isso se transforme em abrangência de público e, claro, quem sabe, para que muitas outras pessoas possam ponderar e despertar para esse tema”, acrescenta.
Na opinião do diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Antônio Perri, o filme (e o livro) tem o mérito de expor os valores do Espiritismo ao grande público, e de maneira acessível. “Eles são instrumentos para a contribuição para a compreensão do mundo espiritual e, sem dúvida, para a difusão das ideias espíritas em uma linguagem compreensível. Tudo isso com os efeitos especiais, que também contribuem para a montagem das cenas e para a técnica e beleza do filme”, afirma Perri

COMO SERÁ DO OUTRO LADO?
O livro Nosso Lar foi escrito em 1944. Algumas vertentes do Espiritismo o consideram histórico, e não um referencial exato que mostre o outro lado fielmente, necessitando de contextualizações nos dias de hoje. Outras linhas creem que a vida pós-desencarne é exatamente como a obra Nosso Lar relata.
Discordâncias à parte, o fato é que a história do médico que cometeu erros durante sua vida e que, segundo o livro, acabou sofrendo as consequências do seu livre-arbítrio é uma das mais vendidas dentro da literatura espírita brasileira. “Essa obra literária é um legado para a humanidade. Mostra a transformação de um homem pelo arrependimento, pelos ensinamentos, pelo perdão”, analisa Wagner de Assis.
Segundo André Luiz no livro Nosso Lar, depois que desencarnam os espíritos passam a viver em colônias. No Nosso Lar, a estrutura de funcionamento é bastante similar a da Terra: os espíritos desencarnados comem, bebem, se deslocam de um local a outro em veículos bastante desenvolvidos e, ainda, obedecem às regras assim como quando encarnados. Um dos pontos polêmicos é a questão dos bônus, que seriam típicos do sistema materialista. Outros pontos também geram discussão entre os espíritas, entre eles, as dúvidas sobre a existência do Umbral ou das colônias espíritas, por exemplo (que trazem uma espécie de hierarquia); ou mesmo a ideia de que os espíritos mais evoluídos estão em uma região localizada acima da Terra, e os menos, na crosta. Outro destaque no livro que chama a atenção é uma espécie de machismo no mundo espiritual, onde as mulheres desenvolvem determinadas tarefas diferentes dos homens (isso está mais explícito no livro, e não no filme). A professora de Hermenêutica e Fotografia no Cinema, psicóloga e publicitária, Janaina Merhy, analisa que apesar das polêmicas que o livro traz, ele nunca perderá a sua importância para a sociedade. “O livro Nosso Lar foi produzido dentro do contexto da época, é um livro histórico e necessita de contextualização nos dias de hoje”, afirma. Para ela, um dos pontos que chama a atenção é justamente a hierarquia. “Não seria um conceito adequado no mundo espiritual, pois implica em dominação e dominados, pessoas superiores e inferiores”, comenta. Porém, sabe-se que o autor do livro usou de ferramentas para que o público entendesse, da maneira mais clara possível, o que se passa do outro lado. Portanto, é possível ter espírito crítico e imaginar que possa existir algo mais. “Em nenhum
momento ele afirma que é verdade, são estratégias discursivas conhecidas para que as pessoas não se assustem e entendam a mensagem”, diz.
Sobre o Umbral, a professora analisa que esse local para onde iriam os espíritos menos evoluídos foge um pouco da lógica do Espiritismo nos dias de hoje. “O Espiritismo ensina que as pessoas devem ser felizes, que evoluímos através da dor ou do amor, ou pelos dois, então não há lógica no Umbral. Eu não acredito que exista um local para purificação, de transição”, avalia. O significado da palavra “Umbral” é “limiar, entrada”. Então, se levar isso em conta, chega-se à conclusão de que todos vão passar pelo Umbral antes de chegar ao Nosso Lar, mas a própria obra relata que não é assim, que somente os espíritos menos evoluídos é que passam por lá antes de chegarem a locais mais desenvolvidos.

MENSAGEM POSITIVA
Todos vão desencarnar. E só se saberá exatamente o que ocorre do outro lado quando isso acontecer. Fora isso, o que se sabe são as informações trazidas por espíritos orientadores. E somente isso. Mas, por mais que haja dúvidas, os pontos trazidos pelo Nosso Lar são alentadores e mostram o que a Doutrina Espírita aponta como mais importante, como diz o próprio Wagner de Assis: perdão, reforma íntima, amor como ferramenta de libertação dos homens, a força do arrependimento.
Para Janaina, um dos grandes méritos da obra é mostrar que nada de extraordinário ocorre após o desencarne, que as pessoas permanecem na mesma frequência em que estavam quando encarnadas. E está aí a importância dos pensamentos e atos de cada ser humano. “Outro ponto positivo é que a história mostra a importância de vivermos a moral cristã, o perdão, e que isso está no processo de reencarnação”, afirma. “De resto, é preciso sempre ver uma obra literária com espírito crítico e evitar o dogmatismo. Independentemente de qualquer coisa, a obra nos ajuda a ter esse espírito crítico, a ter uma perspectiva maior da vida”, afirma a professora.
Outro aspecto a ser levado em conta é o alento que Nosso Lar traz para a maioria das pessoas. “Por que será que as pessoas querem tanto saber o que ocorre após o desencarne? Acredito que isso seja fruto de uma insegurança. Três dificuldades devem ser superadas: a morte, a insegurança e a solidão. A obra traz certa segurança”, avalia Janaina. O livro Nosso Lar já vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares. Os direitos autorais foram doados por Chico Xavier.

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