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O SENTIDO DA VIDA

O SENTIDO DA VIDA

Por Tina Demarche (revista SER Espírita – Edição n.2)

Cada uma das pessoas do planeta descreveria de maneira diversa o sentido de sua vida. E ao longo dos anos, cada uma dessas pessoas provavelmente mudaria muitas vezes de ideia a respeito desse significado. As explicações estão frequentemente relacionadas a convicções filosóficas ou religiosas.
Para a psicóloga goiana Fernanda Domiciano Barbosa, de 28 anos, a religiosidade está ligada a um sentimento profundo de que “a vida não se completa sozinha”. Ela acredita que ter uma crença é uma ponte de acesso a Deus e que é isso que proporciona esse sentimento. Mas com ou sem religiosidade, muitas pessoas somente se dão conta já com idade avançada, de que nem viram a vida passar. E daí, tudo parece sem sentido…
A justificativa, de acordo com a psicóloga espírita Ana Célia Oliveira Colle, é a de que as pessoas buscam muitas coisas – objetos, mesmo – fora de si mesmas e que a cultura e a educação estão voltadas para “fazer coisas, executar tarefas”. Com isso, elas acabam não se sentindo, não se percebendo. “As pessoas não se dão conta de que não estão conectadas consigo mesmas. E isso provoca reações neuroquímicas, responsáveis por sensações de desconforto, de mal-estar. Mas elas continuam tocando a vida porque cada vez mais se enchem de tarefas e mantêm a mente preenchida – ou poluída – de coisas que as afastam da sua essência”, afirma. E acrescenta que daí é que vem a sensação de que o tempo passa rápido demais. “Não estamos inteiramente presentes no momento que vivemos”.
Para exemplificar, Ana Célia compara o funcionamento do ser humano ao de um veículo: “Quando uma luz ou barulho estranho surge no carro, nos preocupamos e tomamos rapidamente a providência de levá-lo ao conserto. Mas quando sentimos uma dor de cabeça, o que corresponderia à luz no painel do carro, tomamos uma pílula e só pensamos no assunto quando a dor voltar. E então, tomamos outra pílula. Esse é um exemplo bem concreto do quanto estamos com a atenção voltada para as coisas, ou seja, para fora de nós mesmos”.

EU PROFUNDO
Guilherme Knopak Silva, teólogo espírita e professor, diz que apesar de o Espiritismo apontar que cabe aos espíritos encarnados administrar suas heranças biológicas e sociais buscando exercer seu “eu” mais profundo, refletindo seu ser e construindo os saberes da eternidade, reconhece a dificuldade de grande parte das pessoas em realizar essa leitura interior e viver mediante essa existência profunda. “Acredito que parte da apatia atual das pessoas em buscar um sentido maior para suas vidas, vivendo-as mecanicamente, se deve à ausência de referências seguras para comportamentos e reflexões, fruto da desestruturação crescente das instituições educacionais que se desvincularam da vida concreta dos indivíduos. Além disso, contribui a burocratização e a rigidez cada vez maior das agências religiosas que deixaram de cumprir seu papel de provocar nos indivíduos a busca pelo autoconhecimento”, assegura.
O teólogo complementa que somada a tudo isso, está uma sociedade cada vez mais focada na imagem e no espetáculo, priorizando interesses materiais e dissolvendo em discursos vazios e improdutivos a busca pela espiritualidade. “Constantemente somos bombardeados com apelos variados da sociedade de consumo e despendemos parte de nossas energias em nos adaptarmos às novas demandas de mercado, que são extremamente voláteis para manter desperto nosso desejo.
Dentro dessa dinâmica, nos encontramos permanentemente insatisfeitos e buscando novidades que trazem embutidas a eterna promessa de nos realizar”, afirma. Fernanda concorda. Diz que “o significado da vida não são os sapatos que se têm, a forma dos cabelos, a cor da pele, o local onde se mora, a religião que se professa, o esporte que se pratica ou a escola que se frequenta. O significado não é ser aceito, ou não, pelos outros. Para mim, o significado é contato, família, amigos. É valorizar o amor dos pais, oferecer amor aos filhos, revisar atitudes, buscar ser mais humano, dar valor ao dia, olhar para a frente e projetar uma perspectiva de períodos melhores. É ainda ser responsável por fazer as coisas acontecerem na vida, em vez de esperar que o outro faça”, comenta.

A BUSCA DE SOLUÇÃO
Ana Célia lembra que, na maioria das vezes, o que leva os pacientes a buscar um processo psicoterapêutico é a percepção distorcida da própria realidade e, consequentemente, da situação em que estão, das pessoas envolvidas, e da vida. E diz que existem técnicas muito eficazes para ajudar os pacientes a trabalhar o problema. “Trata-se de um condicionamento; é preciso fazer outra trajetória nas sinapses neuronais do cérebro. O que nos faz sofrer é ficarmos presos a uma maneira de viver, de perceber a vida e as situações – o que muitas vezes nos faz acreditar que não há saída. Muitas coisas em que acreditamos são crenças, não realidade. E essas crenças não nos deixam ir adiante”, afirma.
Em muitas circunstâncias escondido nas “dobras da falta de tempo”, o significado da vida emerge após situações de dor, como uma doença ou o desencarne de um parente. Segundo Ana Célia, alguns autores defendem que a doença é uma oportunidade para que a pessoa pense no sentido daquilo que está vivendo. Ela afirma que a dor propicia uma reconexão do indivíduo consigo mesmo, com o corpo, com a própria vida e com Deus. “Então ele passa a desenvolver o sentimento de pertencimento, de estar conectado com tudo”, diz.
Ana cita a experiência vivida pelo psiquiatra David Schreiber e relatada no livro Anticâncer, com um paciente que tinha câncer no cérebro. “Tudo o que o paciente fazia era estar em frente à tevê, deprimido. Por isso, Schreiber sugeriu a ele um trabalho voluntário. Minutos antes de morrer, o paciente disse ao médico que este salvou sua vida. Schreiber concluiu que, mesmo diante da morte, é possível salvar a própria vida. Isto nos mostra, que é inerente ao ser humano a necessidade de ser útil e que isso pode ser também o que venha a dar sentido à nossa vida”, avalia.
Para Fernanda, mudar de cidade foi um fato difícil e marcante na vida. “Tive que repensar meu comportamento, revisar meus valores, lembrar os ensinamentos de meus pais. Isso tem muito significado para mim”. Depois ela se casou, teve uma filha, conquistou amigos novos, conviveu com as saudades. “Não dava para passar por tantas mudanças e não refletir um pouco sobre o caminho que estava seguindo, bem como sobre o reflexo das minhas escolhas”, pondera.
Silva garante que as situações de dor têm o poder de nos fazer descobrir (ou redescobrir) o significado da vida porque demonstram a medida exata das coisas. E dá um exemplo muito simples: “Nosso organismo suporta, de modo saudável, um limite, uma medida de alimentação. Ao ultrapassá-la ele sinaliza a dor para que em outras ocasiões conjuguemos nosso desejo pelos alimentos com a medida exata do nosso organismo em armazená-los”. De acordo com ele, o mesmo ocorre com as dores mais profundas, morais e psicológicas. “Estas tomam diversos nomes no cotidiano, como angústia, ressentimento, tristeza. Todas essas variações da dor moral nos sensibilizam para adaptarmos nossas condutas e nossas relações com o outro à medida harmônica das práticas conjuntas, nos provocando, ainda, a reavaliar o modo como enxergamos o mundo e a tentar compreendê-lo mediante seu sentido harmônico”, ressalta.

ADAPTAÇÕES INTERNAS
Os momentos, as situações, as pessoas e as ações de cada ser humano podem não expressar exatamente o significado da vida, mas o teólogo acredita que tudo isso motiva sua manifestação. “O contexto em que estamos encarnados nos exige uma série de adaptações internas, de modo que somos obrigados a nos renovar e a dinamizar internamente aquilo que nos é permanente”, diz. Para ele, o significado da vida é conhecer. “Mas um conhecer em profundidade de si mesmo, do funcionamento do Cosmo e da adaptação entre ambos”. A psicóloga espírita partilha dessa ideia, pois para ela o autoconhecimento e a busca pela descoberta também são o que dá significado à vida. “Ela é um imenso espiral.
Se o sentido maior é um vir a ser –a evolução –, esse mundo aqui seria pouco. Desenvolvemos um nível de consciência, de pertencimento, ligados ao universo, ao Cosmo, à totalidade”, avalia. Para chegar a esse nível, a solução passa por alternativas relativamente fáceis de serem colocadas em prática. “O importante é fazer as coisas com prazer. Devemos estar inteiros, presentes, e assim vamos revelando quem verdadeiramente somos. E vamos também percebendo que não somos o que o corpo executa, mas que ele só reflete nosso modo de ser”, afirma Ana Célia.
“Penso que não há oportunidade mais extraordinária para provocar o conhecimento do que estarmos encarnados em um local que rapidamente se decadencia e tudo e todos dependem de nós, assim como nós dependemos de tudo e de todos”, diz Silva. E conclui: “Esta fragilidade das coisas materiais acaba por nos tornar mais solidários ante ao desconhecido, obrigando a nos autoconhecer e a revelar, através de comportamentos e ensinamentos práticos, nossa essência interior”.shutterstock_144396187

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