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O amor de si em Rousseau – Descoberta e esquecimento de si

O amor de si em Rousseau – Descoberta e esquecimento de si

 

A fonte de nossas paixões, a origem e o princípio de todas as outras, a única que nasce com o homem e nunca o abandona enquanto ele vive, é o amor de si; paixão primitiva, inata, anterior a todas as outras e de que todas as outras não passam, em certo sentido, de modificações. (ROUSSEAU).

Por Juliana Fischer de Almeida*

Jean-Jacques Rousseau desenvolve sua teoria filosófica sobre a temática do amor de si como uma orientação visando o bem da humanidade, como uma disposição naturalmente benigna, uma manifestação individual da percepção consciente, regulando sua conduta e o controle dos impulsos nocivos à sua conservação. Num primeiro momento, como uma extensão do “eu” para os outros, traz consigo um temperamento único, que o individualiza em relação aos demais da sua espécie.
É pela individualidade que o homem natural possui, em potência, as características universais da natureza humana, colocando “o outro antes do eu, e uma concepção da humanidade que, antes dos homens, afirma a vida” (LÉVI-STRAUSS, 1993, p. 45). O conhecimento sobre o “eu” não é desvinculado do meio no qual se vive, e é na relação com os outros que se constituem, portanto, natureza e sociedade, que são partes integrantes do processo de formação de uma consciência sobre a existência.
Com a formulação da existência que leva a uma existência coletiva, o ser humano se desenvolve a partir da cultura, como efeito do processo de desnaturação. O natural não equivale a uma negação total da cultura, podendo aquele ser reproduzido no mundo deste, por meio da naturalização da cultura — uma aproximação do indivíduo com a natureza, combinando o desenvolvimento da personalidade e o envolvimento com o outro, com a mínima perda da autenticidade, proporcionando à natureza humana uma realização completa.
Segundo o filósofo, o sentimento é a fonte mais próxima das relações do homem com seu meio, que, além de produzir o conhecimento, conduz a existência. A essência do “eu” reside no querer, uma vez que é só pelo sentimento que se revela a profundidade do sentimento de si, é a fonte primitiva do “eu”, lugar onde reside a consciência e a forma pela qual se age sem julgamentos ou interesses diversos da voz da consciência.
O amor de si, exposto por Rousseau, sustenta que a origem do autoconhecimento está vinculada ao sentimento, pois é o critério para se aferir a capacidade de sentirmos a voz da natureza, entrar em contato com o imediato e zelar por nós mesmos, denominando-se de paixão primitiva. Contudo, esse amor que temos por nós, e que deve ser maior do que qualquer outro, não se vincula à ideia de um egoísmo ou de um não olhar para o outro, porquanto a noção aqui construída é a de que há uma conjugação entre o bem de si e o bem pelo outro — é um bem querer.
É no “eu” que o homem se reencontra, libertando-se da aparência em busca da sua personalidade original; pela descoberta do “eu” o indivíduo se esquece de si, pois “o eu aliviado pelo esquecimento de seu destino torna-se capaz de uma expansão que pode exaltar-se até os últimos limites” (STAROBINSKI, 2011, p. 115). O imediato transforma o “eu” em transparência, sendo a forma de se relacionar com sua consciência, uma vez que não há mais separação entre o que se foi e o que se é; no imediato, o presente comanda.
O tempo presente e a interioridade são referências para a construção deste homem que se utiliza do sentimento, sendo o amor de si uma paixão primitiva que tem como intuito de nos conservar, traçando uma relação com outro no sentido de conjugar o bem de si e o bem pelo outro. O amor de si conjuga uma identificação da humanidade pelos humanos.
Por fim, o amor de si perfaz um reconhecimento do “eu” e do pertencimento ao natural, proporcionando um esquecimento se si. O aparente paradoxo, revela o sentido do movimento da existência rumo ao amor à humanidade que brota dos corações abertos para os sentimentos e conectados com a transparência do existir. O “eu” desvela-se e torna-se integrado pela sua relação com meio e com os outros, possibilitando uma expansão metafísica do seu Ser que se conscientiza da grande Ordem que rege o mundo.

O presente texto foi inspirado em parte da dissertação de mestrado “SOLIDÃO E CIDADANIA: NATUREZA E REPUBLICANISMO EM ROUSSEAU” da autora.

* Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUC-PR. Atualmente, é pesquisadora do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná, que compõe o Núcleo de Pesquisa em Direito e Política (DIRPOL) e o Centro de Estudos da Constituição – CCONS.

 

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