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Perdão, um ato de amor

Perdão, um ato de amor

Quem somos nós para não perdoar o próximo?

Por Mara Andrich – publicado na SER Espírita impressa n.23

Muitos indianos se indignavam com a atitude pacifista que Mahatma Gandhi adotava na sua liderança para livrar a Índia da dominação da Inglaterra. Em sua luta pacífica, ele defendia a não cooperação e a não violência. Quando o povo se revoltava contra sua pregação, ele jejuava. Com medo que ele morresse de fome, os revoltosos se acalmavam. Diante de gritos por perdão, ele sempre dizia: “Nada tenho a perdoar, pois nunca nem ninguém jamais me ofendeu.”
A humildade desse grande homem, de alma elevada e que conseguiu chegar a este estágio de sequer se sentir maltratado, de entender que todos são iguais, remete a uma ideia: perdoar é um ato de amor, de coragem e de grandeza espiritual. Torna-se inevitável pensar: ‘Quem sou eu para não perdoar alguém?’. Afinal, todas as pessoas erram e é preciso ter consciência disso. “Quem perdoa se fortalece, sendo capaz de comandar o próprio futuro, assumir sua infalibilidade e entender a do outro, pois o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras”, ressalta a terapeuta e psicodramatista Mara Cristina Daldin. Todos já erraram um dia, podem estar errando no presente ou ainda podem errar no futuro. Quem já errou precisa perdoar quem continua errando; precisa ter paciência, pois também ainda corre o risco de errar.
Aliás, o “o erro é o acerto em processo”, como lembra o coordenador de grupos de estudos espíritas Carlos Alexandre Brero de Campos. “Como estamos em constante aprendizado, não sabemos tudo. Assim, é natural que algumas decisões não sejam adequadamente embasadas e acabem levando a resultados indesejados, o que culturalmente chamamos de erro.”
Naturalmente, quando uma pessoa faz mal a outra, uma das primeiras reações que aparecem é o desejo de vingança, já que o ser humano sempre tende a aumentar o fato, a dar mais valor ao acontecimento do que realmente tem – afinal, a mágoa pode ser tão grande que se torna natural as pessoas se fazerem de vítimas. Mas é preciso ter muito cuidado: a vingança é um dos piores caminhos a se seguir, uma espécie de ilusão, como analisa a psicóloga carioca e palestrante espírita Ana Tereza Camasmie. “A vingança é apenas uma anestesia. Ela não resolve a causa”, garante.
O espírito Leocádio José Correia – um dos orientadores da SER Espírita – em suas mensagens psicografadas por meio do médium Maury Rodrigues da Cruz, lembra: “O espírita nunca se ofende”. Ele afirma que quando as pessoas têm consciência da condição de imortalidade, de liberdade e de igualdade compreendem que somente as suas ações determinam o que são, e assim fica mais fácil compreender e conviver no contexto em que vivem.
Os chamados de ‘culpados’, ou talvez os responsáveis pelo suposto erro, acabam tomando uma atitude egoísta perante a situação. “Tanto os queixosos como os culpados – supostos culpados – só conseguem ver o seu lado. Mas é preciso abandonar estas queixas, esta culpa e obter o perdão”, dispara Ana Tereza. Outro pensamento do espírito Leocádio José Correia é o de que “não se terceiriza a responsabilidade”, logo as pessoas devem assumir suas escolhas e seguir no caminho do aprendizado por meio dos resultados que elas trazem. Quem cometeu o ato impensado errou, mas quem não perdoa também está errando. Portanto, é preciso admitir o erro e reparar a ofensa. Segundo a psicóloga, em geral as pessoas são intolerantes, insatisfeitas, inconstantes, mas é preciso ter gratidão, como lembra Joanna de Angelis, no livro Psicologia da Gratidão (psicografado pelo médium Divaldo Pereira Franco). “Se formos gratos às pessoas, se desenvolvermos a gratidão, por exemplo, ficaremos saciados. Se ficarmos saciados, desenvolveremos a fé e suportaremos os imprevistos”, analisa.
Carlos Brero enfatiza que o sentimento de gratidão está diretamente ligado ao de igualdade. “Esse sentimento de gratidão para com o Creador vem da consciência de que somos seres iguais, livres e imortais. Portanto, com a chance de sermos felizes a cada ato, desde que ele represente o que desejamos a nós mesmos”, lembra.
Ana Tereza diz que a situação do não-perdão pode chegar a um ponto em que as pessoas chegam a não tolerar a si próprias, ou seja, já não conseguem mais sustentar tal situação desconfortante, tanto para a pessoa que cometeu o suposto erro como para quem não conseguiu perdoar. Assim, o indivíduo que não perdoa se entedia, como explica a psicóloga. “Ficamos entediados quando não aguentamos mais quem somos”. Depois de um longo tempo sem conseguir perdoar, aceitar, as pessoas ficam angustiadas, pois, na verdade, este comportamento não condiz com uma convicção natural do ser humano, que é amar o próximo, mesmo que ainda não consiga fazê-lo plenamente.
Para ela, é preciso entender, sobretudo, que as pessoas têm sua história de vida, seus motivos para desenvolver determinadas atitudes. “Temos que pensar que o local para onde olhamos não é o único lugar que existe para olhar e que ninguém é responsável sozinho. Vivemos em rede, somos todos responsáveis”, alerta.
O psicólogo, psiquiatra e palestrante espírita gaúcho, Sergio Lopes, afirma que é preciso se arrepender, com sinceridade, e pedir desculpas. E que isso faz parte da evolução do espírito. “E mesmo se eu estiver certo de algumas coisas, eu nunca posso ofender”, destaca. Ele explica que após o arrependimento vem a reparação. E depois são dois caminhos que se abrem: o primeiro é o da dor e, o segundo, o do amor. E, claro, cabe a cada pessoa escolher. Lopes lembra ainda que é necessário diferenciar culpa de responsabilidade. “O fato de eu não ser culpado não elimina a minha responsabilidade”, garante.
Carlos Brero diz que as pessoas devem adotar o termo ‘responsável’ e ir abandonando o termo ‘culpado’, que pode levar a uma interpretação reducionista sobre a pessoa. Ele lembra que ser responsável pelo resultado de suas ações é algo natural, a que todos estão sujeitos. “Assim vamos reduzindo o entendimento de que algumas pessoas são melhores do que outras, pois somos todos iguais perante as leis da natureza, ou, perante o Creador”.
O espírito encarnado é o único responsável pelos seus atos e tem nas mãos a capacidade de mudar o rumo das coisas, já que tem o livre-arbítrio. É uma escolha: ficar remoendo para o resto da vida, magoado, escolhendo o caminho da dor, ou seguir em frente, abrindo caminhos, perdoando as pessoas e escolhendo o amor? A escolha é de cada um.

EU SOU O MAIS BENEFICIADO
Quem perdoa, sem dúvida, é o mais beneficiado de toda a história. A pessoa se ‘liberta’ e, consequentemente, se fortalece, se sente bem melhor consigo e com os outros, já que não remói mais a dor da ofensa, como explica a terapeuta e psicodramatista Mara Cristina Daldin. “Perdoar nos fortalece para a vida, possibilita aprendizados, aceitação e mudanças. Paramos de ressentir, saímos da posição de vítima e deixamos de ser prisioneiros de um sentimento que nos paralisava”, afirma.
A Doutrina Espírita ensina que todos os espíritos encarnados estão em evolução. E que o aprendizado sempre ocorre, estando encarnado ou não. Allan Kardec diz, na obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o ódio e o rancor são próprios dos espíritos menos elevados e que é preciso, inclusive, perdoar os inimigos. “Perdoar os inimigos é pedir perdão para si mesmo, perdoar os amigos é dar prova de amizade”, afirma Kardec. Jesus Cristo disse que se deve perdoar não sete vezes, mas 70 vezes sete. Também no Evangelho, Kardec lembra que é preciso não só perdoar, mas esquecer. “O verdadeiro perdão é aquele que lança um véu sobre o passado”, disse Kardec.
Para Mara Cristina, o não perdoar é se tornar refém do outro. Perdoar, ao contrário, é se livrar dessas correntes. “Portanto, está em nossas mãos escolher como seguir: livres ou acorrentados. O perdão é uma escolha, e o orgulho um impeditivo para a quebra do rancor, para a liberação de um sentimento que nos impede de crescer”, observa a terapeuta.

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Dez ‘mandamentos’ do perdão
1 – Assuma suas responsabilidades
2 – Reconheça que errou
3 – Mude
4 – Admita sua falibilidade
5 – Corrija os erros
6 – Arrependa-se e tenha orgulho disso
7 – Tenha consciência de que você ainda vai errar muito
8 – Pare de se lamentar
9 – Trabalhe
10 – Tenha consciência de que Deus é justo, de que Ele não pune ninguém

Fonte: psiquiatra, psicólogo e palestrante espírita Sergio Lopes.

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“O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte.”
Mahatma Gandhi

“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.”
William Shakespeare

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