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O que fazer antes de partir?

O que fazer antes de partir?

Por Mara Andrich – publicado na SER Espírita impressa n.25

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A pedagoga e coordenadora de grupos de estudos espíritas Sueli Rehlander teve três filhas. Duas delas – uma com 17 e outra com 22 anos – desencarnaram após um acidente de carro no ano de 1990, em Curitiba (PR). Naquela época, o sofrimento inevitável para a família foi amenizado com os ensinamentos da Doutrina Espírita. “Claro que questionamos tudo quando alguém desencarna, claro que sofremos muito. Mas o fato de não querer que elas sofressem o processo da dor era maior do que isso. Dentro da família, um deu sustentação ao outro. E eu e meu marido levamos para todos o entendimento de que a vida não acaba, o entendimento a respeito do processo da reencarnação”, relembrou.
Hoje, passados 23 anos do desencarne das duas meninas, Sueli afirma que aprendeu e continua aprendendo muito com o Espiritismo. Que sabe exatamente o que deve fazer para ser feliz e ter a certeza do dever cumprido enquanto espírito encarnado. Acredita que já evoluiu muito sendo uma boa mãe, sendo alegre e positiva e ajudando o próximo com trabalho voluntário. Mas diz que ainda lhe falta uma coisa: ter mais paciência. Uma paciência crítica, reflexiva, algo que vai além de ser uma pessoa boa, que vai além do mero revidar. Uma paciência que procura entender o outro, entender porque a pessoa está lhe tirando essa tão buscada paciência. “É uma paciência que eu vou exercitar. Vou buscar me autoconhecer, conhecer este momento de impaciência, aprender a ser mais tolerante, ter mais equilíbrio entre corpo e espírito e, assim, começar a amar o próximo, saber quem ele é de verdade. Só assim vou conseguir ter essa paciência reflexiva com o meu próximo”, avalia.
Mas, se para Sueli a paciência é algo imprescindível para viver e também para compreender o desencarne, na opinião do diretor de Comunicação e Marketing da Federação Espírita Brasileira (FEB), Carlos Campetti, nada traz mais paz de consciência e prepara as pessoas para a vida do que a sensação de dever cumprido, o que se consegue com a promoção do bem ao próximo, com a compreensão e o entendimento entre as pessoas. “Especialmente nos dias de hoje, quando recrudesce em nossa sociedade a violência em função das disputas por posses, a compreensão das dores do próximo é imprescindível”, afirma Campetti, lembrando do Capítulo 10 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que fala sobre a indulgência, que “acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita”. Se viver é tão difícil nos dias de hoje, frente aos desafios do cotidiano, a preparação para a morte, então, torna-se algo ainda mais incomum na cultura ocidental.
Lamentavelmente, como avalia o diretor do Departamento de Doutrina da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP), Paulo Ribeiro, pois “se não sabemos como é morrer com educação, podemos pelo menos morrer em paz, sem grandes perturbações, se nos preparamos enquanto estivermos vivos”, brinca ele. Ribeiro lembra ainda que a preocupação com o desencarne é necessária. “O essencial é estarmos cientes que isto irá acontecer com todos nós, embora não devamos viver preocupados com isso, mas também não podemos ignorar”, observa. “Não somos humanos vivendo uma experiência espiritual, mas espíritos vivendo uma experiência
humana”, lembra.
E o desencarne – ou morte, como é mais comum a descrição da falência do corpo físico – é certo. Todos “estão na fila do desencarne”, como bem alerta o espírito Leocádio José Correia, um dos orientadores da SER Espírita, em mensagens psicografadas pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Para Ribeiro, ter fé no amor e na justiça de Deus, estar ciente de que a vida continua após o desencarne – e de que os espíritos continuam os mesmos após a passagem para o polissistema espiritual –, respeitar as diferenças e aceitar os anseios em relação às mudanças necessárias são fundamentais para “fazer a diferença” após o desencarne e também durante a vida na Terra. “Viver em paz, não guardar mágoas, não alimentar inimizades, cultivar amizades, fazer o bem, conhecer a si próprio, afastar-se dos vícios, alimentar-se sem exageros, ser simples e pacificador, além de cultivar o hábito da prece, são boas dicas”.
Campetti também lembra que quando o espírito desencarna ele continua exatamente igual ao que era enquanto encarnado. “Se aqui estamos desequilibrados, levaremos o desequilíbrio para depois do desencarne. Se estamos pacificados para o bem, lá chegaremos em paz”, alerta.
Ribeiro destaca também a tão procurada paciência citada pela pedagoga Sueli. “Devemos lutar por tudo que pode ser mudado e aceitar o que ainda não pode”, avalia. Até porque todas as dores que as pessoas sentem servem para lapidar o espírito, como lembra Sueli, que sofreu com o desencarne de duas filhas ainda jovens.
Mas a fé em Deus reforça a resiliência, a capacidade de lidar com as dificuldades de maneira positiva, entendê-las como aprendizado e mecanismos para a evolução. Tudo isso, para ela, auxilia a vida na Terra e também no entendimento do processo reencarnatório. “Tudo na vida tem uma significação extraordinária. Mas é preciso ter fé. Quando acreditamos no que lemos, quando pesquisamos, vivemos os ensinamentos da Doutrina Espírita, encontramos entendimento, aceitação. As dores passam a ser mansas. No nosso caso, a saudade ficou pela ausência, mas sabemos que nossas filhas ficaram bem após o desencarne, temos essa convicção”, ensina.

NÃO DEIXE PARA AMANHÃ
Analisando o exemplo de Sueli as pessoas devem ter ainda mais consciência de que não devem adiar nada. Tudo deve ser feito hoje, pois nada, nenhuma situação que se vive no presente irá se repetir. A família e os amigos que temos não o serão nas próximas vidas. O momento atual é único. Segundo Campetti, é por isso que as pessoas devem estar atentas, vigilantes, prontas para fazer o necessário, o quanto antes. “Não devemos adiar as realizações nobres, as transformações morais que já sabemos serem necessárias para nos sentirmos melhor. O mais sábio e coerente é fazermos logo, de imediato, o melhor ao nosso alcance”, afirma.
Na escala evolutiva, o progresso universal é muito grande. “E o progresso está longe do seu fim. Para chegar lá, precisamos superar o egoísmo, o orgulho, o fanatismo, o apego aos bens materiais, o desejo de dominação nas relações com o próximo. Mas estamos no caminho”, avalia Campetti.

O HOMEM DE BEM
No capítulo 17 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec enumera algumas características do homem de bem:

»Pratica a lei de justiça, de amor e caridade;
»Interroga a sua consciência sobre os próprios
atos, estuda e combate suas imperfeições;
»Pergunta se não cometeu o mal;
»Pergunta se fez todo o bem que podia;
»Pergunta se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil;
»Pergunta se ninguém tem do que se queixar dele;
»Pergunta se fez aos outros tudo aquilo que queria que os outros fizessem a ele;
»Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria;
»Tem fé no futuro, e por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais;
»Sabe que todas as dores são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar;
»Faz o bem pelo bem, sem esperar recompensa;
»Paga o mal com o bem;
»Sacrifica o seu interesse à justiça;
»Encontra satisfação nos benefícios que distribui, nas consolações que leva aos aflitos;
»Não tem ódio, rancor ou desejo de vingança;
»Perdoa e esquece as ofensas

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