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O Homem Simbólico

O Homem Simbólico

“O homem está sempre inclinado a considerar este pequeno círculo em que vive como centro do mundo, e a fazer de sua vida particular, privada, o padrão do universo. Mas deve renunciar essa vã pretensão, essa maneira medíocre e provinciana de pensar e julgar.” (CASSIRER)

Por Juliana Fischer de Almeida

Ernest Cassirer, filósofo e antropólogo alemão do século XX, teve seu reconhecimento enquanto pensador pelo seu profundo estudo sobre a filosofia das formas simbólicas, impregnado de um racionalismo no qual estende a problemática kantiana às formas simbólicas como o campo das produções constitutivas da cultura. Dentre as principais formas simbólicas do empreendimento humano estão a linguagem, o mito, a arte, a religião, a história e a ciência. Cassirer entende que o homem com sua capacidade de usar a mente pode corajosamente solucionar os problemas tidos como humanos. Para ele a incerteza propicia ao homem a oportunidade de voltar-se para o seu próprio ser, gerando assim o autoconhecimento, que é o primeiro requisito para a autorrealização lembrando dessa forma os dizeres de Montaigne – “a coisa mais importante no mundo é saber sobre si”. Assim, o que seria o homem simbólico?
Simbolizar significa representar ou figurar , ou seja, aproxima objetos e ideias. O símbolo surge como estruturação das relações do homem com o mundo. O homem, segundo Cassirer, distingue-se dos outros animais pela sua atitude simbólica, na qual o objeto é designado através do símbolo e sua criação origina o mundo da cultura.
De acordo com o filósofo “o homem não pode fugir à sua própria realização. Não pode senão adotar as condições de sua própria vida. Não estando mais num universo meramente físico, o homem vive em um universo simbólico.” (2005, p. 48). Como a realidade não é a meramente física, o homem avança em sua atividade simbólica, conversando constantemente consigo mesmo. A concepção do conhecimento é inerente ao ser humano que por natureza deseja conhecer e a indagação faz parte do mundo humano, devendo, o homem, ser estudado como ser político e social, porque o que se deseja é conhecer o sujeito no sentido de humanidade, ou seja, o homem pela humidade; portanto, conhecer a si mesmo.
Para Cassirer, a característica destacada do homem, sua marca distintiva é o seu trabalho, isto é, “o sistema das atividades humanas que define e determina o círculo da humanidade. Linguagem, mito, religião, arte, ciência e história são os constituintes, os vários vetores desse círculo, uma filosofia do homem seria portanto uma filosofia que nos proporcionasse uma compreensão da estrutura fundamental de cada uma dessas atividades humanas […].” (idem, p.115).
A filosofia da cultura apresenta o símbolo e a função simbólica, enquanto as aspirações mais profundas do homem, que, inquieto, tem uma vida cheia de anseios e nunca está satisfeito, querendo sempre superar seus limites, transcender-se, ultrapassar suas próprias criações. Com efeito, muito antes do homem se organizar socialmente ele buscou se organizar no tocante aos sentimentos, desejos e pensamentos através da linguagem, do mito, da religião e nas artes, o que permitiu o desenvolvimento de uma teoria do homem.
A linguagem, o mito e a religião estão unidos por um vínculo comum – vincunlum functionale – portanto, é a função básica da fala, do mito, da arte e da religião que se deve buscar por trás de suas inumeráveis formas e expressões sem menosprezar as possíveis fontes de informações. Os estudos sociológicos, antropológicos e históricos das sociedades primitivas são de fundamental importância para apreender os princípios estruturais gerais subjacentes no estudo da linguagem, da arte e do mito. Com efeito, é sabido que na experiência humana não há harmonia nas atividades constituintes do mundo na cultura, o que se percebe é um atrito entre forças conflitantes, por exemplo, o pensamento científico contradiz e suprime o pensamento mítico. No que se refere à religião, o mais alto desenvolvimento teórico e ético se vê na necessidade de defender a pureza de seu próprio ideal contra as fantasias extravagantes do mito ou da arte.
A cultura humana está divida em muitas atividades que procedem segundo linhas diferentes e perseguem fins diversos. O termo humanidade quer dizer alguma coisa a despeito de todas as diferenças e oposições. Em longo prazo poderá se encontrar um traço destacado, um caráter universal sobre o qual todos concordam e se harmonizam. Na atualidade os mitos, a religião, a arte, a linguagem e a ciência são vistos como formas diversas de um tema comum.
Assim, “a cultura humana pode ser descrita como o processo da progressiva autolibertação do homem. A linguagem, a arte, a religião e a ciência são várias fases desse processo. Em todas elas o homem descobre e experimenta um novo poder – o poder de construir um mundo só dele, um mundo ideal.” (ibidem, p. 371). Portanto, o homem por meio das formas simbólicas é capaz de criar e dar sentido a sua existência, buscando se autoconhecer e se reconhecer na expressividade da multiplicidade dos símbolos. Novos horizontes sempre se abrem para serem explorados e experenciados, encarando a vida como uma harmonia entre contrários.

REFERÊNCIAS
CASSIRER E. Ensaio sobre o Homem. Trad. Tomás Rosa Bueno. Martins Fontes: São Paulo, 2005.

Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, é integrante do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

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