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O nascimento da filosofia

O nascimento da filosofia

Por Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná.

 

À estirpe dos deuses, entretanto, não é permitido chegar a quem não tenha cultivado a filosofia e não se tenha desligado do corpo em situação de total pureza, pois concede-se essa permissão apenas àquele que foi amante do saber. (PLATÃO, Fédon)

Entre o séc. VII e início do século VI a.C. a Grécia possuía condições cultural, espiritual e política favoráveis ao surgimento da filosofia. O mundo helênico, como era denominada, “[…] buscou alimento espiritual de modo predominante nos poemas homéricos, ou seja, na Ilíada e na Odisséia […].” (REALE e ANTISERI 2007, p. 6).
O poeta Homero, séc. VIII a.C, não se limitava a narrar fatos, pesquisava suas causas numa instância mitológica, buscando apresentar a realidade em sua totalidade. A obra Ilíada “[..] fala-nos de um mundo situado num tempo em que domina exclusivamente o espírito heroico da areté, e corporifica esse ideal em todos os seus heróis. Junta numa unidade ideal indissolúvel a imagem dos antigos heróis, transmitida pelas sagas e incorporada aos cantos, e as tradições vivas da aristocracia do seu tempo, que já conhece a vida organizada da cidade […].” (JAEGER, 2013, p.39). Assim, sua primeira obra apresenta a história dos acontecimentos ocorridos no último ano da Guerra de Troia, trazendo a reflexão sobre heroísmo grego e a formação da estrutura social do país.
Por sua vez, em Odisséia, Homero dá sequência à Ilíada contando o retorno de um guerreiro veterano após uma viagem que durou 20 anos. Essa obra “[…] oferece-nos outro quadro. O motivo do regresso do herói, o nostos, que se liga a uma vida tão natural à guerra de Troia, conduz a representação intuitiva e a terna descrição da sua vida em paz. […]. Quando a Odisséia pinta a existência de um herói depois da guerra, as suas viagens aventurosas e a sua vida caseira com família e os amigos, inspira-se na vida real dos nobres do seu tempo e projeta-a com ingênua vivacidade numa época mais primitiva. Ela é, deste modo, a nossa fonte principal para conhecermos a situação da antiga cultura aristocrática.” (idem, p.40). Desta feita, a epopeia apresenta o elemento cultural um pouco distinto da Ilíada, todavia ambas se complementam e formam o pensamento homérico da formação do mundo helênico.
Outro poeta importante foi Hesíodo, sec. VIII a.C, que em Teogonia explicou como muitos deuses nasceram e como isso coincidiu com as partes do Universo e do Cosmo, dando origem a cosmogonia. Por meio da interpretação mítica-poética a gênese do universo e dos fenômenos cósmicos é exposta. A Teogonia foi a cartilha na qual os gregos aprendiam a pensar, a entender o mundo e a reverenciar o poder dos deuses. No poema As obras e os dias ficou impresso na mentalidade grega os princípios que constituem a ética filosófica e o pensamento filosófico antigo, elegendo a justiça como valor supremo. Para muitos, o referido poema se tornou um conceito ontológico – referente ao ser – moral e político.
No que tange a religiosidade grega, esta era formada por duas religiões: a pública, inspirada em Homero e Hesíodo, e, a órfica, baseada no poeta trácio Orfeu. Na religião pública todos os acontecimentos eram explicados pela intervenção dos deuses, como por exemplo: os fenômenos naturais eram arremessados por Zeus do alto do Olimpo; as ondas do mar eram provocadas pelo tridente de Poseidon; o sol era levado pelo áureo carro de Apolo, e assim por diante. Portanto, a religião pública considerava os deuses como forças naturais ampliadas e sublimadas e os homens como mortais.
Por seu turno, a religião Órfica, “[…] proclama a imortalidade da alma concebe o homem conforme o esquema dualista que contrapõe corpo à alma.” (REALE e ANTISERI 2007, p. 9). Em síntese, os órficos acreditavam que no homem reside uma alma que caiu em um corpo por causa de uma culpa originaria, sendo que tal alma preexiste ao corpo e não morre com o corpo, destinada a reencarnar em corpos sucessivos para expiar a culpa originária. Os ritos e as práticas órficas põem um ponto final nas reencarnações, libertando a alma do corpo. Para os Órficos o destino último do homem é o de “voltar a estar junto aos deuses.” Com tal crença o homem viu, pela primeira vez, o contraste e a luta entre a alma e o corpo, rompendo a visão da religião pública.
Convém lembrar que os gregos não tinham livro sagrado, não eram dogmáticos, contribuindo para a liberdade do pensamento que a filosofia necessita.
No tocante as condições sociopolíticas-econômicas, “a Grécia sofreu uma transformação socioeconômica considerável. Deixou de ser um país predominantemente agrícola, desenvolvendo a forma sempre crescente o artesanato e o comércio. Assim, tornou-se necessário fundar centros de distribuição comercial […]. As cidades tornaram-se florescentes centros comerciais, acarretando forte crescimento demográfico.” (ibidem, p. 10). Na esfera política, o homem grego se confundia com a figura do cidadão, fazendo com que o fim e o bem do Estado fossem seu próprio, bem como a liberdade. Isto posto, observa-se que os gregos desenvolveram o senso de pertença a Cidade.
Diante do exposto, os elementos necessários para o florescimento da filosofia estavam postos, permitindo que a reflexão do homem sobre si mesmo fosse viável e pertinente, maravilhando-se diante do que é mais prosaico e sublime na vida.

Referências:
MONDOLFO, Rodolfo, O Pensamento Antigo História da Filosofia Greco-Romana. Trad. Lycurgo Gomes da Motta. Mestre Jou: São Paulo, 1971.

REALE Giovanni e ANTISERI Dario. História da filosofia pagã antiga. Vol.1. Trad. Ivo Storniolo. Paulus: São Paulo, 2003.

JAEGER W. Paideia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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